Como o avanço da pandemia revela um cenário alarmante no Brasil

Sem ministro da Saúde e apostando em remédio contestado pela ciência, país desponta como um novo epicentro do coronavírus no mundo 

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    O Brasil vive uma rápida escalada da pandemia do novo coronavírus e já é o segundo país mais afetado pela doença no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

    A marca de 300 mil infectados e de 20 mil mortos pela covid-19 foi ultrapassada na quinta-feira (21), dia em que o Brasil registrou o recorde de 1.188 novas mortes em apenas 24 horas.

    Nas palavras dos diretores da OMS (Organização Mundial de Saúde), a América do Sul tornou-se “um novo epicentro” da doença no mundo, tendo à frente o Brasil em quantidade de casos e mortes.

    “Em um sentido, a América do Sul se transformou em um novo epicentro da doença. Vimos muitos países com números aumentando de casos e claramente há uma preocupação em muitos desses países. Mas o mais afetado é o Brasil”

    Michael Ryan

    diretor de emergências da OMS, em entrevista na sexta-feira (22)

    O presidente Jair Bolsonaro, um dos poucos chefes de governo no mundo que ainda minimizam os perigos da pandemia, disse na quinta-feira (21), novamente, que a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, é grave apenas para idosos e portadores de doenças crônicas, ignorando que as mortes cresceram entre jovens e adultos com menos de 60 anos.

    “No meu entender, houve uma propaganda muito forte em cima disso [o coronavírus]. Trouxe o pavor para o seio da família brasileira”

    Jair Bolsonaro

    presidente, em videoconferência com lideranças católicas, na quinta-feira (21)

    A aposta do presidente para combater a pandemia tem sido a cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina. Os remédios são usados por pacientes com malária, artrite reumatóide e lúpus e não têm eficácia comprovada contra o coronavírus. Mesmo assim, Bolsonaro exigiu que o Ministério da Saúde alterasse o protocolo sobre seu uso.

    Os medicamentos, antes autorizados apenas para casos graves, foram liberados na quarta-feira (20) para todos os pacientes. Pesquisas mostraram que, além de não funcionar para doentes da covid-19, os remédios ainda podem causar graves efeitos colaterais, como problemas cardíacos.

    Os sistemas de saúde de estados do Norte e Nordeste, de São Paulo e do Rio de Janeiro operam há semanas no limite. Há falta de vagas de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), de equipamentos de proteção individual para as equipes de saúde e de respiradores mecânicos. Ao todo, já morreram 113 médicos e 143 enfermeiros devido à doença, segundo levantamento do jornal O Globo e dados do Conselho Federal de Enfermagem.

    347.398

    casos de covid-19 tinham sido confirmados até a sábado (23), segundo o Ministério da Saúde

    22.013

    era o número de mortes devido à doença até a mesma data, segundo o Ministério da Saúde

    O estágio da pandemia no Brasil

    Se o Brasil tinha demorado 68 dias para chegar a 100 mil casos confirmados da doença em 3 de maio, foram necessários apenas 11 dias para dobrar esse número e mais sete dias para alcançar 300 mil casos. Apesar de ainda estar atrás dos Estados Unidos no número de mortes registradas por dia, a tendência do país é de alta, enquanto a taxa americana está em queda. Isso faz do Brasil o país com o quadro mais preocupante no mundo.

    O agravamento da crise acompanha o relaxamento do isolamento social no país. Na maior parte dos lugares, os governos não vêm conseguindo manter nem 50% da população em casa. Por isso, ao menos seis estados decretaram medidas mais duras para controlar a circulação de carros e pessoas.

    Mesmo com os lockdowns, as cidades mais afetadas ainda estão longe de atingir os 70% apontados por especialistas como sendo a taxa de isolamento ideal para reduzir a propagação do vírus de forma expressiva. Especialistas dizem que a inclusão de muitas categorias como sendo essenciais e a incapacidade de fazer o isolamento em comunidades mais pobres enfraquecem as iniciativas.

    Em São Paulo, que concentra 13% de todos os casos do Brasil, o prefeito Bruno Covas (PSDB) antecipou feriados para tentar manter a população em casa, depois de tentar, sem sucesso, espalhar barreiras de trânsito e ampliar o rodízio de carros — ele voltou atrás nessas decisões. Um lockdown na capital paulista tem sido dificultado pela resistência de prefeitos da região metropolitana, que conta com 39 municípios. Para ter o efeito desejado, a restrição teria que ser geral.

    Pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ligada ao Ministério da Saúde, defendem que medidas mais rígidas de isolamento social em localidades como o Rio de Janeiro são as únicas capazes de frear a curva de infecção e evitar o colapso dos hospitais. Na quinta-feira (21), porém, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), afirmou que deve começar a reabertura escalonada do comércio da cidade nos próximos dias. Bolsonaro, que almoçou com o prefeito naquele dia, disse após o encontro que o Rio estava na “iminência de abrir”.

