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Como a pandemia impulsiona a fortuna de Jeff Bezos

Patrimônio do bilionário americano cresce com aumento do valor de mercado da Amazon. Empresa expande atividades em meio a denúncias trabalhistas e acusações de práticas de concentração de mercado

    O empresário Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, pode se tornar o primeiro trilionário da história. É o que disse a consultoria americana Comparisun, em estudo lançado em setembro de 2019, mas que viralizou nas redes sociais em meados de maio de 2020, enquanto a pandemia do novo coronavírus causa estrago em economias ao redor do mundo.

    A metodologia usada no estudo foi de calcular o crescimento médio anual da fortuna das 25 pessoas mais ricas do mundo, e projetá-lo no futuro. Usando dados disponibilizados pela Forbes, a consultoria concluiu que, nos últimos cinco anos, Bezos ficou 34% mais rico a cada ano. Se esse ritmo se mantiver nos próximos anos, o CEO da Amazon será trilionário em 2026, aos 62 anos. Um cálculo do portal americano MarketWatch, que seguiu esse mesmo método mas usou dados atualizados para maio de 2020, mostrou que Bezos talvez tenha de esperar até 2030.

    Outros empresários conhecidos, como Jack Ma, fundador do grupo Alibaba, e Mark Zuckerberg, do Facebook, também estão projetados pela Comparisun como possíveis trilionários: Ma em 2030, aos 65, e Zuckerberg em 2036, aos 51.

    O estudo de 2019 foi criticado por sua metodologia, uma vez que parte do princípio de que o ritmo de crescimento das fortunas dos bilionários irá se manter ao longo do tempo. Mas a trajetória do crescimento da riqueza no passado nem sempre é indicativo do que vai acontecer no futuro.

    A fortuna de Bezos

    Os problemas metodológicos envolvendo o estudo não anulam o fato de que Bezos é a pessoa mais rica do mundo e que sua fortuna está crescendo. Nem mesmo o divórcio bilionário em 2019, em que sua ex-esposa MacKenzie Bezos ficou com patrimônio de mais de US$ 35 bilhões, foi suficiente para tirar o empresário do topo da lista de maiores fortunas do mundo. O fundador da Amazon é a pessoa mais rica de todos os tempos, mesmo feitas correções inflacionárias.

    US$ 150 bilhões

    era a fortuna de Jeff Bezos em 20 de maio de 2020, segundo a Bloomberg

    Pela cotação de 21 de maio de 2020, o valor acima equivale a R$ 854 bilhões, o que corresponde a cerca de 11,8% do PIB brasileiro em 2019. Ou seja, o patrimônio de Bezos é equivalente a mais de um décimo de todos os bens e serviços que o Brasil produz em um ano.

    Um site lançado em abril de 2020 pelo desenvolvedor americano Matt Korostoff tenta mostrar o tamanho da riqueza de Bezos em comparação ao patrimônio de pessoas normais – e até mesmo de outras pessoas muito ricas. A interação em forma de régua ajuda a colocar em escala a disparidade entre a fortuna de Bezos e o restante do mundo.

    O peso da Amazon

    Quando se fala em fortuna, não se fala necessariamente em dinheiro no banco. Devem ser levados em consideração todos os ativos que as pessoas têm: seja em dinheiro, em empresas de capital fechado, em ativos imobiliários ou ações. Os bilionários, no geral, costumam ter quantidades baixas de seu patrimônio na forma de dinheiro, como mostra o índice de bilionários da Bloomberg, conglomerado americano de mídia e tecnologia. A ferramenta da Bloomberg tenta avaliar as fortunas com base em dados abertos – geralmente relativos a ações de empresas de capital aberto – e estimativas de valores de empresas fechadas e ativos pessoais.

    No caso de Bezos, a imensa maioria de sua fortuna consiste em ações da Amazon. Por isso, quando a ação da Amazon sobe, Bezos fica mais rico; se ela cai, ele fica mais pobre.

    A gigante de tecnologia tem valor de mercado acima de US$ 1 trilhão. Como Bezos tem pouco mais 11% de todas as ações da empresa, mais de 90% de todo seu patrimônio se deve à Amazon. O restante consiste em dinheiro e empresas de capital fechado como a Blue Origin, empresa de exploração espacial, e o Washington Post, tradicional jornal americano comprado por Bezos em 2013.

    A FORTUNA DE BEZOS

    A fortuna de Jeff Bezos em 20 de maio de 2020. Mais de 90% em ações da Amazon

    Portanto, quando se fala na fortuna de Jeff Bezos, o mais importante é olhar para a Amazon e seu desempenho. E a empresa está em trajetória crescente nos últimos anos, a ponto de se juntar a Apple, Microsoft, Google e Facebook no grupo das maiores companhias do setor de tecnologia no mundo.

    Na década de 2010, a Amazon praticamente multiplicou seu valor de mercado por dez. O gráfico abaixo mostra a evolução das ações da empresa na bolsa de valores de Nova York desde 2015, englobando o período considerado pela pesquisa da Comparisun.

    DESDE 2015

    Cotação da ação da Amazon na bolsa de Nova York. Basicamente cinco anos consecutivos de alta.

