Como Trump derruba acordos assinados após a Guerra Fria

Presidente americano anula tratados firmados há 30 anos com os russos, aumentando o risco de uma escalada nuclear

    O governo americano anunciou na quinta-feira (21) a intenção de romper um dos acordos mais importantes do pós-Guerra Fria (1945-1991). O Tratado de Céus Abertos foi assinado em 1992 e por 28 anos funcionou como um dos pilares de contenção de uma guerra nuclear entre russos e americanos.

    A ruptura – cuja formalização foi anunciada para sexta-feira (22) – acontece depois de Trump ter anulado, em 2019, outro documento semelhante: o INF (referente a Forças Nucleares de Alcance Intermediário), que limitava o uso de mísseis nucleares de médio alcance entre os dois países.

    A anulação desses dois documentos antecede o período de renovação do maior e mais importante tratado nessa área. O Novo Start, assinado em 2010, teria de ser renovado em fevereiro de 2021, mas os sinais emitidos pela Casa Branca até agora sugerem que – caso Trump seja reeleito, em novembro – ele também possa colapsar.

    O Novo Start é importante porque impõe um limite para o número de ogivas nucleares que Rússia e EUA podem possuir: atualmente 1.550 cada um. A cada renovação, esse tratado reduz progressivamente o número dos arsenais. Há sete anos, o número de bombas nucleares disponíveis para uso imediato era 74% maior nos dois países.

    No caso do Novo Start, a administração Trump quer forçar a inclusão do arsenal atômico chinês na conta da Rússia, por considerar que os dois países ocupam um lugar semelhante no que diz respeito ao antagonismo militar contra os americanos.

    O que prevê o Céus Abertos

    Esse conjunto de tratados rompidos ou sob ameaça de serem rompidos cria, como um todo, a rede de controle que, em tese, limita o risco de uma guerra nuclear entre a Rússia e os EUA. À medida que esse arcabouço jurídico é dilapidado, diminuem as ferramentas de checagem e controle mútuo.

    Enquanto o INF tratava de mísseis e o Novo Start tratava das ogivas nucleares transportadas por esses mísseis, o Céus Abertos cumpria a função de regular os voos de aviões militares responsáveis por monitorar esses arsenais.

    O documento estabelecia bases comuns para que aviões russos e americanos pudessem sobrevoar instalações. O mecanismo funcionava como uma garantia de checagem mútua entre as duas potências.

    Como ocorreu nas rupturas anteriores com a Rússia – e igualmente na ruptura do acordo nuclear com o Irã, em 2018 – Trump acusa sua contraparte de estar violando unilateralmente as cláusulas. Dessa forma, na lógica do presidente americano, não é ele quem rompe os tratados, mas seus adversários, ao incorrerem em comportamentos proibidos.

    “Você chega a um ponto em que é preciso dar um basta. Os EUA não podem seguir participando de um tratado que a Rússia viola impunemente”

    Marshall Billingslea

    negociador nomeado por Donald Trump, em entrevista ao The New York Times, em 21 de maio de 2020

    No caso dos Céus Abertos, os americanos dizem que estão sendo impedidos de sobrevoar cidades russas nas quais eles acreditam que o governo de Vladimir Putin conduz operações que violam os tratados nucleares anteriores.

    Trump também diz que aviões russos estão mapeando o território americano com a intenção de identificar possíveis alvos para ataques cibernéticos, e cita o sobrevoo de uma aeronave russa sobre seu campo privado de golfe em Bedminster, Nova York, em 2017.

    O governo russo nega as acusações, e diz que a retórica americana não passa de uma cortina de fumaça criada por Trump para recuar de compromissos assumidos na Guerra Fria e que hoje se tornaram incômodos para uma ambição da Casa Branca de estabelecer a todo custo uma hegemonia.

    Reflexos na Europa

    Se a retirada americana do Céus Abertos se confirmar, os aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) devem sofrer as consequências. Os europeus também são signatários do documento, e uma ruptura unilateral dos EUA pode tornar os russos menos propensos a respeitar o acordo.

    Além disso, os países europeus estão a uma distância muito menor da Rússia do que os EUA e, na hipótese remota de uma escalada, com retaliações, suas cidades estariam mais expostas ao alcance de mísseis disparados a partir do território russo.

    O clima entre europeus e russos, entretanto, é muito mais distendido em comparação com os EUA. O presidente da França, Emmanuel Macron, é um dos que investe na boa relação com Putin, dizendo que, para ele, a Europa começa em Portugal e termina nos confins da Rússia.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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