Cruzeiro: a anatomia de um desastre na gestão do futebol

O ‘Nexo’ conta como o clube mineiro foi dos títulos à crise que envolve investigações policiais, dívidas e rebaixamento

    Aos 34 do segundo tempo, Fred cobrou o pênalti. O goleiro Victor pulou para o lado esquerdo, mas a bola entrou no canto direito. O placar ficou em 1 a 1 e assim permaneceu até o fim do jogo. Quando o juiz apitou, o Cruzeiro comemorou o título do Campeonato Mineiro, o segundo consecutivo sobre seu maior rival, o Atlético-MG.

    O título estadual conquistado em 20 de abril de 2019 foi o último de uma década vitoriosa, em que o Cruzeiro levou dois Campeonatos Brasileiros (2013 e 2014), duas Copas do Brasil (2017 e 2018) e quatro Campeonatos Mineiros (2011, 2014, 2018 e 2019). Mas foi também o último momento positivo antes de uma crise sem precedentes.

    Em 2020, o Cruzeiro passa por problemas financeiros, crise política e punições esportivas. Até mesmo a Justiça comum – e não só a desportiva – está envolvida. Abaixo, o Nexo conta como foi a trajetória descendente do Cruzeiro, do título mineiro de 2019 até a crise em maio de 2020.

    As primeiras denúncias

    No final de maio de 2019, pouco mais de um mês após a conquista do Campeonato Mineiro, o Cruzeiro seguia bem em campo. O time se classificou para o mata-mata da Libertadores com uma das melhores campanhas da fase de grupos, e conseguiu bom resultado contra o Fluminense no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil. No Campeonato Brasileiro, a campanha era irregular, com duas vitórias em seis rodadas.

    Em 26 de maio de 2019, uma reportagem dos jornalistas Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo foi ao ar no Fantástico, programa da TV Globo, denunciando indícios de gestão financeira irregular no clube.

    Documentos obtidos pela reportagem mostravam que o clube negociou direitos econômicos – incluindo um jogador de 11 anos – com empresários. A prática é irregular, uma vez que apenas clubes e os próprios atletas podem deter passes dos jogadores, pelas regras definidas pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) em 2015.

    Além disso, crianças e adolescentes não podem ter contratos profissionais antes dos 16 anos, o que significa que a venda de direitos do jogador de 11 anos não poderia ter ocorrido. A reportagem também mostrou que empresários não habilitados pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) firmaram contratos com o Cruzeiro.

    A reportagem do Fantástico também revelou a falta de transparência financeira do clube, com indícios de gestão irresponsável. A dívida do Cruzeiro havia aumentado em 35% em 2018, indo de R$ 384 milhões para R$ 520 milhões no primeiro ano de mandato do presidente Wagner Pires de Sá. E os números ainda foram maquiados com uma manobra contábil que computou a venda de jogadores executadas em 2019 no balanço de 2018, o que é irregular.

    Além disso, o clube aprovou no início de 2019 um plano de empréstimo de quase R$ 300 milhões junto a um fundo internacional, mas não informou nomes, termos e garantias do negócio. Balancetes sobre operações feitas pelo clube não foram revelados pela diretoria, e a falta de transparência da cúpula do clube levou à renúncia de membros de seu Conselho Fiscal. O restante do conselho também renunciou nos dias seguintes à reportagem do Fantástico ir ao ar.

    As práticas de falta de transparência financeira chamaram a atenção da Polícia Civil de Minas Gerais, que abriu no final de 2018 investigação com suspeita de lavagem de dinheiro, pagamentos suspeitos e falsidade ideológica. Mais tarde, a Polícia Federal também passou a investigar possíveis desvios de dinheiro.

    Em nota divulgada no dia em que a reportagem da TV Globo foi ao ar, o então presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá, disse que o clube tinha compromisso com a transparência e a responsabilidade, e que eventuais vazamentos de documentos internos do clube eram obra de adversários políticos.

    Problemas no campo

    As denúncias abriram uma crise no Cruzeiro. Mais de cem conselheiros do clube manifestaram desejo de montar uma comissão para investigação da gestão financeira do time. O então presidente do Conselho Deliberativo, Zezé Perrella – senador da República pelo PMDB de Minas entre 2011 e 2019 – criou uma comissão provisória para apurar as denúncias e cobrou da diretoria documentos sobre operações financeiras.

    Mas os problemas não ficaram restritos aos bastidores do clube. Após passar a pausa para a Copa América na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, o time voltou mal. A equipe foi eliminada da Libertadores no final de julho e registrou uma sequência de 18 partidas com apenas uma vitória.

    Em 7 de agosto, a derrota para o Internacional por 1 a 0 em Belo Horizonte pela Copa do Brasil foi o oitavo jogo seguido sem marcar gols, e resultou na demissão do técnico Mano Menezes, que estava no cargo desde meados de 2016.

