Por que a aposta do governo na cloroquina preocupa médicos

Orientação do Ministério da Saúde amplia uso de remédio, sem eficácia comprovada, para casos leves de infecção pelo novo coronavírus. Substância pode causar graves efeitos colaterais

    Temas

    A mudança de protocolo do Ministério da Saúde publicada na quarta-feira (20), que libera o uso da cloroquina em todos os estágios do tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus, é uma recomendação que pode ser seguida ou não pelo médico responsável, mediante assinatura de um termo de ciência por parte do doente.

    No entanto, a campanha do presidente Jair Bolsonaro pelo uso do remédio sem eficácia comprovada contra a covid-19 preocupa entidades de saúde e médicos. Elas temem que pacientes ou familiares possam pressionar os profissionais pelo uso da droga durante o tratamento mesmo quando isso não for o mais indicado.

    “Você não quer? Você não faz. Você não é obrigado a tomar cloroquina. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, na terça-feira (19), em live nas redes sociais

    Pesquisas recentes apontam que o remédio não funciona contra a covid-19 e que pode causar graves efeitos colaterais, como alterações no sangue e problemas no fígado, no coração e nos olhos. Conhecida há mais de 80 anos, a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina são indicados para pacientes com malária, artrite reumatóide e lúpus. Não há remédio nem vacina contra a covid-19.

    O caminho do protocolo

    A mudança do Ministério da Saúde veio cinco dias após o pedido de demissão do oncologista Nelson Teich do cargo de ministro, por se recusar a mudar o protocolo.

    Obcecado pelo medicamento, o presidente Jair Bolsonaro impôs sua vontade sobre os técnicos da pasta, cujo principal cargo de comando está vago no momento em que a pandemia bate recordes no Brasil. O secretário-executivo do órgão, o general Eduardo Pazuello, que ocupa provisoriamente a função de ministro, vem colocando militares sem experiência na área da saúde no lugar de funcionários de carreira.

    291.579

    casos de infectados pelo novo coronavírus foram registrados até a quarta-feira (20), segundo o Ministério da Saúde

    18.859

    era o número de mortos pela doença no Brasil, até a mesma data, de acordo com o órgão

    O novo protocolo sobre a cloroquina, ao contrário do que costuma acontecer com outras orientações elaboradas pelo ministério sobre tratamentos médicos, não foi assinado por ninguém da pasta.

    Em sua conta no Twitter, o presidente reconheceu na quarta-feira (20) que ainda não existe comprovação científica da eficácia da substância contra a doença, mas justificou a liberação pela pandemia se equivaler a uma situação de “guerra”. “Pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado”, escreveu.

    O que muda com o protocolo novo

    O protocolo que vigorava desde 27 de março, durante a gestão do ministro Luiz Henrique Mandetta, era assinado por Sandra de Castro Barros, diretora do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos, e por Denizar Vianna de Araújo, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde.

    Ele liberava a substância para uso apenas em pacientes hospitalizados em caso grave, sob supervisão médica. A recomendação era que as doses fossem dadas, no máximo, por um período de cinco dias, com o consentimento do paciente ou do responsável.

    A nova orientação libera a prescrição em todos os estágios da doença, inclusive nos casos leves, logo nos primeiros sintomas, que são parecidos com os da gripe: coriza, tosse e dor de cabeça.

    Há indicação de uso da cloroquina ou hidroxicloroquina combinada com outro remédio, o antibiótico azitromicina, com dosagens específicas para cada caso. A prescrição desses medicamentos juntos já foi contraindicada pelo Niaid (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas), dos Estados Unidos, no fim de abril.

    O uso do medicamento é responsabilidade do médico, com a vontade expressa do paciente, que precisará assinar um “termo de ciência e consentimento”. O presidente Jair Bolsonaro divulgou o link para o documento em suas redes sociais.

