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Qual a proposta de socorro financeiro para a União Europeia

Líderes da Alemanha e da França falam em pacote trilionário para socorrer países do bloco em recessão após a pandemia da covid-19

    O presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, apresentaram na segunda-feira (18) um ambicioso plano de socorro financeiro aos 27 Estados-membros do bloco.

    A proposta é uma tentativa de fazer frente às perdas produzidas pela pandemia da covid-19, que já deixou mais de 1,7 milhão de infectados e de 162 mil mortos em todo o continente, provocando a maior crise econômica em décadas.

    O movimento franco-germânico ocorre no ano em que a União Europeia sofreu sua maior baixa, com o desligamento do Reino Unido. Esse movimento de liderança coordenada entre Paris e Berlim marca também uma tentativa de reação vigorosa ao crescimento do nacionalismo no continente – movimento que ameaça os planos integracionistas europeus do pós-Guerra (1945).

    Na prática, a proposta é autorizar que a Comissão Europeia pegue empréstimos no mercado financeiro em nome do bloco. A manobra permitiria uma recapitalização dos países-membros neste momento de maior dificuldade.

    R$ 3,1 trilhões

    ou 500 bilhões de euros é o montante do plano de socorro proposto por alemães e franceses aos países do bloco europeu

    Cenário de recessão

    A Alemanha, maior economia do bloco, vive seu pior momento desde a reunificação, em 1990. O governo registrou perda de 2,2% no PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre de 2020. Para o período entre abril e junho, a projeção de perda chega a 10%.

    Na França, segunda maior potência da comunidade europeia, o recuo no PIB foi de 5,8% no primeiro trimestre de 2020 – o que já é a pior recessão econômica desde 1949, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial.

    Espanha e Itália, países mais duramente atingidos pela pandemia, têm projeções ainda mais catastróficas. A queda espanhola é estimada em até 13,6%. Na Itália, o recuo do PIB é estimado em entre 8% e 10% em 2020. A média calculada para toda a zona do euro é de uma perda de 3,8% do PIB só no primeiro trimestre de 2020.

    Jogada política

    A dimensão financeira da iniciativa de socorrer a economia de países-membros em dificuldade é evidente, mas há também uma ambição política que não passa despercebida.

    O gesto da Alemanha e da França é uma resposta aos críticos da União Europeia que, com a pandemia, preveem até mesmo a desintegração do bloco, tensionado pela expectativa de socorro de seus membros mais frágeis, enquanto as potências mais fortes estariam imersas em seus próprios dramas.

    O anúncio de Merkel e Macron se antecipou até mesmo aos estudos que estão sendo feitos por uma comissão específica do bloco, encarregada de apresentar uma rota detalhada para a recuperação econômica comunitária no mês de junho.

    Essa antecipação ficou patente pelo fato de não existir ainda um mapa claro sobre como será a implementação prática da medida. Há muitas incógnitas ainda. A maior delas diz respeito aos critérios de acesso ao fundo e aos critérios de reembolso dos valores acessados.

    Ainda assim, o simples anúncio foi considerado um avanço histórico na posição da Alemanha, que sempre relutou em tratar de maneira solidária as dívidas dos países-membros da União Europeia.

    Esse pensamento ainda é forte nos Países Baixos e nas nações escandinavas, que podem colocar empecilhos à abordagem coletiva de manejo dos prejuízos europeus.

    O anúncio do plano, embora tenha vencido resistências políticas históricas, como no caso da Alemanha, precisa ainda ser aprovado pelo Parlamento de cada um dos 27 Estados-membros da União Europeia para entrar em vigor.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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