Por que os números da pandemia em Minas são questionados

Pesquisadores alertam que estado pode ter 16 vezes mais casos do que o registrado oficialmente. Alinhado a Bolsonaro, governador Romeu Zema critica quarentenas e minimiza falta de testes

    Temas

    Com um registro oficial de apenas 42 mortos pelo novo coronavírus, número considerado baixo se comparado com o de outras capitais do país, Belo Horizonte começou na segunda-feira (25) a retomar atividades comerciais e a flexibilizar o isolamento social iniciado em março. Cerca de 11 mil estabelecimentos voltaram a funcionar, como shoppings e salões de beleza, e houve aglomerações em alguns lugares.

    O governador do estado, Romeu Zema (Novo), considera a situação mineira “sob controle”. Mas pesquisadores alertam que a realidade local é outra: Minas Gerais pode ter 16 vezes mais infectados do que indicam os dados oficiais e apresenta um quadro de subnotificação quatro vezes superior ao do resto do país. O problema se deve à falta de testes.

    21 milhões

    é a população estimada do estado de Minas, segundo o IBGE

    Segundo estado mais populoso do país, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais é o segundo com a menor taxa de mortalidade do país pelo coronavírus, segundo os dados oficiais: 1,1 por 100 mil habitantes. Só fica atrás do Mato Grosso do Sul, com 0,6.

    Na segunda-feira (25), dados oficiais do governo mineiro confirmavam 6.962 casos e 230 mortes. O número é muito baixo se comparado com o de São Paulo, que tinha 82 mil casos e 6 mil mortes.

    O próprio Zema admitiu em abril que o estado não tinha dinheiro para adquirir 500 mil testes necessários para a testagem em massa. Até a segunda-feira (25), apenas 20.142 testes haviam sido realizados em laboratórios da rede pública, segundo o governo do estado. Como comparação, o estado de São Paulo comprou desde abril 3,3 milhões de testes rápidos.

    Até maio, Minas divulgava, além dos casos confirmados e do número de mortes, a quantidade de casos suspeitos da doença, que necessitavam de confirmação. Como os testes não eram feitos, o número de casos suspeitos começou a se acumular e ultrapassou os 100 mil em 11 de maio. Quatro dias depois, o estado parou de divulgar o dado, alegando mudança na padronização dos casos feita pelo Ministério da Saúde.

    374.898

    casos de infecção pelo novo coronavírus em todo o país foram confirmados até a segunda-feira (25) pelo Ministério da Saúde

    23.273

    era o número de mortos pela doença até a mesma data, segundo o órgão

    O que indica a subnotificação em Minas

    Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia analisaram dados dos sistemas oficiais do governo, como informações de registros cartoriais e do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), para tentar estimar a dimensão da crise sanitária no estado.

    Eles observaram um aumento de 648% em mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) desde o início da pandemia em 2020, em comparação com as médias do mesmo período dos anos anteriores. Isso sugere que as vítimas do coronavírus podem estar sendo incluídas nessa categoria sem terem sido testadas para a doença.

    “Sabemos que algumas Síndromes Respiratórias Agudas Graves acontecem de forma sazonal em diferentes locais do Brasil, em diferentes momentos, seja por influenza, seja pelas gripes comuns. Esses quadros acontecem. Mas o que nós observamos é que no ano de 2020 isso aconteceu para além dos limites máximos esperados analisando essas séries temporais”, disse Stefan Vilges de Oliveira, professor do departamento de saúde coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia e um dos coautores da pesquisa, ao Nexo.

    Segundo ele, os dados mostram que a doença pode ter começado a fazer vítimas no estado um mês antes da primeira morte registrada oficialmente. “Nós observamos esse aumento que a gente chama de excesso de mortes na semana epidemiológica número dez, que equivale ao início de março. Só que o registro oficial do primeiro óbito da covid em Minas ocorreu no final de março. Teríamos, portanto, um mês do início desse excesso de Síndrome Respiratória Aguda Grave que, potencialmente, poderia ser casos de covid sem o diagnóstico específico”, afirmou o professor.

    Informações oficiais mostram que da semana epidemiológica 12 à 20, o estado de Minas Gerais teve cerca de mil mortes a mais, em cada um das semanas, por Síndrome Respiratória Aguda Grave. Por convenção internacional, as vigilâncias epidemiológicas contabilizam os casos das doenças ao longo de semanas — chamadas de epidemiológicas — dentro de um ano.