    Para o lugar de Mano, o Cruzeiro contratou Rogério Ceni, ídolo do São Paulo, que treinava até então o Fortaleza. Mas Ceni não durou nem dois meses na posição. Foram apenas oito jogos, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas.

    Além dos resultados ruins, Ceni teve problemas na gestão do elenco, e foi contestado por alguns jogadores. O treinador foi questionado publicamente pelo meio campista Thiago Neves sobre a escalação da equipe, e o rebateu em declaração à imprensa. O zagueiro Dedé também discutiu com Ceni a respeito de escalação, questionando a ausência de Thiago Neves no jogo contra o Ceará. O atrito ocorreu no vestiário da Arena Castelão, em Fortaleza. Itair Machado, então vice-presidente de futebol do Cruzeiro, não deu respaldo a Ceni no confronto com os jogadores e demitiu o treinador.

    Mais problemas nos bastidores

    Enquanto o desempenho da equipe caía, o clube foi novamente assunto por problemas nos bastidores. Em junho, um dos conselheiros nomeados para a comissão provisória de apuração das denúncias do Fantástico foi preso. A suspeita sobre Márcio Antônio Camillozzi Marra, agente da Polícia Federal, era de vazamento de documentos sigilosos do órgão.

    Em julho, a Polícia Civil de Minas Gerais cumpriu mandados de busca e apreensão em sedes do Cruzeiro e endereços ligados a dirigentes. Além da sede do clube e dos centros de treinamento profissional e da base, a polícia foi às casas do presidente Wagner Pires de Sá, do vice-presidente de futebol Itair Machado e do diretor-geral Sérgio Nonato. Também foi alvo da operação o empresário Cristiano Richard dos Santos Machado, que havia recebido direitos econômicos de atletas para quitar uma dívida de R$ 2 milhões.

    O Ministério Público não deu detalhes sobre a investigação por ela ocorrer em sigilo. Em nota oficial, o Cruzeiro disse que apoiava a apuração das denúncias e que entregou às autoridades todas as documentações solicitadas; o clube também disse que lamentava que a operação tenha acontecido às vésperas do clássico contra o Atlético-MG, valendo pela primeira fase da Copa do Brasil.

    Além dos novos problemas com a Justiça, o Cruzeiro também tinha dificuldades de pagar seus funcionários. Assistentes de cozinha, jogadores e diretores ficaram sem receber. O atraso de salários no clube foi evidenciado também por um áudio vazado em que o jogador Thiago Neves cobrava de Zezé Perrella esforços para cumprir os compromissos que não estavam em dia.

    O rebaixamento no Brasileirão

    A cúpula da diretoria era cada vez mais pressionada por conselheiros e torcida. Itair Machado, então vice-presidente de futebol, foi demitido, e o cargo foi assumido por Zezé Perrella, que se licenciou do Conselho Deliberativo.

    Em campo, Abel Braga, contratado após a saída de Rogério Ceni no final de setembro, não conseguiu reverter os resultados negativos da equipe. Foram dois meses de trabalho do treinador, que em 14 jogos venceu apenas três, empatou oito e perdeu três. Quando Abel saiu, no final de novembro, faltavam apenas três rodadas para o final do Campeonato Brasileiro, e o Cruzeiro estava na zona de rebaixamento.

    Adilson Batista, que havia treinado o clube na campanha do vice-campeonato da Libertadores em 2009, foi contratado como última esperança para livrar o time da série B. Mas o time perdeu os três jogos.

    Em 8 de dezembro, o Cruzeiro foi derrotado pelo Palmeiras por 2 a 0 no Mineirão, e foi rebaixado para a segunda divisão pela primeira vez em sua história. O jogo contou com brigas e confusão nas arquibancadas, e o confronto entre a torcida e a Polícia Militar terminou com três detidos.

    Vácuo político e investigação interna

    Em dezembro de 2019, após a queda para a série B, o presidente Wagner Pires de Sá e seus vices renunciaram. O clube passou a ser comandado por um conselho gestor, que estabeleceu como meta apurar os problemas do clube e sanar as contas. O Cruzeiro ficou sem presidente por meses; em 21 de maio, Sérgio Santos Rodrigues foi eleito para a presidência, em cargo que deve ocupar até o final de 2020.

    Sob comando do conselho gestor, o time diminuiu gastos administrativos, reduziu setores do clube e cortou a folha salarial em mais de 80%. Além disso, o conselho entrou em contato com outras equipes para tentar renegociar dívidas relativas a transações de jogadores e contratou a consultoria Kroll para investigação da gestão do clube entre 2018 e 2019.

