Além da descoberta: o passo a passo para a chegada da vacina

Desenvolvimento em tempo recorde de antídoto contra o coronavírus não é o único obstáculo. Infraestrutura, custos de distribuição, patentes, competição entre países e insumos para campanhas nacionais também são desafios

Diante da pandemia de covid-19, laboratórios e governos do mundo todo se propuseram a quebrar recordes de eficiência para desenvolverem vacinas contra o novo coronavírus.

15 anos

é o tempo médio que se leva para que uma vacina seja criada

1,5 ano

é uma das previsões mais otimistas para que uma vacina contra o novo coronavírus seja criada e amplamente distribuída

Caso se confirmem os prognósticos de um desenvolvimento ineditamente veloz de uma tecnologia eficaz, economicamente viável e sem efeitos colaterais proibitivos, o passo seguinte será produzir e distribuir a vacina em escala suficiente para imunizar bilhões de pessoas ao redor do mundo. O desafio inclui fatores como infraestrutura fabril, disponibilidade de insumos, variedade das estratégias vacinais e patentes.

O lugar da produção

Experts da indústria farmacêutica afirmam que a fabricação de bilhões de doses de vacina contra o novo coronavírus irá requerer toda a capacidade mundial de biomanufatura. Essa capacidade inclui recursos financeiros e humanos para produção não apenas do fármaco em si, mas também dos frascos herméticos de cada dose, dos equipamentos de refrigeração dos lotes e das seringas ou dos sprays, se a vacina for nasal. A infraestrutura logística, para o transporte ágil e seguro da produção, também terá que ser reforçada.

Além do engajamento coletivo, será necessário construir ou adaptar plantas fabris para destiná-las especificamente à produção da vacina contra o coronavírus. No mercado das vacinas, é comum que fábricas inteiras sejam montadas para cada produto, porque as necessidades de infraestrutura variam bastante de vacina para vacina.

A incubação dos vírus, por exemplo, pode ser feita de diversas maneiras, como por exemplo em ovos ou em uma espécie de caldo de células animais. E o uso de material biológico demanda instalações submetidas a medidas sanitárias muito mais complexas do que as aplicáveis às produções de fármacos convencionais. Os custos são pelo menos três vezes maiores no caso das vacinas.

Farmacêuticas já investem, com o auxílio de governos e fundações, no aumento de sua capacidade de fabricação, mesmo que ainda não se saiba que tipo de vacina será produzido. Esse adiantamento pode significar a construção de unidades fabris inúteis, desperdiçando-se tempo e dinheiro, mas evita que se perca tempo na corrida dos laboratórios para frear o vírus. As instalações também serão necessárias para a produção das doses para a fase de ensaio clínico que exige o teste em milhares de pessoas.

A Fundação Bill e Melinda Gates também já anunciou que construirá fábricas para sete vacinas diferentes, ainda na fase de testes, mesmo que seja grande a probabilidade de descarte de pelo menos cinco delas no futuro.

Mesmo que acabemos escolhendo no máximo duas delas, vamos financiar fábricas para todas as sete, apenas para não perder tempo

Bill Gates

fundador da Microsoft, empresário e filantropo, em entrevista ao The Daily Show, publicada no YouTube em 7 de abril de 2020

O tempo da produção

Outro fator do complexo processo de imunização mundial é o prazo necessário para a produção de um número de doses que possa chegar a bilhões, se a imunização exigir mais de uma dose por pessoa.

Afetando esse prazo, uma das fragilidades das cadeias de suprimentos das farmacêuticas é a concentração da produção de insumos, direto ou indiretos, em poucos países. Sem grandes estoques, o que aumentaria o custo da produção, as empresas frequentemente dependem da compra de materiais em outros países, que podem restringir a venda para atender primeiro aos seus interesses nacionais.

Outro fator que impede uma redução ainda maior dos prazos já propostos é o tempo dos processos biológicos necessários a diferentes etapas da produção de vacina. Isso além do tempo de testagem, que inclui a espera de meses para a verificação de possíveis efeitos colaterais de um protótipo vacinal em outros animais e em seres humanos.