    O texto diz que a pessoa que concordar com o tratamento compreende que “não existe garantia de resultados positivos para a covid-19 e que o medicamento proposto pode inclusive apresentar efeitos colaterais”.

    O governo diz seguir a opinião do Conselho Federal de Medicina sobre o medicamento. Um parecer técnico do órgão autoriza a prescrição da cloroquina em caso excepcional e “diante da falta de medicamentos eficazes para tratamento da covid-19”, mas não faz recomendação.

    2,93 milhões

    é o número de unidades de cloroquina distribuídas aos estados pelo Ministério da Saúde até 8 de maio

    A pressão sobre os médicos

    Grupos bolsonaristas vêm fazendo campanhas pela cloroquina nas redes sociais e em grupos do WhatsApp, inclusive com apoio de médicos alinhados ao presidente. Em Pernambuco, profissionais que distribuíram gratuitamente o medicamento em comunidades pobres passaram a ser investigados pelo Conselho Regional de Medicina.

    A estratégia do presidente e de seus apoiadores é criar a sensação de que existe cura para a doença e passar a ideia de que as medidas de isolamento social adotadas por governos locais são desnecessárias. Preocupado com os efeitos da crise econômica, Bolsonaro vem defendendo a retomada das atividades no país e está em pé de guerra com governadores que decretaram quarentenas.

    Por causa da publicidade feita pelo presidente e seus apoiadores pelo remédio, médicos temem sofrer pressões para prescrevê-lo mesmo a contragosto. O risco de complicações no quadro de pacientes também aumenta devido às chances de haver efeitos colaterais.

    Diretora da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), Denize Ornelas disse ao jornal Folha de S.Paulo haver o risco de muitos pacientes passarem a exigir o remédio. “Em vez de ajudar, a cloroquina usada precocemente pode causar problemas que não existiam”, afirmou.

    O infectologista Gerson Salvador, que é diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo, afirmou ao site Uol que a pressão já vem ocorrendo. “Já aconteceu de paciente chegar em situação de gravidade, precisar de procedimentos médicos [intubação ou ventilador pulmonar], e o paciente refutar e pedir a cloroquina”, disse.

    A discussão também envolve questões éticas. Pelo Código de Ética Médica, os profissionais são impedidos de “divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente”. Eles devem aceitar as escolhas dos pacientes desde que elas sejam adequadas e cientificamente reconhecidas.

    O que dizem as entidades médicas

    Um documento elaborado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, pela Sociedade Brasileira de Infectologia e pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia recomenda a não utilização das substâncias no tratamento da doença.

    “As evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo do tratamento com hidroxicloroquina ou com cloroquina”, dizem as entidades.

    Duas pesquisas publicadas em maio mostraram que hidroxicloroquina não evita mortes e ainda pode causar problemas cardíacos. Uma delas, feita com 1.438 pacientes de 25 hospitais em Nova York, entre março e abril, apontou que as pessoas que tomaram cloroquina tiveram propensão para desenvolver diabetes e apresentaram baixa saturação de oxigênio e manchas anormais nos pulmões.

    Os pesquisadores constataram que não houve diferenças significativas na mortalidade entre o grupo que recebeu a substância e o que não recebeu.

    Na terça-feira (19), a OMS (Organização Mundial da Saúde) reforçou não haver provas de que a hidroxicloroquina ou qualquer outro medicamento possa curar ou prevenir a doença. Segundo a entidade, o uso inadequado do remédio pode causar efeitos colaterais e levar à morte.

    Recém-demitido, a pedidos, do Ministério da Saúde, onde exercia o cargo de secretário de ciência e tecnologia, o médico e biofísico Antônio Carlos Campos de Carvalho afirmou na quarta-feira (20) ao jornal Folha de S.Paulo que a ampliação do uso do medicamento pode trazer riscos e custos desnecessários ao sistema, “sem ter a certeza de que isso vai trazer benefício”. “Se induzir arritmia em um paciente propenso, isso pode levar inclusive a óbito”, afirmou.

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