As patrulhas populares que impõem a quarentena no Japão

Grupos auto-organizados recorrem a linchamentos virtuais e perseguições pessoais para punir quem viola o confinamento

    O premiê japonês, Shinzo Abe, adotou, desde o início da pandemia, uma estratégia relutante de quarentena. O fechamento de escolas e comércio, assim como o confinamento da população, foi decretado tardiamente, e de forma apenas parcial.

    Essa abordagem ambígua trouxe para Abe uma queda nos índices de popularidade – pela primeira vez desde o início do atual mandato do premiê, em 2012, há mais japoneses reprovando (47%) do que aprovando (42%) seu governo.

    Quando Abe decretou estado de emergência sanitária nacional, em 7 de abril, havia 93 mortos e 1.200 infectados pela covid-19 no Japão. Na terça-feira (19), o número de mortos havia passado para 749 e o de infectados para mais de 16 mil.

    Ainda assim, o governo considerou que o ritmo de crescimento havia diminuído, o que justificou a decisão tomada em 14 de maio de levantar a quarentena em 39 das 47 províncias que compõem o país.

    O premiê acredita ter tomado, desde o início, a melhor decisão. A maior preocupação de Abe era proteger a economia, mas nem esse resultado é certo, já que as previsões para o futuro são sombrias. O PIB (Produto Interno Bruto) caiu 3,4% de janeiro a março, e a previsão é de queda de 22% no segundo trimestre.

    A postura relutante do governo causou exasperação num país em que o comportamento direto e assertivo é visto como uma grande qualidade. Em contraposição ao zigue-zague de Abe, alguns japoneses radicalizaram na estratégia de fazer valer a quarentena a qualquer custo, e deram início a estratégias populares de imposição do isolamento social.

    Linchamentos virtuais

    Jornais japoneses registraram no início do mês de maio uma série de atos protagonizados por grupos auto-organizados de cidadãos chamados no país de “jishuku keisatsu”, ou forças de contenção.

    Esses grupos são formados por amigos e vizinhos que se mobilizam para assumir a segurança dos locais onde vivem, sejam bairros, vilarejos ou pequenas cidades, contra a presença de pessoas indesejadas.

    A prática não é nova. Os “jishuku keisatsu” fazem parte da história do Japão, mas seu emprego na atual pandemia, para tentar barrar o alastramento de um vírus, é algo incomum.

    Em sua forma mais suave, a patrulha é exercida na internet, sem contato físico. Os “jishuku keisatsu” buscam nas redes sociais informações que demonstrem que uma determinada pessoa está furando a quarentena, ao se deslocar, por exemplo, de uma cidade grande para um balneário no litoral ou um vilarejo na montanha.

    Nesses casos, os patrulheiros expõem a pessoa nas redes, publicando imagens e assediando o usuário pela internet, numa espécie de linchamento virtual.

    O jornal The Japan Times conta o caso de uma mulher de 20 anos que, mesmo tendo o diagnóstico da covid-19, fez uma viagem de 126 quilômetros, entre as cidades de Tóquio e Yamanashi, furando as regras da quarentena no início de maio. Os “jishuku keisatsu” souberam da história pela imprensa, foram atrás da jovem nas redes e inundaram seus perfis com acusações de que ela promovia “corona-terrorismo”, espalhando o vírus pelo país. Eles também escreveram mensagens e telefonaram para os empregadores da mulher, denunciando o comportamento irresponsável dele aos chefes.

    Assédio real nas ruas

    Em casos mais graves, os “jishuku keisatsu” partem para a perseguição física. Eles vasculham registros de placas de veículos para descobrir motoristas que estejam circulando em locais distantes de suas próprias residências.

    Em pelo menos duas províncias, de Tokushima e Iwate – a primeira no sudoeste e a segunda no nordeste do Japão – os patrulheiros vandalizaram carros de pessoas provenientes de locais distantes.

    Em outros casos, como numa loja de doces nos arredores de Tóquio, os “jishuku keisatsu” colaram uma carta na porta advertindo os proprietários a não abrirem as portas e a não servirem as crianças da localidade.

    O dono do negócio, Yasuko Murayama, de 74 anos, disse em entrevista à agência de notícias Jiji Press que ficou “com muito medo” da carta intimidadora. A agência disse, citando fontes do direito, que a ação dos “jishuku keisatsu” deveria ser proibida pelas autoridades, mesmo que seus protagonistas se sintam revestidos de um senso de justiça.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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