O custo da produção

A depender do tipo de vacina que consiga aprovação das autoridades sanitárias para ser comercializada, o custo do produto final pode comprometer o acesso de alguns países à imunização e, consequentemente, a saúde global como um todo.

Duas estratégias para o desenvolvimento da vacina

VÍRUS INATIVADO

É o método tradicional e, portanto, de resultados mais previsíveis. O organismo vacinado é exposto diretamente a um vírus. Nesse método, o vírus é danificado para ser injetado já em estado inativo, de forma que ele não seja mais capaz de sequestrar todo o mecanismo celular e provocar a covid-19 (a doença causada pelo novo coronavírus).

TÉCNICAS MOLECULARES

Ainda não há vacinas dessa no mercado, mas elas podem ser mais versáteis. O organismo vacinado é exposto a um trecho do código genético, o RNA, do novo coronavírus, ou a um outro vírus que tenha sido geneticamente modificado para produzir as mesmas proteínas que o vírus causador da covid-19. O sistema imunológico vacinado reage como se o próprio vírus estivesse ali. Trocando a sequência genética, é possível adaptar a vacina para outras variantes do vírus.

Segundo a microbiologista Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, as vacinas que utilizam o próprio vírus (e não seu RNA ou um adenovírus) tendem a ser mais custosas. Vai precisar cultivar o vírus e isso muitas vezes é mais custoso. E você precisa de grandes quantidades do vírus para fazer a vacina. Então é uma logística mais complicada. Mas é perfeitamente segura, perfeitamente possível, disse Pasternak ao Globo.

Além da distribuição global, há a questão das campanhas de vacinação nos países. Afetam o custo dessas campanhas, segundo Pasternak, fatores como:

  • Eficiência no armazenamento (quantidade de doses por litro);
  • Número de doses necessárias para a imunização plena de uma pessoa;
  • Necessidade de seringas descartáveis, em vez de um spray, por exemplo.

A repetição de campanhas de vacinação

Segundo o epidemiologista Michael Mina, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, a experiência com outros coronavírus humanos, assim como com diversos patógenos que causam resfriados, mostra que a imunidade que se desenvolve após a infecção do trato respiratório dura apenas alguns meses.

É provável portanto que a vacina contra o novo coronavírus tenha de ser tomada periodicamente, como acontece atualmente com as vacinas para influenza.

Como em casos de influenza, é possível que a vacina para a covid-19 não seja capaz de oferecer imunização esterilizante (completa), mas apenas contra as versões mais graves da doença. O avanço já seria enorme, de qualquer forma.

A disputa geopolítica

A demanda global gerará eficiência de escala para laboratórios do mundo todo, mas a distribuição da vacina para países que não tenham condição de produzi-la ou mesmo de comprá-la dependerá do esclarecimento e da vontade de governos nacionais, bem como das iniciativas de organizações internacionais e não governamentais.

A OMS (Organização Mundial da Saúde), em conjunto com entidades privadas e mais de 40 países, lançou em abril uma plataforma de cooperação internacional para acelerar o desenvolvimento de uma vacina, de remédios e de kits de testagem para o novo coronavírus. O projeto promete garantir o acesso global aos fármacos que serão desenvolvidos.

Em reforço à iniciativa, a OMS aprovou no dia 19 de maio uma resolução que afirma a importância da imunização global em prevenir, conter e interromper a transmissão [do novo coronavírus], de forma a de pôr fim à pandemia e reconhece a imunização extensiva contra a covid-19 como bem público global. O texto foi apoiado pelo Brasil que, no entanto, não participa do referido programa da organização pela busca da vacina.

O governo americano de Donald Trump, no entanto, já afirmou em documento que não concorda com a flexibilização de patentes. O posicionamento se choca com o de potências como Alemanha, Reino Unido e Japão.

Colaborou Gabriel Maia

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