Como Trump afeta Bolsonaro ao proibir a entrada de brasileiros

Medida é recíproca e tem caráter sanitário, mas traz consequências negativas para um presidente que tenta mostrar alinhamento total com a Casa Branca e que nega a gravidade da pandemia

    O presidente americano, Donald Trump, decretou no domingo (24) a proibição da entrada de brasileiros nos EUA. O decreto também se aplica a todo estrangeiro que tenha passado pelo território brasileiro num intervalo de até 14 dias antes da data de tentativa de entrada nos EUA.

    A nova norma americana entra em vigor a partir de sexta-feira (29) e tem duração indeterminada, até que o presidente Trump resolva derrogar o próprio decreto. Os EUA são o país com o maior número de contaminados pela covid-19 no mundo (1,6 milhão até 25 de maio). O Brasil é o segundo (363 mil). Em número de mortos, os EUA são o primeiro e o Brasil é o sexto.

    Junto com a publicação do decreto, a Embaixada dos EUA em Brasília lançou um documento com detalhes da nova regra. No documento, o órgão explica as exceções – feitas a cidadãos americanos e seus familiares, além de detentores do “green card” (visto permanente), entre outras categorias específicas. O comércio de cargas permanece inalterado, e a restrição recai sobre os passageiros, não sobre os 13 voos semanais existentes hoje, que continuarão existindo.

    Na prática, trata-se de documento de saúde pública, orientado pela CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês), que segue procedimento semelhante já adotado por muitos outros países do mundo desde que a covid-19 foi decretada pandêmica (de alastramento global) pela OMS (Organização Mundial da Saúde), em 30 de janeiro de 2020.

    Até mesmo o Brasil já tinha publicado mais de uma portaria proibindo a entrada de “estrangeiros de qualquer nacionalidade” no país. A própria Embaixada dos EUA em Brasília mencionou o fato em comunicado, mostrando que existe uma reciprocidade, cuja única intenção é “restringir o potencial de transmissão do vírus” no mundo. A portaria mais recente de proibição de estrangeiros no Brasil foi publicada na sexta-feira (22), dois dias antes do decreto de Trump.

    1,6 milhão

    É o número de pessoas diagnosticadas com a covid-19 nos EUA – país com maior número de contaminados no mundo – até segunda-feira (25)

    363 mil

    É o número de pessoas diagnosticadas com a covid-19 no Brasil – segundo país com maior número de contaminados no mundo – até segunda-feira (25)

    Para além da saúde, a política

    Apesar da preocupação meramente sanitária, a medida adotada por Trump tem inevitavelmente um efeito político negativo para Jair Bolsonaro, pois o presidente brasileiro lidera um governo que se jacta de ter construído um alinhamento político total e sem precedentes históricos entre o Brasil e os EUA.

    Embora o decreto americano não abale as estruturas dessa relação, ele põe em evidência as consequências do ceticismo de Bolsonaro em relação a uma doença grave, que fez do Brasil um dos líderes mundiais em número de mortos – condição que foi mencionada textualmente no decreto da Casa Branca.

    Para Bolsonaro, um presidente que tenta a todo custo minimizar a dimensão da pandemia e que já trocou duas vezes de ministro da Saúde no meio da crise, a constatação de que seu governo deixou o número de casos sair de controle é um revés – especialmente quando essa constatação é feita por Trump, a quem Bolsonaro apresenta como seu maior aliado internacional.

    “A República Federativa do Brasil está passando por um alastramento da transmissão da Sars-CoV-2 de pessoa para pessoa [...] com o terceiro [segundo, de acordo com a Universidade John Hopkins] maior número de casos confirmados no mundo”

    Trecho do decreto assinado pelo presidente americano, Donald Trump, em 24 de maio, banindo a entrada de brasileiros nos EUA

    Trump e Bolsonaro – dois dos maiores expoentes da nova extrema direita populista no mundo – partiram alinhados em seu ceticismo a respeito da covid-19.

    Ambos minimizaram o impacto da doença no início, sugerindo que havia então uma reação excessiva aos riscos. Trump, que está em ano eleitoral e vê sua popularidade cair, corrigiu o rumo do discurso conforme a pandemia se alastrou pelos EUA.

    O presidente americano passou do ceticismo à uma ambiguidade calculada, pedindo a reabertura do comércio, mas recomendando o uso de máscaras e o distanciamento social. Assim como Bolsonaro faz com a cloroquina, Trump também sugeriu o uso de tratamentos sem eficácia comprovada (incluindo injeção de desinfetante de uso doméstico), mas sem demitir seus ministros e assessores que recomendavam o contrário.

    Bolsonaro, em contraste, assumiu a posição mais radical entre todos os líderes mundiais. Depois de tratar a pandemia como uma “gripezinha” em sua origem, o líder brasileiro continua saindo às ruas sem máscara, participando de protestos em favor do seu governo marcados por grandes aglomerações, e sugerindo que os governadores que baixam medidas de confinamento violam a liberdade dos cidadãos.

    Além de ter trocado duas vezes de ministro da Saúde no meio da crise, o presidente brasileiro investiu recursos públicos na produção da hidroxicloroquina, um medicamento originalmente usado contra a malária, cuja eficácia contra a covid-19 não é comprovada, e chegou a desdenhar do número de mortos, respondendo “e daí?”, quando questionado por repórteres sobre a escalada letal da pandemia no Brasil.

    Nesse sentido, o decreto de Trump representa um marco físico do distanciamento entre os dois líderes durante a pandemia, embora diplomatas dos dois países tenham começado a trabalhar para realçar os pontos de sintonia entre os dois governos.

    Colaboração com respiradores

    Em compensação à restrição dos voos, os dois governos passaram a realçar uma lista de ações de cooperação existente entre o Brasil e os EUA no campo da saúde.

    O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, replicou em sua conta no Twitter post do NSC (Conselho Nacional de Segurança, na sigla em inglês), no qual é anunciada a doação de mil respiradores para hospitais brasileiros.

    O Conselho diz ainda que “o Brasil é um dos parceiros [americanos] mais fortes do mundo”, e realça que “os EUA reconhecem os grandes esforços do governo brasileiro” durante a pandemia, destacando que em breve serão anunciadas novas cooperações nas áreas de defesa e comércio.

    Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, e as medidas recentes não têm o poder de alterar essa condição. Além do Brasil, os EUA também impuseram restrições à entrada em seu território a passageiros provenientes de uma lista de países, incluindo os 27 membros da União Europeia.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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