O estudo global que reafirma a ineficácia da cloroquina contra o coronavírus

Pesquisa aponta que medicamento defendido pelo presidente Jair Bolsonaro na pandemia pode aumentar risco de morte e de arritmia grave em pacientes

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: O estudo utilizado como base para o texto a seguir está passando por uma auditoria da revista Lancet, periódico responsável por sua publicação. Três dos pesquisadores que assinaram o artigo com os resultados fizeram uma retratação retirando-se como autores. Eles afirmam que não podem comprovar a veracidade da base de dados. Entenda.

    Defendida pelo presidente Jair Bolsonaro como tratamento para a covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, a cloroquina teve seus riscos à saúde destacados no estudo mais abrangente já realizado sobre o medicamento.

    Encabeçado pelo professor Mandeep R Mehra, do centro cardiovascular da Escola de Medicina de Harvard, o trabalho destaca que a “segurança e benefícios” da cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina tiveram “avaliação ruim” quando usadas no tratamento da covid-19. Os achados da pesquisa foram publicados na revista médica britânica The Lancet, referência mundial.

    96.032

    Número de pacientes com covid-19 que tiveram dados analisados pelo estudo

    671

    Número de hospitais ao redor do mundo que forneceram dados para o estudo

    Os pacientes foram acompanhados entre o final de dezembro de 2019 e meados de abril de 2020. Do total analisado, 14.888 passaram por tratamento com alguma variedade ou combinação da cloroquina nas primeiras 48 horas de internação. Em todas as situações, houve aumento no risco de morte e de arritmias cardíacas graves, também chamadas de palpitações ou fibrilações. Essa condição se caracteriza pelo ritmo irregular dos batimentos do coração. Em situações extremas, pode levar à morte súbita.

    Do universo de pacientes pesquisado, 11% morreram. Os mais propensos a falecer eram os homens, os mais velhos, os obesos, os negros, os hispânicos e aqueles com comorbidades como hipertensão e diabetes. Na análise, os tratamentos com cloroquina foram divididos em quatro grupos. Estes foram os aumentos de risco verificados:

    • Hidroxicloroquina com antibiótico: mortalidade de 23,8% (um em cada quatro pacientes) e ocorrência de arritmia cardíaca de 8,1%
    • Cloroquina com antibiótico: mortalidade de 22% (um em cada cinco) e ocorrência de arritmia de 6,5%
    • Apenas hidroxicloroquina: mortalidade de 18% (um em cada cinco) e ocorrência de arritmia de 6,1%
    • Apenas cloroquina: mortalidade de 16,4% (um em cada seis) e ocorrência de arritmia de 4,3%

    Em comparação, a mortalidade do grupo de controle do estudo, ou seja, aqueles pacientes de covid-19 que não receberam cloroquina, foi de 9,3% (um paciente a cada 11). Neste grupo, apenas 0,3% registraram arritmia.

    “O uso dessa classe de drogas para a covid-19 se baseia em um pequeno número de experimentos anedóticos que demonstraram respostas variáveis em análises observacionais, não controladas e em ensaios clínicos aleatórios e abertos que foram amplamente inconclusivos”, afirmaram os pesquisadores.

    Diversas pesquisas anteriores, realizadas com grupos menores de pacientes, também concluíram que o remédio não surtia efeito contra o novo coronavírus.

    Fabricada há mais de 80 anos, a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina são tradicionalmente receitadas a pacientes com malária, artrite reumatóide e lúpus.

    Centros de estudos e empresas farmacêuticas de diversos países estão engajados na busca por um remédio ou vacina contra a covid-19. Devido ao tempo demandado pelos testes clínicos necessários para a aprovação de um novo remédio, prevê-se que não deve aparecer uma solução antes de 2021. Usar medicamentos que já são receitados para outras doenças é uma tentativa de reduzir esse tempo.

    O Brasil não quis participar de um esforço internacional de pesquisa de vacina, organizado pela União Europeia e pela ONU (Organização das Nações Unidas). Anunciado no início de maio, o projeto reúne 40 países que irão doar cerca de 7,4 bilhões de euros para a iniciativa.

    Na sexta-feira (22), o país se tornou o segundo do mundo em número de casos confirmados de covid-19. Com 330.890 ocorrências, o Brasil perde apenas para os Estados Unidos, que têm 1,6 milhão de casos.

