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As agressões a jornalistas na cobertura da pandemia

Apoiadores de Bolsonaro atacam profissionais em casos registrados em Barbacena e Brasília

    Nesta quarta-feira (20), Robson Panzera, cinegrafista da TV Integração, afiliada da Rede Globo na região de Juiz de Fora, em Minas Gerais, foi agredido enquanto fazia imagens para uma reportagem sobre estudantes infectados pelo novo coronavírus.

    O vídeo da agressão foi registrado pela repórter Thais Fulin e está publicado no Twitter. Nele, é possível ver um homem de meia idade trocando socos e pontapés com o cinegrafista. No fim, o homem chuta a câmera caída no chão e grita “Globo lixo”, bordão que se tornou comum entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, que veem na emissora carioca uma inimiga.

    O agressor foi identificado como o empresário barbacenense Leonardo Rivelli, de 54 anos. Ele foi preso em flagrante por dano qualificado e lesão corporal, e liberado na sequência, após pagamento de fiança.

    Segundo o jornal Folha de S.Paulo, quando prestou depoimento, Rivelli afirmou que se sentia cansado de ver a mídia “espalhando o terror” em relação ao novo coronavírus. Ele disse que quando viu o cinegrafista e a repórter decidiu filmá-los para posteriormente enviar o vídeo a grupos de WhatsApp.

    Rivelli disse que apenas estava filmando o trabalho de Fulin e Panzera, quando o cinegrafista partiu para a agressão, e que os chutes teriam sido apenas uma forma de revidar. Panzera e Fulin contam que Rivelli de fato parou para filmá-los, mas que logo iniciou uma série de agressões verbais, ameaçando destruir os equipamentos da TV Integração, algo que tentou fazer em seguida.

    A hostilidade verbal em relação à mídia é uma das características do presidente Jair Bolsonaro. Em diversas ocasiões, ele atacou, ironizou ou se recusou a falar com veículos de comunicação.

    No dia 5 de maio, na saída do Palácio da Alvorada, por exemplo, Bolsonaro mandou um repórter “calar a boca” após uma pergunta sobre as suspeitas de interferência na Polícia Federal. Em outras ocasiões, já havia feito insinuações homofóbicas e machistas contra profissionais.

    Em pronunciamento no dia 24 de março, o presidente afirmou que “os grandes meios de comunicação” estavam espalhando pavor para a população acerca da pandemia. Foi nessa ocasião que Bolsonaro chamou o vírus de “gripezinha”.

    Outros casos de agressões

    No domingo (17), Clarissa Oliveira, repórter da Band News, foi agredida em Brasília durante uma manifestação de apoio a Bolsonaro. Uma das manifestantes carregava uma bandeira e criticava profissionais de imprensa, chamando-os de “lixo”.

    Em certo momento, Oliveira levou uma bandeirada na cabeça. A repórter contou, posteriormente, que a manifestante, “meio que aos risos”, pediu desculpas e afirmou que tudo não passou de um acidente.

    No dia 3 de maio, o fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo, foi agredido, também em Brasília, enquanto fotografava uma manifestação de apoio ao presidente em frente ao Palácio do Planalto.

    No mesmo ato, o fotojornalista Orlando Brito, do site Os Divergentes, também foi agredido por bolsonaristas. Dois dias depois, o presidente convidou Brito para um almoço, e a conversa foi relatada pelo jornalista em 13 de maio.

    Segundo Brito, o almoço aconteceu na companhia de cerca de 12 pessoas e, na conversa, em várias ocasiões, Bolsonaro atacou a imprensa, dizendo que a mídia quer sacaneá-lo o tempo todo. De acordo com o jornalista, a palavra “lixo” e a expressão “Globo lixo” foram ditas pelo presidente.

    Hostilidades também se tornaram comuns

    Além de agressões físicas por parte dos bolsonaristas, hostilidades contra profissionais de imprensa também se tornaram comuns.

    No dia 7 de abril, o jornalista Marcelo Cosme, da Globo News, corria na orla de uma das praias do Rio de Janeiro quando foi abordado por um apoiador de Bolsonaro.

    O homem, não identificado, afirmava que ainda naquele dia Cosme apareceria na Globo News reforçando os pedidos de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.

    “Você não é grupo de risco? A população inteira é, né? Não pode trabalhar, não pode fazer nada que você faz escândalo lá no seu Globo News, né?”, disse o homem.

    Cosme foi seguido por mais alguns segundos, e novamente o bordão “Globo lixo” apareceu.

    Três dias depois, em 10 de abril, o repórter Renato Peters, da Globo, foi interrompido em uma aparição ao vivo no telejornal paulistano SPTV. Ele estava em frente ao hospital geral do bairro Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo.

    Uma apoiadora do presidente arrancou o microfone da mão de Peters e disse “a Globo é um lixo e o Bolsonaro tinha razão”.

    No dia 18 de abril, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, dava uma entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da Band. Em dado momento, a filha de Lorenzoni apareceu atrás do pai com um cartaz que dizia “Globo lixo”.

    Segundo a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), comparado com o ano anterior, os ataques contra profissionais da imprensa aumentaram 54% em 2019, totalizando 208 casos.

    Em 2020, o número consolidado deve ser ainda maior. A Fenaj divulgou, em 3 de maio, que entre janeiro e abril foram 179 casos – 28 deles de agressões diretas a jornalistas.

    Esse tipo de ação, contudo, não é exclusividade do governo Bolsonaro e de seus apoiadores.

    Em 2006, quando o ex-presidente Lula tinha acabado de ser reeleito, manifestantes pró-PT se reuniram em frente ao Palácio do Alvorada e desferiram agressões verbais à imprensa. Um deles chegou a usar uma bandeira do partido para atacar um repórter.

    Seis anos depois, em 2012, um militante do PT deu uma “gravata de pescoço” no fotojornalista Moacyr Lopes Jr., da Folha de S.Paulo, durante uma caminhada em prol do então candidato à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad.

    No ano seguinte, no primeiro mandato de Dilma Rousseff, apoiadores do partido xingaram e chutaram a jornalista Daniela Lima, à época repórter da Folha de S.Paulo, durante uma festa em comemoração dos 10 anos do PT no governo federal, realizada em São Paulo.

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