Qual o grau de letalidade do coronavírus nas UTIs brasileiras

Pesquisa feita por entidade médica com dados de 450 hospitais públicos e privados mostra que maioria dos pacientes que são intubados não resiste à doença

    A maioria dos brasileiros infectados pelo novo coronavírus que desenvolvem um quadro grave e precisam de ventilador mecânico para respirar não conseguem sobreviver mesmo com o procedimento, segundo um levantamento da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

    A entidade analisou os dados de 13.695 leitos distribuídos em 450 hospitais de todo o país, sendo que 73% deles pertencem à rede privada. As informações foram coletadas de 1º de março a 15 de maio.

    O levantamento mostrou que, de cada dez pacientes com covid-19 que chegaram à UTI (Unidade de Terapia Intensiva), três não resistiram.

    Mas a taxa de mortalidade foi bem maior entre os indivíduos com a doença que precisaram ser intubados. Nesse procedimento, um tubo é inserido pela boca do paciente até a traqueia, e um equipamento conhecido como ventilador sopra ar comprimido com oxigênio para as vias aéreas. A alimentação é feita por meio de uma sonda que passa pelo nariz e vai até o estômago. Apenas um em cada três infectados pelo vírus que receberam o tratamento nas unidades analisadas sobreviveu.

    Para a entidade médica responsável pelo estudo, o número é assustador e retrata a gravidade da doença quando há comprometimento dos pulmões e necessidade de ventilação mecânica.

    A pesquisa mostra ainda que a taxa de mortalidade é um pouco maior na rede pública do que na privada. Enquanto na primeira a porcentagem atinge 69,9%, na segunda fica em 65%.

    Nos hospitais analisados, a taxa de ocupação das UTIs no período era de 78,3% — do total de internações, 17,2% eram por covid-19. A maioria dos pacientes em estado grave com a infecção era formada por homens (60,8%), com média de idade de 60 anos (54% tinha mais de 65 anos), e 71,9% possuíam comorbidades, como doenças cardíacas e diabetes. Em média, um doente com coronavírus fica dez dias na UTI. A média geral, considerando todos as doenças, foi de 7,4 dias.

    391.222

    pessoas foram infectadas pelo coronavírus no Brasil até a terça-feira (26), segundo o Ministério da Saúde

    24.512

    era o número de mortos pela doença na mesma data, de acordo com o órgão

    6,3%

    é a taxa de letalidade da covid-19 no país

    A mortalidade pelo mundo

    Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), cerca de 80% dos infectados pelo novo coronavírus se recuperam em casa. O resto é hospitalizado e apenas uma parcela que gira em torno de 5% evolui para casos graves que vão exigir o uso de respiradores em UTIs.

    A letalidade de pacientes em estado grave que precisam de respiradores tem se mostrado alta no mundo todo. Levantamentos mostraram taxas de 42% no Reino Unido e 44% na Holanda, por exemplo. Na China, um estudo com 710 pacientes apontou que 86% dos que passaram pelo procedimento morreram.

    Outro estudo publicado na revista Jama (Journal of the American Medical Association), nos Estados Unidos, com base em 5.700 pacientes na região metropolitana de Nova York entre 1º março e 4 de abril, notou que, de todos os pacientes que precisaram ser intubados, apenas 38 se recuperaram e receberam alta, enquanto 282 morreram. A taxa de mortalidade foi de 88%.

    O levantamento, porém, recebeu críticas por excluir do cálculo os demais 831 pacientes que ainda continuavam hospitalizados se recuperando da doença com o uso de ventiladores, o que representava 72% de toda a amostra dos pacientes intubados. O estudo da Amib também desconsidera as pessoas ainda internadas.

    Professor de medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, Colin Cooke afirmou à rádio pública americana NPR que os ventiladores não significam uma “sentença de morte”, como sugere o estudo. Segundo ele, essa situação não é a observada pelo médicos que lidam com a doença. “Acreditamos que a mortalidade para pessoas com covid-19 que precisam de ventiladores vai acabar sendo, provavelmente, algo entre 25% e 50%”, afirmou.

    Dados de outros hospitais dos Estados Unidos mostraram uma taxa de mortalidade que variava de 20% a 30%. Profissionais lembraram à emissora que, apesar de a mortalidade poder ser mais baixa do que apontam os estudos, a doença continua sendo “devastadora”.