    A Amazon na pandemia

    Os principais serviços prestados pela Amazon são compras online, streaming e delivery. A Amazon também presta serviços de computação de nuvem pela Amazon Web Services, o braço mais lucrativo da empresa. Todos esses serviços estão em alta em meio à pandemia do novo coronavírus. Com as pessoas saindo menos de casa e os negócios pequenos enfrentando dificuldades, a Amazon se beneficia como uma das principais alternativas para suprir a população.

    E isso se reflete nas ações da empresa na bolsa de Nova York, que tiveram, de 31 de dezembro de 2019 até 20 de maio de 2020, variação acumulada de 35% em seu valor. Como comparação, S&P 500, um dos principais índices da bolsa americana, caiu 8% nesse período.

    AMAZON EM ALTA

    Variação acumulada na Bolsa de Nova York em 2020. Comparação entre Amazon e o índice S&P 500, com a Amazon valorizando 35% e a S&P perdendo 8% do valor

    O bom desempenho da Amazon apareceu também nas receitas do primeiro trimestre de 2020. A empresa faturou US$ 75,5 bilhões entre janeiro e março, um crescimento de 27% em relação ao mesmo período de 2019.

    No entanto, o lucro de US$ 2,5 bilhões representou uma queda de 29% na comparação com o ano anterior. Isso porque as despesas operacionais foram infladas. Por trás disso, está o aumento nos gastos com pessoal, como a contratação de 175 mil funcionários entre março e abril, para dar conta do aumento da demanda. Além disso, a empresa elevou o salário-hora dos empregados nos EUA, no Canadá e no Reino Unido, e precisou pagar hora extra aos funcionários que trabalharam além do normal para cobrir as demandas. Conforme a demanda dos consumidores foi crescendo, o custo para acompanhá-la também aumentou.

    Na apresentação dos resultados, no final de abril, Bezos disse que a tendência é que as despesas sigam crescendo e os lucros continuem em queda. Ele estimou que a empresa gaste em torno de US$ 4 bilhões (R$ 22,4 bilhões pela cotação de 21 de maio) no segundo semestre de 2020 em equipamentos de proteção para funcionários, aumento de salários e custos de logística.

    A Amazon é uma empresa com histórico de margens de lucro baixas; mas isso não significa que seu desempenho seja ruim. Os lucros baixos são resultado da estratégia da empresa de usar a maior parte do dinheiro que “sobra” em investimentos novos. Assim, o dinheiro mal entra e já sai de novo, desta vez sendo reinvestido em projetos como expansão da rede distribuição e melhora da infraestrutura tecnológica.

    As questões trabalhistas

    Enquanto o movimento cresce e as ações da Amazon decolam e inflam ainda mais o patrimônio de Bezos, a empresa enfrenta uma crise interna ligada às condições de trabalho – algo que não é novidade para a gigante de tecnologia. Desde o início da pandemia, funcionários têm se manifestado, pedindo aumentos salariais e maior proteção contra o coronavírus.

    A empresa cedeu, adotando medidas de proteção como medição de temperatura e distribuição de máscaras, mas demitiu empregados que organizaram protestos. O episódio levou à saída do então vice-presidente da empresa, Tim Bray, que disse não concordar com as demissões.

    Nos EUA, há registro de funcionários da Amazon mortos pela covid-19. Mas a empresa não divulgou estatísticas mostrando quantos empregados foram contaminados, e nem quantos dos depósitos de produtos foram atingidos pela doença. Estimativas de funcionários ouvidos pelo portal americano The Verge são de que mais de 130 locais de operação da empresa tiveram casos confirmados.

    Na França, as condições ruins de trabalho levaram os trabalhadores a se organizarem via sindicato, ameaçando greve. Mesmo com respostas da empresa, fornecendo máscaras e medição de temperatura, a resistência seguiu, e a Justiça francesa ordenou o fechamento temporário dos seis depósitos da empresa no país a partir de 15 de abril. Após acordos com sindicatos, a Amazon começou a reabrir os locais a partir da terça-feira (19).

    Práticas anticompetição

    Além das questões trabalhistas, a Amazon enfrenta problemas na Justiça. Uma reportagem do jornal americano Wall Street Journal publicada em 23 de abril mostrou que a empresa recolhe dados de vendas de terceiros para desenvolver produtos próprios.

    A plataforma da Amazon não serve apenas para vender produtos da própria Amazon. Ela também permite que outras empresas vendam seus produtos, que podem ou não ser guardados nos depósitos da Amazon. A prática relatada pelo Wall Street Journal consistiria em observar os dados de vendas de terceiros dentro da plataforma e usá-los para lançar produtos concorrentes, o que consiste em uma prática anticompetição. A reportagem do Wall Street Journal ouviu mais de vinte funcionários e teve acesso a documentos internos da empresa.

    Além da denúncia da prática, a reportagem levantou a possibilidade de representantes da Amazon terem mentido ao Congresso americano, dizendo que não consultam dados de vendas de terceiros para criar produtos próprios. O caso levou deputados da Comissão de Justiça da Câmara dos Representantes dos EUA a convocarem Jeff Bezos a depor no parlamento pela primeira vez. A Amazon diz que vai cooperar com as investigações, mas fontes ouvidas pelo Wall Street Journal revelam que a empresa resiste à ida de Bezos ao Congresso.

    Antes desse episódio, a União Europeia e os EUA já investigavam a Amazon – e outras gigantes de tecnologia, no caso americano – por possíveis práticas de concentração de mercado.

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