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Como o filme 'Matrix' se tornou símbolo na extrema direita

Abraham Weintraub, Elon Musk e Ivanka Trump fizeram referência ao longa de 1999 e receberam um xingamento como resposta de uma das criadoras. Cena clássica virou parte central de fóruns extremistas

    Lançado em 1999, o filme “Matrix” se tornou um símbolo na extrema direita nos anos recentes.

    O longa se passa em um mundo distópico controlado por máquinas que administram a Matrix, uma simulação de computador que projeta na mente dos humanos o mundo como conhecemos. Dentro desse cenário, um grupo revolucionário busca uma forma de derrotar as máquinas e reconstruir a civilização.

    Em determinada cena do filme, Morpheus (Laurence Fishburne), o líder do grupo de rebeldes, dá a Neo (Keanu Reeves), seu novo pupilo, a opção de tomar uma pílula azul e retornar para a Matrix sem nenhuma memória do mundo real, ou a de tomar uma pílula vermelha e permanecer acordado, ajudando no combate às máquinas.

    Na década de 2010, a extrema direita se apropriou da metáfora da pílula azul e da pílula vermelha como a dicotomia entre uma ilusão confortável e uma verdade dura, mas empoderadora. Recentemente, alguns nomes do nicho político fizeram uso dessa mensagem nas redes sociais – e foram criticados por uma das criadoras da obra.

    As referências recentes

    Em 3 de maio, o ministro da Educação brasileiro, Abraham Weintraub, publicou no Twitter a cena do filme em que Neo precisa escolher entre as pílulas. “Está chegando a hora de decidir”, escreveu, sem fornecer uma explicação para qual seria a decisão a ser tomada.

    Nos dias 13 e 14 de maio, Weintraub novamente fez referências ao filme na rede social, publicando cenas da primeira continuação do longa, “Matrix reloaded” (2003), que mostram o personagem Merovíngio (Lambert Wilson), um excêntrico nobre descendente da realeza francesa.

    Nas legendas, o ministro comparou, indiretamente, o vilão com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que se tornou adversário político do presidente Jair Bolsonaro na crise do novo coronavírus.

    O empresário Elon Musk, que minimizou o perigo do coronavírus e decidiu reabrir suas fábricas nos EUA, publicou a frase “escolha a pílula vermelha” no Twitter em 17 de maio, também sem nenhum contexto. Em resposta a Musk, Ivanka Trump, filha do presidente americano Donald Trump, escreveu “escolhi”.

    Nos três casos, a cineasta Lilly Wachowski, co-criadora da franquia, respondeu com um “vão se foder”.

    O Gamergate e a apropriação do filme

    O uso frequente da metáfora da pílula vermelha pela extrema direita começou em 2014, com o Gamergate, um movimento que deu origem a uma onda de ataques misóginos e teve influência no desenvolvimento da extrema direita política.

    O Gamergate surgiu em agosto daquele ano, com nome claramente inspirado no caso Watergate, escândalo que culminou na queda do ex-presidente americano Richard Nixon. nos anos 1970.

    Na ocasião, o programador americano Eron Gjoni publicou um longo texto em seu blog no qual descreveu os eventos que ocasionaram o término de seu relacionamento com a desenvolvedora de jogos Zoe Quinn. Nele, Gjoni afirmou que a ex-namorada teria se relacionado com o jornalista de games Nathan Grayson, do site especializado Kotaku.

    O texto acabou migrando para fóruns online, como o Reddit e o 4Chan. Parte dos usuários presentes nesses tópicos de discussão logo começaram a traçar estratégias para ameaçar Quinn com ataques misóginos e abusivos.

    Em entrevista ao jornal The New York Times, Quinn revelou que alguns dos usuários iniciais do Gamergate começaram a persegui-la no mundo real, com ameaças enviadas por correio para seu endereço.

    Por trás dos ataques, os integrantes do Gamergate diziam que toda a discussão girava em torno da ética do jornalismo de games. Eles afirmavam que o fato de Quinn ter tido um relacionamento com Grayson tornava enviesada a resenha de “Depression quest”, jogo desenvolvido por ela. Uma mentira, já que o jornalista nunca resenhou qualquer jogo produzido pela desenvolvedora.