    Uma análise sobre a mortalidade em UTIs

    Para entender o que há por trás dos dados do levantamento feito nos hospitais brasileiros, o Nexo conversou com o médico Ederlon Rezende, diretor do serviço de medicina intensiva do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e membro do conselho consultivo da Amib.

    Por que a taxa de mortalidade nesses casos graves é tão alta?

    EDERLON REZENDE É uma coisa que vem chamando a atenção de médicos no mundo inteiro. Em Nova York foi assim, em Madri, na Inglaterra, na Itália, isso tem se repetido em todos os lugares. O problema é que essa doença, quando tem sua apresentação mais grave, além de comprometer muito o pulmão, compromete o funcionamento de outros órgãos, como o rim e o coração. E isso faz com que a mortalidade seja muito alta.

    Os pacientes que precisam da ventilação mecânica são, de todos os que têm a doença, os mais graves. Porque eles tiveram falência, perderam a capacidade de funcionamento do pulmão. A pneumonia e a inflamação são tão graves que levaram a essa necessidade da assistência ventilatória. O que faz com que a mortalidade seja alta não é a utilização do ventilador, é o fato de que quem precisa do ventilador é mais grave.

    Em infecção por outros agentes, a taxa é semelhante?

    EDERLON REZENDE Não. Nós temos experiências com outros pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave, influenza, e mesmo pneumonia bacteriana. As taxas de mortalidade são menores. Geralmente, nessas outras situações, com insuficiência respiratória por outros agentes infecciosos, a taxa de mortalidade [de quem precisa de ventilação] costuma ser menor do que 50%. Um paciente com influenza pode evoluir para um quadro igual de um paciente da covid, mas as chances de sobrevivência são maiores.

    Há diferença na mortalidade dependendo da região do país?

    EDERLON REZENDE A mortalidade do paciente está relacionada a vários aspectos. Na terapia intensiva, muito do resultado depende da qualidade do atendimento. Isso significa uma equipe bem treinada, num quantitativo adequado. Quando se está dentro de um cenário de colapso do sistema de saúde, com as UTIs lotadas, equipes sobrecarregadas e uma condição fora do habitual, os resultados são muito piores. E a gente consegue identificar isso na pesquisa. Em regiões onde houve o colapso do sistema, a mortalidade é mais alta. Há um impacto importante aí na condição de organização, da disponibilidade de vagas, para o resultado. Isso tudo influencia de maneira bastante importante.

    Um estudo recente mostrou que o uso da cloroquina aumenta as chances de morte. Isso pode ter algum efeito nesse número?

    EDERLON REZENDE Os nossos dados são de 1º de março a 15 de maio. Ao longo desse período, mudou bastante a utilização da hidroxicloroquina nos hospitais brasileiros. Em especial na população de pacientes de UTI, a utilização nunca foi tão grande. De uma maneira geral, a minha percepção é que o paciente que utiliza essa droga antes de chegar à terapia intensiva pode ter algum prejuízo. Mas os dados da nossa pesquisa não nos permitem fazer essa inferência. A gente precisaria ter uma comparação de quem usou e quem não usou para poder avaliar de maneira mais científica.

    Se a pesquisa considerasse os pacientes internados, e não apenas os que morreram e receberam alta, a taxa poderia ser menor?

    EDERLON REZENDE No caso dos nossos dados, nós estamos levando em conta para avaliar a taxa de mortalidade só os pacientes que já saíram do hospital ou os que morreram. Tem um volume de pacientes que continuam internados. Só vamos poder ter esse resultado total quando a pandemia acabar. Mas, independente dessas limitações, o aspecto mais importante do estudo é chamar a atenção de que a mortalidade dos pacientes mais graves com a covid-19 é muito alta.

    Como é muito difícil identificar precocemente quem pode ter essa evolução ou não, a melhor maneira de se proteger é evitando a doença. E a maneira mais eficiente que a gente conhece, até aqui, para evitar a doença, é o afastamento social. E tem mais: é uma doença que tem dizimado famílias. Como é contagiosa, com contágio fácil, tem sido frequente ter dois, três, quatro pessoas de uma mesma família que faleceram. Não estamos falando de uma “gripezinha”, como já foi dito. É uma doença muito grave, e gente tem que respeitá-la.

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