    O estudo sugere que os números oficiais usados para flexibilizar as quarentenas sejam avaliados com cuidado, considerando que exista a subnotificação. “O Ministério da Saúde reconheceu essa fragilidade da questão diagnóstica e orientou os estados a investigar de forma retrospectiva os casos para que se mensure de fato os números de forma mais segura, até para que a gente consiga fazer uma retomada e propor medidas que deem segurança para a população”, disse Oliveira.

    Para ele, o risco do afrouxamento das medidas de isolamento sem base em números confiáveis está na interiorização da doença em cidades pequenas que não possuem UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e respiradores para atender os doentes.

    “O ideal seria ter testagem em massa, como tem preconizado a Organização Mundial de Saúde, para entender como está a imunidade da população e, a partir daí, ir afrouxando ou não as estratégias de contenção, mas, da forma como está, a gente está apagando um incêndio de olhos fechados, para utilizar as próprias palavras do diretor da OMS”, afirmou.

    Como Minas lida com a doença

    Governador mineiro, Zema decretou estado de calamidade pública em março e suspendeu o comércio e as aulas no estado. Alinhado ao presidente Jair Bolsonaro, um dos únicos chefes de governo no mundo que ainda minimizam a gravidade da pandemia, ele tem defendido flexibilização das medidas. O presidente já chamou a doença de “gripezinha”, criticou os governadores por adotarem medidas de isolamento social e defende o retorno das atividades econômicas.

    Em abril, Zema foi um dos poucos governadores que não assinaram uma carta em defesa da democracia e de apoio ao Congresso Nacional. Ele defendeu Bolsonaro por participar de uma manifestação em Brasília que pedia intervenção militar. Disse ainda que o presidente era vítima de um “totalitarismo”.

    Durante uma videoconferência para investidores, em abril, ele criticou prefeitos mineiros por fecharem o comércio em cidades pequenas e disse que o vírus precisava “viajar um pouco”.

    “Se nós impedirmos ele [coronavírus] totalmente, ele acaba deixando algumas regiões sem estar infectadas, e amanhã nós vamos ter uma onda gigantesca nessa região. Então, o ideal é que ele se propague, mas devagar, e a ausência total de propagação é ruim”

    Romeu Zema

    governador de Minas Gerais, em videoconferência, em abril

    A assessoria do governador depois explicou que ele defendia uma propagação lenta da doença por se preocupar com um pico de infecção que poderia levar o sistema de saúde ao colapso.

    Na quinta-feira (21), em entrevista a um programa de rádio, Zema minimizou a subnotificação no estado dizendo que os hospitais estavam ociosos, sem doentes ou pessoas procurando os serviços para fazer testes. Ele disse que não forçaria no “laço” os pacientes a se testarem e classificou o combate à doença por seu governo como um “sucesso”, com apenas 7% das vagas em UTIs ocupadas por pacientes com sintomas de covid-19.

    Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, a taxa de ocupação dos leitos de UTI em Minas era de 66% no domingo (24), considerando todas as doenças.

    A reabertura em Belo Horizonte

    Zema também vem se desentendendo com o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que adotou desde março um isolamento social mais rigoroso e critica o que chama de “politização” da pandemia.

    O governador mineiro sugeriu em entrevista em maio que o prefeito da capital tem um estilo “tirânico” em relação às quarentenas. Kalil se defende dizendo que não é médico e que, por isso, segue conselhos de cientistas, direcionando apenas os recursos para que as medidas sejam aplicadas na cidade.

    Por conta dos números de Belo Horizonte, Kalil determinou a reabertura gradual do comércio na segunda-feira (25). Na primeira fase, com duração prevista de duas semanas, voltam a abrir salões de beleza, shoppings e setores de comércios varejistas.

    A continuidade do processo vai depender dos números da doença nos próximos dias. “Estamos com medo [de flexibilizar o isolamento], porque não sabemos o que vai acontecer, mas esperançosos de que todo mundo vai concordar em manter o distanciamento”, afirmou em entrevista na sexta-feira (22) o secretário de Saúde de Belo Horizonte, Jackson Machado Pinto.

    Algumas medidas foram definidas, como obrigatoriedade do uso de máscaras nas ruas e fixação de cartazes educativos sobre a necessidade de distanciamento social. “Acabou aquela época de ir para a rua procurando o que comprar. A gente já deve sair de casa sabendo o que vai comprar. Devemos chegar, comprar e voltar para a casa. Aquela época de ficar passeando em loja acabou”, disse o secretário.

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