Como a pandemia une conspiracionistas da direita à esquerda

Grupos europeus de diferentes espectros se juntam para protestar contra vacina, sinal 5G e quarentenas, numa salada de causas políticas e esotéricas

    A pandemia de covid-19, que atinge pelo menos 181 dos 193 países do mundo, alimenta um fenômeno inesperado na Europa: a união de um grupo heterogêneo de pessoas que, à esquerda e à direita, alimentam teorias conspiratórias sobre o vírus.

    Da Alemanha à Polônia, passando pela Bulgária e pela Áustria, manifestantes têm ignorado as recomendações de isolamento social para sair às ruas e protestar contra uma lista de assuntos desconexos, que acabam apresentados como parte da pandemia do novo coronavírus.

    A lista inclui o rechaço à tecnologia 5G e também às vacinas. Ela abarca ainda a repulsa ao uso obrigatório de máscaras e, principalmente, as políticas de confinamento, que restringem a liberdade de locomoção.

    As bandeiras infundadas levantadas por esse movimento difuso dizem que ondas magnéticas espalhadas por antenas de celular causam doenças, e substâncias contidas nas vacinas infectam e matam as pessoas inoculadas. Eles também acreditam que todas as medidas sanitárias adotadas pelos governos são parte de um plano totalitário para controlar as populações, e que a covid-19 veio escancarar essas questões.

    Força maior na Alemanha

    Os protestos mais numerosos dos grupos libertários e conspiracionistas acontecem na Alemanha, onde militantes de grupos de esquerda saem às ruas lado a lado com membros do partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha) para protestar contra o governo da chanceler de centro direita Angela Merkel.

    A salada ideológica alemã deixou em segundo plano as divisões da política tradicional para amalgamar num único movimento difuso uma constelação heterogênea de bandeiras conspiracionistas.

    “O que unifica todos esses grupos é um mindset [um jeito de pensar] anti-establishment, marcado por uma profunda desconfiança em relação às estruturas governamentais. Há ainda uma interessante similaridade no que diz respeito às crenças esotéricas, num tipo de entendimento peculiar da natureza, dos humanos e da saúde”, disse ao Nexo Paulina Frôhlich, diretora do programas que estuda o Futuro da Democracia no Centro de Estudos Progressistas DPZ, de Berlim.

    A onda de manifestações teve início em 14 de maio, quando um grupo de 400 pessoas se reuniu diante da Embaixada da Alemanha em Viena, na Áustria.

    Dois dias depois, em 16 de maio, os protestos ocorreram de forma combinada em dez cidades da Alemanha. Em Stuttgart, capital do estado de Baden-Württemberg, no sudoeste do país, houve confronto com a polícia. O governo local havia limitado o número de participantes da marcha a apenas 5.000, por motivos de saúde, mas a presença foi maior, e houve dispersão à força.

    O mesmo ocorreu em Munique, capital do estado da Baviera, no sudeste alemão, onde as autoridades pediram que o número de manifestantes não fosse maior que 1.000, mas a aglomeração acabou superando o acordado, o que fez a polícia intervir.

    Os choques acabam alimentando o discurso dos manifestantes, de que a pandemia não passa de um pretexto para legitimar ações de força do Estado.

    Apesar do barulho e da repercussão na imprensa internacional, alguns cientistas políticos alemães dizem que o movimento não merece ser levado a sério.

    “Eu diria que isso é algo que representa menos de 1% da população. Dois terços dos alemães consideram que as políticas implementadas durante a pandemia são boas. Não há, portanto, uma explosão de protestos. São pessoas malucas, que sempre existirão”, disse ao Nexo Martin Schröeder, doutor em sociologia e professor na Universidade de Marburgo, na Alemanha.

    A cientista política alemã Judith Rahner, especialista no estudo da extrema direita, disse em entrevista à emissora Deutsche Welle, em 15 de maio, que grupos de extrema direita e neonazistas estão se infiltrando cada vez mais nessas marchas, apropriando-se dos espaços e da atenção criada pelos conspiracionistas.

    “Está claro que existe um grande número de pessoas tentando capturar o movimento, especialmente extremistas de direita”, disse Rahner depois de ter acompanhando in loco as marchas de Berlim e de Stuttgart.

    A pesquisadora também chamou atenção para a enorme quantidade de comunicadores populares que mantêm programas no YouTube, com milhões de seguidores, nos quais difundem teorias absurdas, como a de que a água consumida na Alemanha é envenenada pelo governo. Nos protestos, alguns desses comunicadores fazem discursos e são aplaudidos pelos participantes.

    Em Sofia, na Bulgária, a polícia prendeu oito manifestantes que participavam de protestos semelhantes, no dia 14 de maio. O grupo de mais de 2.000 pessoas portava cartazes anti-vacina e contra o 5G, além de protestar contra a quarentena, que teve início no país no dia 13 de março.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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