Por que a pandemia fez cair o número de transplantes de órgãos

Entidade médica diz que mortalidade na fila de espera por cirurgia pode aumentar devido à suspensão de procedimentos em vários estados

    A pandemia do novo coronavírus no Brasil fez com que a quantidade de transplantes de órgãos no país caísse 34% em abril, em comparação com os dados de 2019. O número se refere a cirurgias de coração, fígado, rins e pâncreas, e foram compilados pela ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos).

    Entre os principais fatores apontados como causa da queda nas intervenções estão a suspensão de serviços de transplantes em alguns estados, o medo dos pacientes de se contaminarem com o vírus nos hospitais e as dificuldades de transporte dos órgãos devido à suspensão de voos.

    Para a entidade médica, o quadro pode aumentar a mortalidade de pessoas que esperam na fila por um transplante e sobrecarregar serviços como os de hemodiálise.

    “Essa queda vai continuar acontecendo, mas a gente espera que a recuperação ocorra à medida que os leitos de UTI [Unidade de Terapia Intensiva] fiquem vagos e que os hospitais consigam ficar mais tranquilos e sem lotação de pacientes com covid-19”, disse Huygens Garcia, cirurgião transplantador do Hospital Universitário da Universidade Federal do Ceará e presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), ao Nexo. Ele estima que a situação comece a se normalizar a partir de agosto.

    O Brasil tem o maior serviço público de transplantes de órgãos do mundo e é o segundo país que mais realiza o procedimento em números absolutos, atrás apenas dos Estados Unidos. Quase a totalidade das cirurgias (96%) são feitas pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em 2019, segundo a ABTO, foram cerca de 30 mil procedimentos do tipo em todo o país. Desse total, 6.283 foram transplantes de rim, 2.245 de fígado, 378 de coração, 173 de pâncreas e 104 de pulmão, entre outros.

    Para que um transplante ocorra nos casos em que o doador morreu, a legislação brasileira exige que haja confirmação do diagnóstico de morte encefálica e autorização da família. Geralmente, são pessoas que sofreram traumatismo craniano ou AVC (acidente vascular cerebral).

    O quadro antes da pandemia

    Entre janeiro e março, a situação dos transplantes no país era semelhante à observada em 2019. O número de potenciais doadores permaneceu estável (52 para cada milhão de habitantes), o de doadores efetivos aumentou (18,4 por milhão de habitantes contra 16,8 do ano anterior) e houve ainda alta nos transplantes de rim, fígado, pulmão e pâncreas.

    Segundo o presidente da ABTO, Huygens Garcia, o impacto começou a acontecer na segunda quinzena de março, com o avanço dos casos do coronavírus no Brasil. Em abril, a queda atingiu 34%, na comparação com o ano anterior.

    O efeito, porém, não foi sentido por igual em todo o país. Estados como Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina foram menos afetados porque sofreram menos com a pandemia, segundo o médico. “A doação nesses lugares está se mantendo estável. Mas outros estados que têm mais contaminação vêm diminuindo o número de transplantes. No Ceará e em Pernambuco caiu muito a doação, em mais de 50% em alguns casos”, disse.

    Ele lembrou que a pandemia derrubou as cirurgias em todo o mundo. “Na França, inicialmente, caiu 50%, na Inglaterra mais de 50%, na Espanha, que é a referência mundial em doação de órgãos, no meio de março, chegou a 90%”, afirmou o médico.

    Os fatores da queda

    Aumento da negação familiar

    Segundo a ABTO, o contato das equipes com as famílias dos doadores e as buscas por autorização ficaram mais difíceis por causa da pandemia. “Algumas famílias não comparecem ao hospital ou não querem esperar o protocolo de morte cerebral, que é muito rígido no Brasil, e terminam preferindo fazer o sepultamento, até porque, neste momento, não tem velório”, conta Garcia.

    UTIs lotadas

    Por causa do aumento repentino de casos de pacientes com problemas respiratórios causados pelo novo coronavírus nos grandes centros urbanos, os hospitais decidiram reservar alas inteiras para tratar da doença. Em São Paulo, por exemplo, o Hospital das Clínicas transformou salas cirúrgicas em leitos de UTIs. “Tem UTIs de hospitais gerais que estão lotadas de pacientes com covid. Não tem espaço muitas vezes para internar pessoas por outras causas, o que é um grande problema, não somente para transplantes”, disse o médico.

