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A praga de vespas mandarinas que mata populações de abelhas

Comoção em torno das ‘vespas assassinas’ é exagerada, mas combate à espécie importada da Ásia é importante para que ela não se estabeleça em território americano

Uma espécie de vespa até então restrita à Rússia e a países asiáticos foi detectada no fim de 2019 em três áreas da costa oeste dos EUA e Canadá. A vespa mandarina, também conhecida como vespa-gigante-asiática, é a maior vespa do mundo. As operárias medem em média 4 centímetros. Elas podem chegar a 5,5 centímetros.

Foto: Divulgação/Washington State Dept. Agriculture
Uma vespa morta. Por cima, marcações de tamanho, comprimento de 4 cm, e envergadura de 7,5 cm
Proporções da vespa mandarina

A espécie é considerada uma praga, sendo capaz de dizimar populações inteiras de abelhas em questão de horas. Elas também são responsáveis todos os anos por ataques fatais a cerca de 40 pessoas na China e 20 no Japão.

Segundo pesquisadores, a chegada da vespa à América pode ter ocorrido por embarcações vindas da Ásia que cruzaram o oceano Pacífico. Em novembro de 2019, o inseto foi identificado em Custer, nos EUA, e White Rock, no Canadá, cidades bastante próximas na fronteira entre os dois países. Um terceiro registro, três meses antes, aconteceu na ilha canadense de Vancouver o que, pela análise das carcaças, confirmou se tratar de famílias, e provavelmente introduções diferentes.

Registros da vespa mandarina na América do Norte em 2019

Mapa da fronteira de EUA e Canadá, com as três cidades com casos da vespa mandarina marcada

Além das carcaças, alguns ninhos foram identificados e eliminados por entomólogos e cuidadores de abelhas. Esses grupos continuam à procura de focos do inseto antes da chegada da primavera no hemisfério Norte. Essa é a época em que as vespas fazem novas colônias, podendo assim se estabelecer no território. Não há registros da espécie no Brasil.

O perigo para as populações de abelhas

As abelhas já sofrem reduções anuais em suas populações por conta de práticas de monocultura, agrotóxicos e efeitos da crise climática, mas a introdução de um novo predador pode acelerar esse processo. Em um ataque de vespa mandarina, cientistas descobriram que ela mata uma abelha a cada 14 segundos.

Para isso, toda vez que encontra uma colmeia ou criação, a vespa marca o lugar com feromônios para retornar com ajuda. Cada uma usa então sua mandíbula para decapitar as abelhas. O interesse é pelo tórax, que é levado como alimento para as crias.

Com séculos de contato, as abelhas asiáticas desenvolveram mecanismos de defesa. Toda vez que uma vespa entra numa colmeia, elas formam uma esfera em volta da agressora. Juntas, elas vibram o corpo para produzir calor, elevando a temperatura da bola para além dos 45 ºC. Nesse forno, as vespas sucumbem após uma hora.

Não é o caso das espécies americanas, que tentam se defender picando a invasora. O problema é que a vespa mandarina tem um exoesqueleto rígido que as abelhas são incapazes de penetrar.

Há também um fator complicador regional. Tim Lawrence, professor de entomologia da Universidade Estadual de Washington, disse ao jornal The New York Times que os EUA têm apiários bem maiores que os do Japão, um dos países mais afetados pela praga. Com uma nova ameaça, o desequilíbrio ecológico e o prejuízo econômico são bem mais relevantes do que a introdução acontecesse no caminho oposto.

75%

das frutas, nozes e vegetais cultivados nos EUA dependem da polinização das abelhas

US$ 235 bilhões

é a estimativa mais baixa do quanto da produção global anual de alimentos depende de polinizadores, segundo a organização World Bee Project. A estimativa, para os melhores anos, é de um impacto de US$ 577 bilhões

Na Ásia, há profissionais especializados em remover as vespas mandarinas. Na América, entomólogos usam armadilhas e técnicas de identificação do zumbido para evitar que elas se estabeleçam depois da passagem do inverno no hemisfério norte — nesse período, elas hibernam. Uma vez despertas, as vespas podem voar vários quilômetros em um dia e até fazer colônias escondidas debaixo da terra.

