O remédio que pode acelerar a recuperação de doentes de covid-19

Estudos apontam efeitos positivos do remdesivir em pacientes graves, e uso foi autorizado no Reino Unido, EUA e Japão em determinados casos. Medicamento não está disponível no Brasil

    O Reino Unido irá disponibilizar em seu sistema de saúde pública um medicamento antiviral que pode acelerar a recuperação de pacientes com covid-19. Desenvolvido para tratar a hepatite C, o remdesivir também foi recentemente aprovado para uso emergencial nos EUA e em casos graves da doença no Japão.

    O ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, afirmou que a medida era talvez o maior passo no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus desde o início da pandemia. Baseado em pesquisas recentes, Hancock afirmou que o processo de recuperação do paciente poderia ser encurtado em cerca de quatro dias com o uso da droga. Um dos maiores desafios que a covid-19 impõe aos é a falta de leitos, que podem ficar ocupados pelo mesmo paciente por semanas.

    O Reino Unido é o segundo país com mais mortes por covid-19 no mundo, segundo dados atualizados na quarta-feira (27). São mais de 37 mil óbitos, atrás apenas dos Estados Unidos, com quase 99 mil. Na mesma data, o Brasil totalizava mais de 25,5 mil mortes.

    Desenvolvido pela empresa farmacêutica americana Gilead, o remdesivir também foi testado, sem sucesso, como tratamento contra o ebola e o vírus de Marburg, causador de um tipo de febre hemorrágica.

    Em 29 de abril, o governo americano anunciou o potencial do tratamento do remdesivir. Segundo Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, em cerimônia na Casa Branca, ao lado do presidente Donald Trump, uma pesquisa havia mostrado que o medicamento reduziu em quatro dias o tempo de recuperação de pacientes de covid-19. A pesquisa foi publicada em 26 de maio.

    Fauci comparou o achado aos primeiros resultados obtidos com a droga AZT no combate ao HIV. Na época, a aids era vista como incurável. Segundo o diretor, o remdesivir prova que o novo coronavírus pode ser contido com o remédio.

    Em 1º de maio, o remdesivir recebeu autorização para uso emergencial do FDA americano, o equivalente americano à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Segundo o texto informativo da FDA sobre a autorização de emergência, não existem produtos aprovados pelo órgão para a covid-19, mas o medicamento de Gilead “pode beneficiar certas pessoas no hospital”.

    Distribuição mundial

    O remdesivir não é fabricado no Brasil. Em 6 de maio, funcionários da Anvisa se encontraram com representantes da Gilead para discutir seu registro, manufatura e distribuição no país. O Ministério da Saúde solicitou ao Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) que dê prioridade ao pedido de patente do medicamento.

    No dia 12, no entanto, a empresa comunicou que havia abdicado da patente do remédio para que ele pudesse ser distribuído em 127 países por meio de cinco empresas sediadas na Índia e no Paquistão. O Brasil não consta na lista de países.

    “As empresas têm o direito de receber uma transferência de tecnologia do processo de fabricação da Gilead para o remdesivir, permitindo que a produção seja aumentada mais rapidamente. Os licenciados também estabelecem seus próprios preços para o produto genérico que produzem”, afirmou a empresa, em comunicado.

    Segundo uma ONG americana que avalia preços de medicamentos, o custo de fabricação de um tratamento de dez dias de remdesivir para uma pessoa fica em torno de US$ 9,32 (R$ 49,33 na cotação de 27 de maio de 2020).

    Testes clínicos

    Na terça-feira (26), foram publicados os resultados preliminares dos testes clínicos realizados com o medicamento nos EUA, com revisão de outros acadêmicos. Eles apontaram que o remdesivir teve melhor desempenho no tratamento contra casos severos de covid-19, que necessitavam de respirador, do que quando usados durante os cuidados convencionais. Não foi possível, atualmente, observar os efeitos do remédio em casos mais leves de infecção pelo vírus.

    Os testes foram realizados em 1.063 pacientes em dez países, ao longo de 58 dias. Um grupo de participantes recebeu o antiviral por dez dias, junto de cuidados normais do tratamento de covid-19. A outro grupo, foi administrado um placebo.

    Aqueles que receberam o medicamento tiveram um tempo mediano de recuperação de 11 dias, frente a 15 dos que ingeriram o placebo. O estudo considerou como recuperado o paciente apto a ter alta do hospital. A taxa de mortalidade entre os que tomaram o medicamento foi de 8%, comparada a 11,6% entre os que receberam o placebo.

    O experimento foi patrocinado pelo Instituto Nacional de Alergia de Doenças Infecciosas (Niaid), um dos centros que faz parte da Agência Nacional de Saúde dos EUA. As conclusões foram publicadas na The New England Journal of Medicine, prestigiosa publicação científica americana.

    Um dos cientistas que encabeça o estudo é o infectologista brasileiro André Kalil, da Universidade de Nebraska Medical Center. Segundo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo, o remdesivir é o “mais favorável ao tratamento do covid-19” entre as diversas pesquisas realizadas atualmente.

    O próximo passo do estudo é avaliar a combinação do remédio com um anti-inflamatório usado contra artrite reumatoide. Kalil ressaltou, porém, que o medicamento não se trata de uma cura contra a covid-19, mas sim de uma possibilidade para o tratamento. Além disso, defendeu mais estudos antes que o remdesivir receba o sinal verde para uso padrão.

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