Madagascar: o presidente que diz ter um elixir contra o coronavírus

Longe dos grandes centros, Andry Rajoelina promove uma erva natural contra a pandemia e sugere ter sido guiado em sua decisão por uma profeta brasileira

    O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, disse ter encontrado a cura para a pandemia de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. O anúncio foi feito no dia 14 de abril, poucos dias depois de a TV pública nacional ter veiculado uma longa reportagem na qual uma brasileira anônima, apresentada como profeta visionária, anunciava que a solução para o novo coronavírus estaria na ilha africana.

    A reportagem, que mistura um tom místico e propagandístico, causou comoção em Madagascar. A oposição acusa o presidente Rajoelina de estar por trás da promoção do vídeo, e de abusar da credulidade do povo para vender falsas soluções para a doença.

    Sem respaldo da OMS (Organização Mundial da Saúde) nem das comunidades médica e farmacêutica, o presidente Rajoelina vem exibindo aos cidadãos do seu país uma bebida tradicional, feita a base da erva artemísia, como um elixir capaz de barrar a doença que até quarta-feira (20) já tinha matado mais de 320 mil pessoas no mundo, duas delas em Madagascar.

    A reportagem, exibida dias antes do anúncio presidencial sobre o famoso chá, dizia que a misteriosa profeta brasileira havia previsto, em viagem ao país, no fim de 2019, que a cura para uma grande pandemia estaria em Madagascar. Dias depois, o presidente apareceu com a infusão de artemísia e o suposto remédio passou a ser distribuído pelo Exército à população, de porta em porta.

    A despeito do ceticismo de pesquisadores ligados aos principais centros de investigação científica do mundo, Rajoelina estimula a população do país a ingerir o chá contra a covid-19. A promessa de cura se espalhou pelos países africanos, e a bebida tornou-se popular em todo o continente.

    A bebida, batizada por Rajoelina de “Covid-Organics”, é consumida por 80% da população malgaxe, e seu efeito, de acordo com o presidente, é tanto preventivo quanto regenerativo.

    Rajoelina diz que suas afirmações são respaldadas pelo Instituto Malgaxe de Pesquisas Aplicadas, fundado em 1957 e reconhecido, segundo ele, como um centro regional de pesquisa científica atestado pela União Africana.

    O presidente de Madagascar – uma ilha no leste da África que foi colônia francesa até 1960 – adota um tom grandiloquente ao falar de seu elixir: “Nós vamos mudar o curso da história”. Mas cientistas europeus respondem enfaticamente também: “Serei sintético. Não creio que possamos usar chá de ervas para curar o coronavírus. Muito claramente: não”, disse, por exemplo, Yves Gaudin, virologista e diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França.

    Visibilidade mundial

    Desde que proclamou ter encontrado a cura da pandemia, Rajoelina passou a receber atenção internacional. Líder de um país politicamente periférico mesmo na África, Rajoelina passou a figurar no noticiário europeu por alguns dias com intensidade semelhante à dedicada à defesa da cloroquina pelos presidentes do EUA, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro.

    Rajoelina afirma que sua infusão foi testada em 171 pacientes diagnosticados com a covid-19 no país, dos quais 105 foram curados. Ainda de acordo com ele, a recuperação ocorreu dez dias após a ingestão do chá, ao qual ele também se refere pelos nomes CVO e Tambavy.

    O governo de Madagascar tem usado o elixir como peça de propaganda e de diplomacia com seus vizinhos. No dia 9 de maio, uma delegação da Tanzânia recebeu de Rajoelina um lote de 1.800 garrafas do produto. O próprio ministro tanzaniano das Relações Exteriores, Palamagamba Kabudi, foi à capital malgaxe, Antananarivo, e tirou fotos bebendo o elixir de Rajoelina.

    O presidente malgaxe diz não se importar com o ceticismo de renomados cientistas internacionais. Ele acredita que é vítima de um tratamento depreciativo apenas por que preside um país africano. “A questão não se colocaria se o remédio estivesse sendo desenvolvido em países europeus”, disse ele à Rádio França Internacional, em entrevista feita por telefone, em 12 de maio.

    Ativistas ligados à promoção do uso da erva artemísia na França, como Lucile Cornet-Vernet, foram ouvidas pela imprensa local. Elas foram enfáticas sobre a falta de comprovação da eficácia do chá promovido por Rajoelina contra a covid-19, mas realçaram que a bebida pode ter efeito positivo no fortalecimento do sistema imunológico de maneira geral.

    “Não sou conspiracionista, absolutamente, mas sou extremamente realista. Nosso mundo é dirigido pelo dinheiro e pelo lucro, e infelizmente, uma planta que cresce livre num jardim não gera lucro para ninguém”, disse Lucille Cornet-Vernet, presidente de uma fundação que promove o uso da artemísia no mundo todo. A posição dela ecoa a percepção de muitos ativistas que, assim como o presidente malgaxe, veem na natureza uma fonte de possíveis respostas que o mundo das drogas sintéticas ainda não conseguiu trazer.

    A história da profeta brasileira

    O anúncio da descoberta da suposta cura malgaxe para a pandemia foi antecedido em alguns dias pela veiculação na televisão local de uma reportagem de 17 minutos na qual foi narrada a visita ao país da misteriosa profeta brasileira.

    Essa brasileira, apresentada na reportagem como uma visionária misteriosa, teria advertido sobre a iminência de uma pandemia semelhante à pandemia atual. Ela teria dito também que Madagascar seria poupada da contaminação por contar com um elixir protetor.

    A reportagem mostrava a reconstituição da visita que teria sido feita pela profeta brasileira à ilha no fim de 2019. Dois pilotos de avião que dizem ter levado a mulher à Madagascar apresentavam seus relatos, reconstruindo na tela o périplo da suposta visionária, apresentada no programa como “uma mensageira de Deus”.

    A reportagem foi defendida pelo governo e criticada por membros da oposição. Rina Rakotomanga, diretora de Comunicação da Presidência de Madagascar, elogiou a “pesquisa jornalística”. A chefe de gabinete do presidente, Lova Hasinirina, disse que “é preciso reconhecer que há no mundo mistérios inexplicáveis”.

    Já Fanirisoa Ernaivo, uma das figuras mais importantes da oposição, e candidata derrotada nas últimas eleições presidenciais, denunciou o que ela vê como uma “incrível máquina de propaganda do governo”.

    “Fiquei ultrajada com esse documentário. Apresentar essa anedota sobre uma uma mulher brasileira, antes do anúncio presidencial sobre o elixir malgaxe, é uma manipulação propagandística da população, é abusar da credulidade do povo, é revoltante”, disse Ernaivo.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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