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3 boatos verificados sobre a pandemia para você ficar de olho

O ‘Nexo’ integra o Comprova, coalizão de 24 veículos jornalísticos que busca combater a desinformação sobre o novo coronavírus

    As redes sociais são um importante meio de comunicação para cidadãos e governos, ao divulgar e esclarecer assuntos de interesse público. Mas nelas também se proliferam posts, imagens e vídeos fabricados, manipulados ou retirados de contexto que podem causar danos. É um ambiente em que conteúdos podem ser disseminados rapidamente, sem preocupações com fonte ou veracidade.

    Para combater a desinformação nas redes surgiu o Comprova, do qual o Nexo faz parte. A iniciativa, que já checou informações sobre as eleições de 2018 e as políticas públicas do governo federal em 2019, começou a verificar conteúdos sobre a pandemia do novo coronavírus. Esta fase do projeto é resultado de uma coalizão de 24 veículos que se juntaram para apurar informações sobre a crise de saúde pública.

    Abaixo, selecionamos três verificações feitas pelo Comprova na semana que passou. Confira:

    Médico confunde ao indicar cloroquina e criticar isolamento social e o uso de respiradores

    É enganoso um vídeo no qual um homem, que se identifica como médico, diz que hospitais públicos estão intubando pacientes para “mostrar trabalho” e justificar a compra de ventiladores e respiradores artificiais. Ele é contra o procedimento e defende o uso de remédios como a cloroquina como alternativa para o tratamento da covid-19.

    Identificado como João Carlos Luiz Vaz Marques Leziria, o autor do vídeo afirma que o vírus não mata pessoas fora do grupo de risco e que o uso de remédios na fase inicial da contaminação pode levar à cura em até quatro dias. Para ele, a intubação é “sinônimo de morte”. Ao Comprova, Leziria não mencionou sua especialidade na medicina.

    Até o momento, a Organização Mundial da Saúde diz que não há remédio ou cura comprovadas para a doença causada pelo novo coronavírus. Além disso, no Brasil, 25% das pessoas que morreram por covid-19 não tinham comorbidades, ou seja, não faziam parte do grupo de risco (que inclui idosos e pessoas com doenças preexistentes).

    As autoridades de saúde orientam o uso de ventilação mecânica em casos de pacientes com insuficiência respiratória grave — que hoje representam cerca de 5% das pessoas contaminadas pelo novo coronavírus, segundo estudos. A intubação é um dos últimos recursos usados para quem fica em estado de saúde grave após a infecção.

    A verificação foi feita por: Poder360 e A Gazeta, e validada por outros veículos. Veja aqui a íntegra da verificação.

    É enganoso vídeo que sugere que rol de medicamentos ‘impede evolução’ da covid-19 para fase mais grave

    Um vídeo no YouTube confunde ao dizer que há remédios que curam a covid-19 e impedem a evolução da doença para fases mais graves caso sejam receitados no início dos sintomas. A publicação mistura dados falsos e verdadeiros e contém informações sem comprovação científica.

    A apresentadora do vídeo, Silvana Conte, disse que seu marido teve covid-19 e fez um tratamento baseado em levofloxacina, Allegra, Fluimicil, Deocil e paracetamol. Ela também mostrou um protocolo, supostamente recebido de um médico da cidade de Bérgamo, na Itália, que recomendou o uso desses remédios, além da hidroxicloroquina.

    Ao Comprova, médicos disseram que não há evidências científicas sobre remédios que possam ser prescritos nos primeiros dias de sintomas para impedir a evolução da covid-19. Afirmaram também que usar muitos medicamentos ao mesmo tempo aumenta a chance de efeitos adversos, dependendo das condições de saúde da pessoa.

    Além disso, a maioria dos pacientes infectados pelo novo coronavírus é assintomática ou tem sintomas leves (como os de uma gripe), ou seja, eles não precisam ser submetidos a medicações que podem causar efeitos colaterais. A recomendação é fazer acompanhamento médico dos sintomas, especialmente quem faz parte do grupo de risco.

    A verificação foi feita por: Estadão e UOL, e validada por outros veículos. Veja aqui a íntegra da verificação.

    É enganoso texto que diz que autópsias na Itália indicaram que ‘problema principal não era o coronavírus’

    É enganoso um texto que circula nas redes sociais e afirma que autópsias feitas em Bérgamo, na Itália, indicaram que o problema principal de pacientes que morreram de covid-19 não era o coronavírus. A publicação sugere que os óbitos estão relacionados a um distúrbio na circulação sanguínea que pode ser tratado com anticoagulantes.

    A partir de um post de um médico italiano no Facebook, o texto diz que a covid-19 mata por causa da microtrombose venosa (obstrução de veias por pequenos coágulos que se formam em resposta à infecção). Apenas depois dessa fase o vírus agrediria os pulmões. Por esse ponto de vista, o diagnóstico e o tratamento da doença estariam errados.

    Uma série de estudos vêm alertando para o risco de pacientes com covid-19 desenvolverem trombose — situação que motivou médicos do mundo inteiro a introduzir terapias com anticoagulantes para quem tem a doença. Apesar de haver alguns resultados promissores, a relação entre a covid-19 e a trombose ainda não está clara para cientistas.

    O médico Andrea Gianatti, um dos diretores do hospital Papa Giovanni 23, responsável pelas autópsias citadas no texto enganoso, deu uma entrevista em que negou afirmações como as ditas na publicação. Ele disse a um jornal italiano que a trombose ocorreu “após a fase mais aguda da pneumonia”, depois dos sintomas mais típicos da covid-19.

    Ainda não há cura para covid-19

    Gianatti também negou que o tratamento com anticoagulantes seja a cura para a covid-19. Para ele, a terapia “parece absolutamente útil” em complemento a outras, mas “não existem certezas”, e os doentes precisam de cuidados para outras complicações além da trombose.

    Ao Comprova, Gianatti disse, por email, que o texto que circulou nas redes brasileiras é “apenas boato”. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde afirmam que ainda não há remédios com eficácia comprovada para tratamento ou prevenção da covid-19, e pacientes com sintomas graves devem receber suporte médico em hospitais.

    A verificação foi feita por: Estadão, e validada por outros veículos. Veja aqui a íntegra da verificação.

    Você recebeu algum conteúdo sobre o novo coronavírus que gerou dúvida e gostaria que o Comprova checasse? Envie uma mensagem de WhatsApp para (11) 97795-0022 ou pelo site do Comprova.

    ESTAVA ERRADO: A segunda verificação deste texto afirmava que Silvana Conte, autora de um vídeo no YouTube, havia dito que um médico chamado Stefano Manera teria recomendado a ela um protocolo para a covid-19. Na verdade, não foi Manera quem recomendou esse protocolo, segundo Conte, que procurou o Comprova depois da publicação da verificação. Ela disse que, na gravação, se referia a outra pessoa. Por causa do erro no nome do médico, o trecho da verificação que questionava as credenciais de Manera foi apagado. A atualização do texto foi publicada às 19h30 de 28 de maio de 2020.

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