A ponte naval entre Irã e Venezuela que dribla a pressão dos EUA

Envio de cinco petroleiros iranianos para parceiros venezuelanos pode elevar a tensão política e militar na região do Caribe

    O governo venezuelano anunciou na quarta-feira (20) a mobilização de uma esquadra de navios de guerra para escoltar a chegada de cinco petroleiros provenientes do Irã.

    A ponte naval de abastecimento sela uma parceria entre dois dos maiores antagonistas dos EUA no cenário internacional. Por isso, tem o poder de elevar a tensão política e militar numa região de interesse imediato do Brasil, que possui 2.200 km de fronteira seca com a Venezuela.

    Os americanos despacharam no início de maio uma frota de navios de guerra, aviões de vigilância e forças especiais para a região do Caribe. O despacho foi feito a pretexto de combater o tráfico internacional de drogas. A medida foi tomada dias depois do anúncio de um prêmio de US$ 15 milhões por informações que levassem à captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, acusado pelos EUA de envolvimento com narcotráfico.

    Os petroleiros iranianos – Fortune, Forest, Petunia, Faxon e Clavel – cruzaram o Canal de Suez, no Egito, na primeira quinzena de maio, transportando um total de 1,5 milhão de barris de petróleo. A atracação na Venezuela está prevista para o início do mês de junho. A rota passa inevitavelmente pela zona marítima internacional onde se encontram as forças americanas. A escolta naval venezuelana terá início assim que os petroleiros entrarem na zona marítima exclusiva da Venezuela.

    Estamos prontos para tudo, seja onde for”, disse Maduro em pronunciamento na TV estatal. Já o governo iraniano advertiu que qualquer interceptação da frota terá “consequências”.

    Tanto a Venezuela quanto o Irã são alvos de diversas sanções e embargos proclamados unilateralmente pelos EUA nos últimos anos. Essas medidas de pressão são uma forma de estrangular os adversários economicamente, forçando-os a adotar medidas contra suas vontades.

    No caso venezuelano, a intenção é forçar a saída do presidente Maduro, que controla um governo autoritário que persegue adversários políticos. No caso iraniano, a intenção é demover o governo da intenção de seguir adiante com um programa nuclear condenado pelas Nações Unidas.

    Por que a Venezuela precisa de petróleo

    A Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas do mundo, mas sua capacidade de extração, processamento e comercialização está comprometida por um misto de crise política interna e pressão econômica internacional.

    Em condições normais, o país poderia processar 1,3 milhão de barris por dia, mas a PDVSA, a estatal de petróleo venezuelana, perdeu sua capacidade produtiva ao longo dos últimos anos.

    Essa perda teve início no começo dos anos 2000, quando a PDVSA começou a ser aparelhada politicamente pelo governo. Ao longo dos 14 anos de mandato de Hugo Chávez (1999-2013), aliados do poder foram alçados a postos técnicos de comando, enquanto antigos funcionários deixaram seus cargos e às vezes até mesmo o país. O governo Maduro diz que a empresa sofreu com sabotagens de adversários políticos.

    Mais recentemente, a capacidade de refino foi afetada pelos embargos e sanções dos EUA, que chegaram a congelar os ativos da subsidiária da PDVSA em solo americano, restringindo a capacidade de processamento do petróleo bruto.

    O petróleo produzido no país é pesado, e precisa de processamento para ser convertido em combustível. Essa operação era realizada pela Citgo, nos EUA, mas o governo americano bloqueou as contas da empresa em 2019, que seguiu funcionando, mas sem que Maduro pudesse lidar com seus ativos.

    Nesse processo de pressão, Maduro busca respaldo militar na Rússia e alterna a relação econômica entre parceiros como a China, na área de infraestrutura e logística, e agora o Irã, na área energética.

    A oposição venezuelana, capitaneada pelo deputado Juan Guaidó – reconhecido como presidente legítimo por mais de 50 países – acusa Maduro de “pagar gasolina com o sangue dos venezuelanos”.

    Ele diz que a Assembleia Nacional não autorizou a entrada da frota iraniana no país. A casa, porém, não tem suas prerrogativas reconhecidas por Maduro. O impasse é apenas um entre muitos que dividem governo e oposição na Venezuela.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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