    A auditoria da Kroll mostrou que quase R$ 40 milhões do Cruzeiro foram usados em pagamentos irregulares ou suspeitos entre dezembro de 2017 e dezembro de 2019. Analisando mais de 200 gigabytes de informações, a empresa revelou diversas práticas ilegais ou incondizentes com as atividades e interesses do Cruzeiro. A denúncia incluía:

    • Mais de R$ 13 milhões pagos em comissões a intermediários não registrados na CBF
    • Envolvimento de menores de idade em negociações de atletas, conforme denunciado pela reportagem do Fantástico
    • Pagamento de R$ 80 mil em cartão corporativo em gastos não relacionadas às atividades do Cruzeiro, incluindo “casa noturna de entretenimento adulto” em Portugal
    • R$ 1,5 milhão em gastos sem descrição feitos por dirigentes
    • Mais de R$ 14 milhões em pagamentos a empresas ligadas a conselheiros do clube, diretores e familiares
    • Aumento de despesas de R$ 770 milhões entre 2016 e 2017 para R$ 1,1 bilhão entre 2018 e 2019

    Um documento com as denúncias foi entregue ao Ministério Público de Minas Gerais em 18 de maio de 2020.

    Sobre os gastos em uma casa noturna de Portugal, o ex-presidente do Cruzeiro justificou os gastos, dizendo que foram feitos em uma reunião de negócios. Segundo Pires de Sá, a ida à boate foi um jantar com empresários portugueses visando a negociação de jogadores.

    Antes da divulgação dos detalhes do relatório da Kroll, o ex-presidente já havia se manifestado sobre o aumento em gastos com o cartão corporativo do clube, dizendo que não via “nenhum absurdo financeiro”. Ele também disse que a divulgação dos números do cartão era resultado de ataques de adversários políticos.

    A punição esportiva

    Em meio às dívidas e investigações, o Cruzeiro também enfrenta em 2020 punições esportivas impostas pela Fifa. Na terça-feira (19), o clube foi comunicado pela CBF da perda de seis pontos em decorrência de uma dívida não paga ao Al-Wahda, time dos Emirados Árabes Unidos.

    O valor de € 850 mil (R$ 5,17 milhões, pela cotação de 22 de maio de 2020) se refere ao empréstimo do volante Denilson, que ficou no clube de Minas Gerais pelo segundo semestre de 2016, jogando apenas cinco jogos; só duas partidas foram como titular. O Cruzeiro não pagou e o Al-Wahda foi à Fifa.

    Com a decisão da entidade internacional – tratada como definitiva dentro do clube –, o Cruzeiro começará a Série B de 2020 com seis pontos negativos. Caso não quite a dívida com o Al-Wahda, o Cruzeiro pode estar sujeito a punições mais rigorosas pela Fifa, como até o rebaixamento para a Série C. O clube ainda sustenta outros R$ 81 milhões em dívidas em processos na Fifa, mas prevê deficit de R$ 143 milhões em 2020.

    As contas de 2019

    Na quarta-feira (20), o clube também divulgou o balanço de 2019, com deficit recorde para qualquer clube brasileiro na história. As despesas superaram a receita em quase quatro centenas de milhões de reais.

    R$ 394 milhões

    foi o deficit do Cruzeiro em 2019

    Enquanto isso, a dívida do clube subiu para mais de R$ 800 milhões, sendo a maior parte em vencimentos de curto prazo. O movimento ocorreu em meio a uma queda nas receitas e aumento nos gastos, em especial administrativos.

    O Cruzeiro em 2020

    Apesar do trabalho de saneamento nas contas, as perspectivas para 2020 também não são boas. A antecipação de receitas pela gestão de Wagner Pires de Sá e Itair Machado, somada à queda para a Série B, fez com que a receita de televisão do Cruzeiro caísse em mais de 80% de 2019 para 2020, segundo cálculos do blog do jornalista Rodrigo Capelo no Globoesporte.com.

    A pandemia do novo coronavírus também prejudicou o Cruzeiro, levando a redução de receitas de diferentes origens. A paralisação do futebol fez com que o dinheiro de bilheterias de jogos fosse a zero. Além disso, recursos do clube social e do programa de sócio torcedor também tiveram queda. Sem jogos e sem exposição das marcas, patrocinadores negociam cortes nos valores repassados ao clube.

    Nesse cenário, o clube voltou a atrasar salários. O clube diz que não há dinheiro para os pagamentos por conta da crise do novo coronavírus. Não há previsão para a volta do futebol em Minas Gerais.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que as despesas do Cruzeiro haviam aumentado de R$ 770 bilhões entre 2016 e 2017 para R$ 1,1 trilhão entre 2018 e 2019. Na realidade, elas foram de R$ 770 milhões para R$ 1,1 bilhão. O texto foi corrigido às 14h04 do dia 25 de maio de 2020.

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