    A expansão da doença para o interior

    Os primeiros casos da doença no Brasil foram identificados em fevereiro, em São Paulo, em pessoas que haviam viajado para países onde o vírus já circulava, como a Itália. Com o tempo, a doença foi se espalhando e afetando com mais gravidade os bairros mais pobres das capitais, onde a concentração de pessoas nos domicílios é maior.

    Além de impactar as regiões mais populosas do país, a doença passou também a se interiorizar. No início de maio, o vírus começou a se propagar no interior e no litoral de São Paulo numa taxa quatro vezes superior à da Grande São Paulo. O governo paulista projeta que, até o final do mês, todas as 645 cidades do estado terão casos confirmados.

    Dados do Ministério da Saúde mostram que, na quarta-feira (20), 62,6% dos municípios brasileiros tinham sido afetados pelo coronavírus, o que representava 3.488 cidades. Pesquisadores da Fiocruz identificaram que, entre 9 e 16 de maio, 227 cidades com menos de 10 mil habitantes tiveram o primeiro caso da doença. O vírus também chegou, pela primeira vez, em 197 municípios com população entre 10 mil e 20 mil habitantes e em 112 com um intervalo de 20 mil a 50 mil habitantes, no mesmo período.

    7,8 milhões

    é o número de brasileiros que vivem em locais que exigem viagens de quatro horas até cidades com hospitais equipados com leitos de UTI, segundo o mesmo estudo da Fiocruz

    A interiorização dos casos foi apontada como “inevitável” pelo ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, na quinta-feira (21). “Temos que estar preparados, aumentando a capacidade ainda dessas capitais e cidades maiores, porque elas serão o destino das pessoas que vão buscar o tratamento. Precisamos investir na capacidade de transporte, respiradores de transporte, estrutura para fazer as evacuações, que permita que a gente traga, das cidades do interior, para tratamento [nas cidades maiores]”, afirmou.

    Sem coordenação na pandemia

    Desde 15 de maio, e em meio ao agravamento da crise sanitária, o Brasil não tem um ministro da Saúde. O oncologista Nelson Teich, que substituiu o ortopedista Luiz Henrique Mandetta, não permaneceu sequer um mês no cargo. Sem experiência na gestão de saúde pública, ele demonstrava em reuniões e entrevistas desconhecimento sobre a crise enfrentada pelo país e passou a ser tutelado por militares.

    Teich pediu demissão por não concordar com a mudança no protocolo da cloroquina defendida por Bolsonaro. O presidente tem defendido desde o início da crise a volta à normalidade, discurso que não condizia também com o que Mandetta pregava em sua gestão. Ao adotar uma fala escorada na ciência, o ex-ministro conquistou popularidade maior do que a do presidente e foi demitido após fazer críticas a Bolsonaro.

    Atualmente, o Ministério da Saúde tem sido conduzido interinamente pelo secretário-executivo da pasta, Eduardo Pazuello. O general tem em seu currículo a coordenação da operação Acolhida, programa que recebe cidadãos venezuelanos que chegam ao Brasil por Roraima fugindo da crise humanitária no país vizinho. Mas não tem experiência em saúde. Após a saída de Teich, ele nomeou mais nove militares para ocupar postos-chaves do órgão no lugar de funcionários de carreira. Ao todo, o ministério já conta com 21 militares sem experiência na área, inclusive em funções mais especializadas.

    Os secretários estaduais de Saúde criticam a falta de coordenação das políticas de enfrentamento à pandemia e a insistência do governo federal em centrar as estratégias em medicamentos sem eficácia.

    Em nota, o Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde) pediu ao ministério, na quarta-feira (20), atenção aos temas que envolvam todos os entes federativos. “Por que estamos debatendo a cloroquina e não a logística de distanciamento social? Por que estamos debatendo a cloroquina ao invés de pensar um plano integrado de ampliação da capacidade de resposta do Ministério da Saúde para ajudar os estados em emergência?”, questionou a entidade.

    Os secretários defendem um “projeto único, pactuado, dialogado com as necessidades de cada região do país, com as dificuldades de cada unidade federativa, bem como das capitais e demais municípios” no combate à pandemia.

    As críticas sobre o comportamento do governo federal em meio a pandemia partiram até do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Em videoconferência com líderes sindicais na terça-feira (19), o ministro disse que o país está “há dois meses sem perspectiva”.

    “Falta coordenação, falta orientação, faltam medidas que nos deem tranquilidade”, afirmou. Para ele, essa situação dificulta, inclusive, a retomada da economia no país.

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