    Depois da onda inicial de ataques, os integrantes do Gamergate passaram a buscar novos alvos e a se organizar em fóruns online, debatendo temas que iam para além da questão dos games em si.

    Uma suposta opressão dos homens incentivada por parte das mulheres e do feminismo se tornou um tema recorrente, e nesse contexto o uso da expressão “escolha a pílula vermelha” ganhou forças.

    Para eles, escolher a pílula vermelha e aceitar uma verdade dura significava ter consciência dessa opressão – inexistente – e reunir forças para combatê-la por meio de mais ataques virtuais.

    A pílula vermelha também traria conhecimento sobre “racismo reverso” – conceito sem fundamentos que fala sobre como um movimento “politicamente correto” teria propiciado o racismo contra brancos.

    Na visão dos extremistas, o “marxismo cultural”, suposta doutrinação de esquerda nas escolas, em universidades e na cultura em geral, também era revelado ao se optar por tomar a pílula vermelha dos fóruns – composta por links de sites sem qualquer credibilidade, alimentados com teorias que não encontram nenhum lastro teórico ou prático na realidade.

    Na rede social Reddit, a comunidade The Red Pill (A Pílula Vermelha) segue ativa, mas quarentenada, uma espécie de sanção imposta pela plataforma. Novos membros não podem se juntar ao fórum e os usuários que querem apenas ler o que foi publicado ali recebem um aviso de que há conteúdo ofensivo. Apesar disso, integrantes pregressos ainda conseguem fazer novas postagens.

    A maior parte das publicações tem um tom de autoajuda, com títulos como “reconheça o seu valor”, “exercícios para a mente disciplinada” e “construa sua vida de cima para baixo”.

    Já nas postagens em si, o teor das mensagens sempre gira em torno da ideia infundada de que há um sistema que oprime homens brancos e heterossexuais, e que é necessário elevar a própria mente para estar acima disso.

    Também presentes em grande número, outras postagens falam de frustrações sexuais ou românticas e colocam a culpa pelos insucessos dos integrantes do fórum nas mulheres e no suposto sistema de opressão imaginado por eles.

    Nessas publicações, alguns membros se identificam como “incels” (celibatários involuntários), homens que não conseguem ter relações sexuais com mulheres e que acreditam que o sexo deve ser um direito fundamental – chegando ao ponto de defender a legalização do estupro.

    O Reddit também conta com uma comunidade de “red pillers” (como os membros do fórum The Red Pill se intitulam) arrependidos. Lá, eles relatam os motivos para “tomarem a pílula vermelha” e por que rejeitaram aquilo que aprenderam com a extrema direita.

    A maior parte dos relatos fala sobre uma tomada de consciência após o início de algum tratamento psicológico ou de reflexões sobre aquilo que defendiam anteriormente, percebendo o teor tóxico das ideias que eram propagadas.

    A importância de ‘Matrix’

    “Matrix” (1999) é considerado um dos mais importantes filmes da virada do milênio. Com uma trama inventiva e usando tecnologias inovadoras para a época, o longa dirigido pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski se tornou parte do imaginário popular.

    Tanto Lilly quanto Lana são transgênero, embora na época do lançamento do filme ainda não tivessem assumido essa identidade e fossem conhecidas como “os irmãos Wachowski”.

    Quando primeiro Lana, em 2012, e depois Lilly, em 2016, tornaram pública sua identidade de gênero, críticos culturais apontaram a ironia de um filme que se tornou símbolo de um movimento misógino que odeia mulheres trans ter sido escrito, afinal, por duas mulheres trans.

    No Rotten Tomatoes, site que reúne críticas cinematográficas de centenas de veículos de comunicação do mundo todo, “Matrix” tem 87% de aprovação.

    “Graças à visão imaginativa das Wachowski, ‘Matrix’ é uma combinação bem feita de ação espetacular e efeitos especiais revolucionários”, diz a frase que resume o consenso dos críticos no site.

    “Matrix” teve duas continuações: “Matrix reloaded” e “Matrix revolutions”, ambas lançadas em 2003. A franquia vai ganhar um quarto capítulo em 2021, com o retorno do elenco original.

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