    A defesa da cloroquina

    Desde março, Jair Bolsonaro vem alardeando a cloroquina como solução para o novo coronavírus. Em 20 de março, o presidente declarou que havia ordenado a produção do medicamento em laboratórios químicos-farmacêuticos militares.

    A propaganda que o presidente fez da cloroqina provocou uma corrida às farmácias. Os estoques de cloroquina de muitos estabelecimentos acabaram se esgotando e pacientes de lúpus ficaram sem seu medicamento.

    "A Agência recebeu relatos de que a procura pela hidroxicloroquina aumentou depois que algumas pesquisas indicaram que este produto pode ajudar no tratamento da covid-19. Apesar de alguns resultados promissores, não há nenhuma conclusão sobre o benefício do medicamento no tratamento do novo coronavírus", declarou a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) na época.

    A insistência do presidente na cloroquina está ligada à demissão dos ministros da saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Nenhum dos dois titulares quis endossar um remédio sem eficácia comprovada, o que desagradou Bolsonaro.

    Com a saída de Teich, em 15 de maio, e a entrada do general Eduardo Pazuello como interino, Bolsonaro conseguiu alterar o protocolo do Ministério da Saúde para o uso da cloroquina em casos de covid-19. Anteriormente liberado apenas para pacientes internados em estado grave, por indicação médica, a nova orientação autorizou que a cloroquina fosse receitada em todas as fases da doença, mesmo as leves.

    Na terça-feira (19), quando o país registrou 1.179 mortes por covid-19, Bolsonaro chegou a fazer piada com o nome do remédio em uma de suas transmissões. “Você não é obrigado a tomar cloroquina. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”, afirmou.

    Dois dias depois, a Secretaria de Comunicação publicou um tuíte em que declarava que a “hidroxicloroquina é o tratamento mais eficaz contra o coronavírus atualmente disponível”. Após a divulgação do estudo da Escola de Medicina de Harvard, na sexta-feira (22), o tuíte foi apagado.

    Bolsonaro busca promover a ideia de que, com uma cura disponível, são desnecessárias medidas de isolamento social, frequentemente atacadas por ele. Os efeitos da crise econômica que decorre da pandemia e da paralisação de atividades e empresas pode impactar negativamente a popularidade do presidente.

    O próprio Bolsonaro, em uma postagem no Twitter, já reconheceu que ainda não há comprovação científica do efeito da cloroquina contra a doença. No entanto, o presidente justificou a liberação pela pandemia se equivaler a uma situação de “guerra”. “Pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”, afirmou.

    O presidente brasileiro faz coro a seu colega americano, Donald Trump. O líder americano, que defendeu a cloroquina inúmeras vezes, disse à imprensa recentemente que vinha tomando hidroxicloroquina de forma preventiva. A FDA (equivalente à Anvisa nos Estados Unidos) recomenda cuidado no uso do remédio. Na quarta-feira (20), Trump anunciou que iria parar de tomar a cloroquina.

    Os alertas contra o remédio

    Em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo, o médico sanitarista Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e ex-secretário municipal de Saúde, destacou trechos do próprio protocolo do Ministério da Saúde que aludem à ausência de respaldo científico para o uso do medicamento.

    O comentário se referiu à publicação “Saúde divulga diretrizes para tratamento medicamentoso de pacientes com covid-19”, disponível no site do ministério. Nela, há orientações para profissionais da saúde e um termo de consentimento para pacientes.

    Entre as orientações está contida a ressalva de que “até o momento não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a covid-19”.

    Já no termo destinado ao paciente de covid-19, entre as frases com os quais é preciso concordar, está: “compreendi, portanto, que não existe garantia de resultados positivos, e que o medicamento proposto pode inclusive agravar minha condição clínica, pois não há estudos demonstrando benefícios clínicos”.

    Na sexta-feira (22), o Conselho Nacional de Saúde solicitou a suspensão da recomendação do ministério para o uso de cloroquina em casos leves de covid-19. Parte da estrutura do Ministério de Saúde, o conselho tem como papel a fiscalização e o monitoramento de políticas públicas de saúde.

    No pedido, o órgão afirmou que faltam estudos que comprovem a eficácia da cloroquina. O conselho pediu que o “governo federal desempenhe seu papel na defesa da ciência e a redução da dependência de equipamentos e insumos, construindo uma ampla e robusta produção nacional”.

    Diversas entidades médicas também já se manifestaram contra o uso da cloroquina em pacientes de covid-19, entre eles a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

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