O que é a Força Espacial, novo braço militar dos EUA

Projeto foi inaugurado com lançamento de foguete. Pesquisadores da área de políticas públicas e de estudos aeroespaciais veem decisão como desnecessária

Em 1947, os EUA oficializaram a criação da Força Aérea, a quinta força armada do país. Sete décadas depois, os EUA contam com um novo braço militar: a Força Espacial Americana.

Na sexta-feira (15), o presidente americano Donald Trump inaugurou oficalmente os trabalhos da Força Espacial, que realizou seu primeiro lançamento no domingo (17), com o foguete X-37B partindo do Cabo Canaveral, na Flórida, em uma missão não revelada.

“O espaço vai ser o futuro”, afirmou Trump na cerimônia. “Tanto em termos de defesa como de estratégias ofensivas, além de muitas outras coisas”, disse.

Também na cerimônia, Trump falou sobre um “super mega míssil” que está sob responsabilidade da Força Espacial e que seria 17 vezes mais rápido do que as armas de países como a China e a Rússia.

Detalhes do míssil não foram revelados, mas se sabe que o Departamento de Defesa americano está realizando pesquisas para o desenvolvimento de armas ultrassônicas, que conseguem atingir altas velocidades.

A criação da Força Espacial

Antes de ser um braço militar independente, as operações americanas no espaço ficavam sob a tutela do Comando Espacial, subordinado à Força Aérea. Entre as missões estavam tarefas como o controle e a comunicação de satélites e o monitoramento de mísseis intercontinentais.

A ideia para a criação de um novo braço militar focado em operações espaciais surgiu em janeiro de 2001, no governo George W. Bush. Porém, naquele ano, uma comissão liderada pelo ex-Secretário de Defesa Donald Rumsfeld concluiu que as missões espaciais poderiam continuar sob a tutela da Força Aérea.

Em 2017, Democratas e Republicanos propuseram a ideia da criação das Tropas Espaciais, uma série de batalhões para possíveis futuras guerras nas estrelas. O projeto, porém, não foi aprovado pelo Senado.

Um ano depois, em junho de 2018, Trump anunciou que a Força Espacial seria o sexto braço militar dos EUA. No anúncio, o presidente americano afirmou que a presença americana no espaço precisa ser ampla e forte, tal qual o poder geopolítico que o país tem na Terra.

Em 20 de dezembro de 2019, Trump assinou os últimos papéis necessários para o início das atividades da Força Espacial.

Missões e atribuições

A Força Espacial Americana tem como missão proteger as propriedades e os interesses americanos no espaço, bem como realizar operações de ataque e defesa caso conflitos espaciais com outras nações apareçam.

O general John W. Raymond foi nomeado Chefe das Operações Espaciais, e terá cerca de 16 mil profissionais sob sua tutela – entre militares, técnicos, engenheiros e cientistas.

Para o ano fiscal de 2021 – que começa em outubro de 2020 – a Força Espacial terá um orçamento de US$ 15,4 bilhões, cerca de 60% do orçamento da Nasa, a agência espacial americana, cujas atribuições se limitam a missões de pesquisa científica e exploração.

A maior parte do orçamento será usada para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias espaciais, totalizando o montante de US$ 10,3 bilhões. O restante será distribuído entre operações de equipamentos já existentes, manutenção e treinamento de tropas.

O principal projeto de desenvolvimento da Força Espacial é um conjunto de satélites de monitoramento e alerta para o lançamento de mísseis contra os EUA e países aliados.

Intitulado Next-Gen Opir (Nova geração de Infravermelho geral persistente), os satélites vão contar com sensores infravermelhos mais precisos e eficazes, substituindo os atuais satélites Sbirs (Sistema infravermelho baseado no espaço).

A expectativa é que o lançamento do projeto Nex-Gen Opir aconteça em duas fases, entre 2021 e 2022.

Outro projeto importante para a Força Espacial é a aquisição e o lançamento de dois satélites GPS de última geração, que contam com mais eficiência e precisão.

Os satélites GPS pertencentes aos EUA não se limitam ao uso militar. Civis do mundo todo contam com os serviços do sistema em smartphones, tablets e computadores. A previsão é que o lançamento ocorra em algum momento de 2021.

As críticas à Força Espacial

Em coluna na revista Forbes, publicada em abril de 2019, Dave Deptula, reitor do Instituto Mitchell de Estudos Aeroespaciais, afirmou que era a favor do fortalecimento do Comando Espacial da Força Aérea, mas não da criação da Força Espacial como órgão independente.

“A Força Aérea já realiza missões espaciais por meio de um de seus comandos, o Comando Espacial. A Força Espacial não acrescentaria nenhum valor adicional”, disse.

Mark Kelly, astronauta aposentado da Nasa, criticou a criação da Força Espacial assim que ela foi anunciada. “Essa é uma ideia estúpida”, escreveu no Twitter. “A Força Aérea já faz tudo isso. É o trabalho deles. Qual o próximo passo? Colocar os submarinos no sétimo braço militar e chamar eles de ‘Forças do Fundo do Mar’?”, questionou, em tom irônico.

Um dia depois de se manifestar no Twitter, Kelly deu uma entrevista ao canal de TV NBC, reiterando seu posicionamento. “Não faz sentido criar um novo nível de burocracia dentro de um Departamento de Defesa que já é burocrático”, afirmou.

No jornal The Washington Post, em abril de 2019, Michael O’Hanlon, diretor do Instituto Brookings de pesquisas em políticas públicas, também argumentou que a criação de um novo braço militar para os EUA parece desnecessária.

“Há muito trabalho militar a ser feito no espaço, e sim, precisamos dedicar atenção e recursos para essa região. Mas uma Força Espacial não é a melhor solução para esse problema”, disse.

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