    Medo do receptor

    O presidente da ABTO considera que o medo sentido por quem vai receber o órgão também complica a situação. “O receptor de rim tem a hemodiálise como tratamento temporário. Alguns dos que estão na fila preferiram esperar um pouco e não fazer o transplante agora justamente pelo risco de contrair a covid-19”, contou. Ele lembra, porém, que pacientes que esperam por um coração, fígado ou pulmão não têm tratamento substituto e precisam passar logo pela cirurgia.

    Suspensão de serviços

    Outro aspecto que interferiu no número de transplantes foi a decisão de hospitais de suspenderem os serviços temporariamente, como ocorreu desde o início da pandemia em estados como Pernambuco e Ceará. Em São Paulo, o Hospital das Clínicas cancelou temporariamente o serviço depois que cinco dos 29 pacientes internados no setor se infectaram com o coronavírus. Segundo a ABTO, isso pode ser evitado em hospitais que se dedicam apenas a transplantes, como o Hospital do Rim, em São Paulo, que possui o maior serviço de transplante de rins do mundo. “Como ele é dirigido para o transplante, ele tem capacidade plena de continuar fazendo o procedimento”, disse Garcia.

    Dificuldade de transporte

    Com a pandemia e as restrições de circulação, as empresas aéreas também reduziram suas atividades. E isso teve impacto nos transplantes. Um órgão colhido no Ceará, por exemplo, pode ser disponibilizado para o sistema nacional de transplantes, que possui uma fila única, e enviado para São Paulo ou Rio Grande do Sul. O problema é que, se antes havia cerca de 15 voos diários saindo de Fortaleza, agora são um ou dois. “Às vezes pode-se não aproveitar um órgão por causa disso”, conta o presidente da ABTO. Os órgãos geralmente viajam em voos comerciais e suportam prazos diferentes até a cirurgia. “O fígado pode ir em voo comercial desde que tenha um ajuste do horário, porque o ideal é que faça a cirurgia entre oito e dez horas. Já o rim pode até 24 horas. Por isso é o órgão que mais viaja”, afirmou.

    As consequências das suspensões

    O impacto da pandemia nos transplantes deverá ocasionar sobrecarga em serviços como hemodiálise, como prevê a ABTO. Apenas em 2018, 133.464 pacientes precisaram passar pelo procedimento, segundo dados do Censo Brasileiro de Diálise.

    De acordo com Garcia, um possível aumento de pacientes nas clínicas de hemodiálise de todo o Brasil tem um custo social e financeiro. “Eventualmente, será preciso até um cuidado para não faltar vaga para o paciente, em determinados estados.”

    Os pacientes com problemas renais, porém, podem fazer tratamento enquanto aguardam o transplante, o que não acontece com pessoas na fila por um coração, fígado ou pulmão. Nesses casos, o médico prevê um aumento da mortalidade na fila. “Isso já está aumentando. Porque eles não podem esperar. A mortalidade na fila de transplante de fígado no Brasil, em média, é de 30% a 40%. Já era alta antes. E a quantidade de doadores do Brasil não atende às necessidades”, afirmou.

    Alguns procedimentos como transplantes de córneas foram suspensos em vários estados, tendo sido mantidos apenas em casos de urgência. Muitos deles tinham fila de espera praticamente zerada porque a córnea pode ser retirada até seis horas após a parada cardíaca do doador, o que aumenta as chances da cirurgia. A paralisação nesse caso pode gerar, na opinião da entidade, uma fila que não existia antes. Em 2019, foram feitos quase 15 mil transplantes de córnea no Brasil. Um mês parado, portanto, poderia significar 1.200 pacientes a mais na espera.

    A ABTO tem recomendado que os serviços sejam mantidos dentro da capacidade de cada hospital e de cada estado. Segundo a entidade, os hospitais terão que se adaptar às condições impostas pela pandemia. “A luta agora é para, assim que a curva de infectados pelo coronavírus for achatada, selecionar os serviços de hospitais para continuar fazendo os transplantes, as cirurgias cardíacas e de câncer, entre outras áreas, e manter uma outra estrutura reservada para a covid”, afirmou Garcia.

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