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Por que São Paulo pode ter um ‘pico contínuo’ de coronavírus

Pesquisadores alertam para possibilidade de estado registrar número elevado de mortes pela doença por período prolongado. Isolamento social insuficiente é apontado como principal causa

Em vez de uma curva que atinge um pico e depois começa a cair, um platô, uma situação de “pico contínuo”. A nova metáfora apareceu no noticiário na segunda-feira (19), após pesquisadores alertarem sobre a possibilidade de isso vir a ocorrer em São Paulo, estado mais populoso e mais afetado pela pandemia do novo coronavírus. A situação equivaleria ao registro de casos e mortes estacionado no alto, com impactos devastadores para o sistema de saúde.

Seria um quadro diferente, e mais sombrio, do que aquele visto em países como Coreia do Sul, Itália e China, em que o número de casos bateu em um pico e depois começou a cair. No caso do pico que se mantém, “você continua, todos os dias, tendo muitas mortes”, disse ao Nexo Marcelo Otsuka, pediatra e infectologista, coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

Ao site G1, a pesquisadora Ester Sabino descreveu o platô como “uma curva que fica um tempão lá no alto, com muitas novas mortes por dia”. Segundo ela, a tendência é que esse platô permaneça acima da capacidade das UTIs do estado.

Em análise dos dados do estado feita também para o G1, o professor de física da USP (Universidade de São Paulo) José Fernando Diniz Chubaci também considerou que os picos podem durar bastante tempo. “O que ocorre é que depois do pico o gráfico demora muito tempo para descer. Isso define que vai demorar muito mais para você deixar de ter casos novos”, disse.

A possibilidade do pico contínuo foi colocada por pesquisadores diante de uma mudança na tendência que o estado vinha apresentando em meados de abril, de achatamento da curva de casos. No entanto, em maio houve um incremento na taxa de contágio, puxada por índices do interior e do litoral, que registraram uma propagação 4 vezes mais rápida do que na capital.

Na terça-feira (19), um novo recorde de óbitos foi confirmado pelas autoridades do estado. Para Dimas Covas, coordenador do Centro de Contingência ao Coronavírus do governo estadual, “o vírus está vencendo”.

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mortes foram reportadas no estado de São Paulo em 19 de maio

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é o total de mortes registrado no estado de São Paulo até 19 de maio

A unidade federativa mais populosa do país, com pouco mais de 44 milhões de habitantes, ultrapassou a China, que tem quase 1,4 bilhão de habitantes, em número de mortes. O país asiático contabilizava 4.638 óbitos pela doença na terça-feira (19), segundo o contador da Universidade Johns Hopkins. Colocado de outra forma, São Paulo tem 116 mortos por um milhão de habitante. Já a China tem 3,22 mortes por milhão de habitante.

“Precisamos de mais alguns dias para entender qual será a tendência”, disse Otsuka, da Sociedade Brasileira de Infectologia, sobre a possibilidade de São Paulo viver o fenômeno do pico contínuo.

A Califórnia, nos Estados Unidos, também registrou um pico sustentado entre abril e maio. Durante o mês de abril, o estado registrou, em média, cerca de 500 mortes por semana. Entre 4 e 11 de maio, o platô seguiu no mesmo nível, com 503 óbitos confirmados de covid-19 no estado, de acordo com o Los Angeles Times.

O que mantém os números no alto

A falta de respeito ao isolamento social tem sabotado tentativas de baixar a curva de casos do vírus. “Não temos um controle adequado do isolamento, falta mais cuidado da sociedade em evitar a disseminação do vírus”, afirmou Otsuka.

Na capital paulista, o índice de isolamento, de pessoas que ficam em casa, segue em média abaixo de 50%. No estado como um todo, segundo o governo, a taxa foi de 54% no domingo (17).

Entre o final de março e o início de abril, São Paulo conseguiu manter o índice acima dos 50% (com picos de 59% nos fins semana), mas a partir de maio viu a adesão cair.

Para especialistas, a porcentagem ideal para frear a curva de infecções seria de 70%. Nesse patamar, em vez de um doente passar o vírus para outras três pessoas, ele passa a transmitir para menos de um.

“Tem uma desinformação em relação à gravidade da doença, uma negação da doença por grande parte da população, e isso acontece até por conta da conduta de muitos políticos, que acabam influenciando o comportamento das pessoas”, afirmou Otsuka.

O presidente Jair Bolsonaro seguidamente se manifesta contra medidas de isolamento social. Em uma ocasião, considerou as restrições um ataque ao “direito constitucional do ir e vir”. Em 7 de maio, acompanhado de um grupo de empresários e do ministro da Economia, Paulo Guedes, foi até o Supremo Tribunal Federal para reclamar dos efeitos do isolamento na economia.

Numa tentativa de melhorar os índices de isolamento, o prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), e o governador do estado, João Doria (PSDB), propuseram a antecipação de feriados para realizar um “megaferiado” de seis dias, começando nesta quarta-feira (20). A Câmara Municipal de São Paulo já aprovou a proposta, enquanto a Assembleia Legislativa estadual vai analisá-la na quinta-feira (21).

Segundo Covas, a proposta é uma última tentativa de fazer subir a adesão ao isolamento.

Prefeituras do litoral, no entanto, esperam uma alta de visitantes durante o período, mesmo com hotéis, pousadas e restaurantes fechados.

Em uma tentativa anterior de forçar um isolamento maior, Covas introduziu na capital uma modalidade mais severa de rodízio no dia 11 de maio. A iniciativa não deu certo e houve um aumento de passageiros no transporte público. Uma semana depois, o alcaide voltou atrás na decisão.

“Não tem sentido a gente exigir esse esforço sobrenatural das pessoas se, do ponto de vista prático, a única razão para qual o rodízio [ampliado] foi feito, que é aumentar o isolamento social, não foi cumprida. Continuamos abaixo dos 50%”, disse o prefeito, em entrevista coletiva.

Desde 14 de março, como medida de combate à propagação do vírus, escolas das redes municipal, estadual e particular começaram a suspender as aulas presenciais. Em 24 de março, foi decretado o fechamento do comércio não essencial em todo o estado.

A possibilidade do lockdown

Segundo Doria, em entrevista coletiva dada na segunda-feira (18), o “lockdown”, a modalidade mais rígida de quarentena, está descartado no momento. A adoção do fechamento total aconteceria, no entanto, se o sistema de saúde do estado se aproximasse do colapso, de acordo com o governador. “A situação está sob controle, ainda estamos em uma margem segura que estabelece a não possibilidade de colapso”, afirmou.

Dimas Covas, coordenador do Centro de Contingência do coronavírus em São Paulo, disse que a capital do estado está se preparando para essa possibilidade. “Esse é o cenário que se apresenta nesse momento e cabe ao governador tomar as medidas”, pontuou.

Atualmente, o nível de ocupação de leitos de UTI na Grande São Paulo é de 88%. Na capital, o índice está em 91%, sendo que diversos hospitais já se encontram lotados. Em todo o estado, o número já passou dos 70%.

Divulgado em 12 de maio, um modelo matemático desenvolvido por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) projetou que o estado de São Paulo teria que implementar o lockdown caso o nível de isolamento social não subisse.

De acordo com os cálculos dos especialistas, se a taxa de contágio observada entre 10 de abril e 10 de maio no estado for mantida, no final de junho serão computadas 53,5 mil novas contaminações por dia. Por essa projeção, isso resultaria em um número de mortes diárias de 2,5 mil no estado.

Há pressões contra e a favor da medida. Empresários e prefeitos de municípios da Grande São Paulo com menos casos de covid-19 rechaçam a ideia.

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