A intensidade da picada da vespa mandarina

Para atacar as abelhas, a vespa usa a mandíbula. Mas quando se sente ameaçada, as fêmeas usam o ferrão para picar. É o que acontece quando humanos chegam perto de uma colônia — nem mesmo os trajes comuns de apicultura impedem a ferroada.

A sensação, descrita por pessoas que já foram picadas, é de agulhas em brasa furando a pele. A área fica dolorida por alguns dias, o que é comum em picadas de vespas, mas não na intensidade da mandarina. Isso acontece porque o veneno inoculado tem uma série de compostos químicos que dilatam os vasos sanguíneos, bloqueiam impulsos nervosos, degradam as células de defesa e estimulam uma inflamação generalizada.

Ainda assim, comparando, por exemplo, quantidades iguais de veneno, uma abelha tem uma toxicidade quase 50% maior que a de uma vespa dessa espécie. O valor é medido por uma escala de dor de picada criada por Justin Schmidt, entomólogo da Universidade do Arizona (EUA).

A diferença é que uma abelha pica apenas uma vez, enquanto uma vespa mandarina faz isso repetidas vezes, injetando uma dose de veneno 10 vezes maior a cada picada. Segundo Schmidt, só depois de 100 picadas da vespa — que costuma atacar em grupo —, passa-se a correr risco. Na maior parte dos casos, a toxina não é a responsável pela morte, mas as reações alérgicas na pessoa.

Nessa escala de dor, existem insetos com venenos bem mais tóxicos. Comparando uma mesma quantidade de veneno, a formiga colhedora Maricopa, comum no sudoeste dos EUA, tem uma toxina cerca de 40 vezes mais intensa que a da vespa mandarina.

Comoção exagerada segundo entomólogos

Quando o jornal The New York Times relatou a aparição das vespas mandarinas no país, no começo de maio de 2020, o título fazia menção à “vespas assassinas”. A manchete foi replicada por tabloides no mundo todo e logo começaram a surgir vídeos nas redes sociais do inseto supostamente matando outros animais, como um rato.

Em poucos dias, jornais passaram a noticiar histórias de americanos que haviam matado abelhas e vespas nativas imaginando se tratar da praga asiática. Em alguns casos, a pessoa morava no leste dos EUA, ou seja, na costa oposta de onde as mandarinas foram encontradas. Especialistas acreditam que essas pessoas se depararam com a vespa crabro, espécie europeia que guarda semelhanças fisiológicas, mas é menos perigosa.

Segundo entomólogos, ainda que a vespa mandarina precise ser combatida, a mídia exagerou no apelido. Na Ásia, diversos países convivem há séculos com a praga, protegendo colmeias de abelhas com redes. No Japão, a espécie é até considerada benéfica para o controle de outras pestes do campo, como as lagartas. Na culinária, ela é uma iguaria para pratos e licores fortes.

Focos da vespa mandarina na Ásia e Rússia entre 2000 e 2010 (Fonte: GBIF)

Mapa da Ásia e Rússia com vários pontinhos em vermelho com os focos da vespa mandarina

Não é a primeira vez que histórias de insetos que chegam aos EUA são exageradas. Segundo May Berenbaum, entomóloga da Universidade de Illinois (EUA), há problemas locais bem maiores, como um fungo parasita que mata populações inteiras de abelhas. Para ela, “se existe um inseto assassino, esse inseto é o mosquito”, responsável por milhões de mortes de doenças como malária, dengue e febre amarela.

“Para as pessoas, as vespas são amedrontadoras porque o mundo já está assustado com o coronavírus. Nossos mecanismos inatos de ‘bater ou correr’ já estão ativados, deixando as pessoas em alerta”

David Ropeik

autor do livro “How risky is it, really?” (do inglês, “Quão perigoso é de fato?”), em entrevista à agência Associated Press

Como o assunto bombou nas redes sociais, a comoção foi além das fronteiras dos EUA e Canadá. Além dele, no entanto, apenas países asiáticos e Rússia já registraram o inseto. Na Europa, há uma espécie similar, a vespa asiática, que também foi importada da Ásia via carregamentos de cerâmica chinesa. A partir de 2005, países como Portugal, Espanha e Bélgica tiveram atividades afetadas, mas convivem com a praga tentando controlá-la.

Colaborou com os mapas Sariana Fernandez e Gabriel Maia.

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