Os resultados das vacinas mais promissoras contra o coronavírus

Empresa americana anunciou que oito voluntários de fase inicial desenvolveram defesa contra a doença. Pandemia gera corrida entre laboratórios, mas processo é incerto e demorado

    Uma vacina ainda em fase inicial de testes nos Estados Unidos levou oito voluntários que receberam doses da substância em março a desenvolver defesas contra o novo coronavírus. Os resultados preliminares, considerados promissores mas ainda vistos por cientistas com cautela, foram divulgados na segunda-feira (18) pela empresa farmacêutica e de biotecnologia Moderna, responsável pela pesquisa.

    Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), ao menos 110 vacinas contra a doença estão atualmente em desenvolvimento no mundo. O presidente americano Donald Trump, que tenta a reeleição, afirmou no início de maio que os Estados Unidos teriam uma até o fim de 2020.

    As estimativas mais otimistas traçadas pelos cientistas, porém, falam de entre um ano e um ano e meio para o surgimento de uma imunização capaz de proteger a população contra o vírus. E isso já seria um recorde na história da humanidade. A vacina mais rápida a ficar pronta foi a contra a caxumba, criada nos anos 1960. Seu processo levou quatro anos.

    As fases das pesquisas

    INICIAL

    São testados itens como segurança, efeitos colaterais, melhor dose e método de formulação do medicamento. Outros efeitos podem incluir o desempenho da droga ou tratamento antes ou depois da ingestão de alimentos. São realizados em clínicas onde as pessoas testadas podem ser observadas em tempo integral por especialistas. Geralmente, esse estágio tem duração de três meses.

    POSTERIORES

    As fases 2 e 3 consistem de experimentos em grupos maiores de pessoas, realizados em diversos centros de análises clínicas. No Brasil, o pedido de registro de um produto na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) só pode ser encaminhado depois da conclusão das três fases. Cada nação tem sua agência regulatória e nem sempre o que é aprovado em um país é liberado da mesma forma em outro. Algumas vacinas podem levar até 15 anos para chegar ao mercado.

    Efeitos econômicos

    Em meio à crise global causada pelo coronavírus, ter um medicamento ou vacina capaz de barrar a pandemia é tido por governos como a única maneira de viabilizar a reabertura total após medidas de isolamento social e sustentar a retomada do crescimento econômico.

    A ideia foi verbalizada no domingo (17) por Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, espécie de Banco Central americano. Para ele, a retomada dos Estados Unidos deve ser lenta e se estender “até o fim de 2021”.

    “Para que a economia se recupere completamente, as pessoas terão que estar totalmente confiantes. E isso terá que aguardar a chegada de uma vacina”

    Jerome Powell

    presidente do Fed (Federal Reserve), o Banco Central americano, em entrevista a um programa da TV CBS, no domingo (17)

    A Moderna desenvolve a vacina com o apoio do Niaid (Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas), dirigido pelo médico Anthony Fauci, um dos maiores especialistas em doenças infecciosas dos Estados Unidos. O cientista integra a força-tarefa criada pela Casa Branca para responder à pandemia e já contradisse Trump sobre a cloroquina, que não tem eficácia comprovada contra a covid-19.

    Com o anúncio dos resultados preliminares da pesquisa, as ações da empresa subiram 25% na segunda-feira (18), e a bolsa de valores de Nova York teve seu melhor dia em seis semanas. As ações da Moderna já valorizaram 241% no ano. O otimismo dos investidores também se refletiu no Ibovespa, principal índice da bolsa de São Paulo que fechou em alta de 4,69%.

    Fundada em 2010, a Moderna nunca colocou um produto no mercado nem teve outras vacinas aprovadas para uso ao longo de sua história. A empresa, assim como a Johnson & Johnson, recebeu meio bilhão de dólares do governo americano para acelerar o desenvolvimento da imunização.

    4,7 milhões

    era o número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no mundo até a terça-feira (19), segundo dados do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças

    318 mil

    mortes em decorrência do vírus foram registradas no mundo até a mesma data

    A iniciativa da Moderna é considerada uma das mais promissoras até aqui. A seguir, o Nexo lista as principais pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus. Elas recorrem tanto ao método genético quanto ao tradicional.

    Dois tipos de vacinas

    MÉTODO CONVENCIONAL

    Tradicionalmente, vacinas procuram expor o organismo humano a componentes do agente causador da doença. Geralmente, as vacinas são virais, embora algumas sejam bacterianas. O vírus nunca é injetado em sua forma integral, mas sob a forma de versões enfraquecidas ou mortas ou ainda parcialmente. Patógenos como sarampo, febre amarela, rubéola são combatidos dessa forma.

    MÉTODO GENÉTICO

    São vacinas que introduzem em células humanas um trecho do código genético do vírus. O segmento contém instruções para a fabricação de proteínas idênticas às do vírus que o sistema imunológico é capaz de reconhecer. A partir daí, o sistema imunológico passa a “conhecer” o vírus e está melhor preparado para combatê-lo. Esse método ainda não produziu nenhuma vacina.

    Os resultados preliminares da Moderna

    A tecnologia usada pela empresa americana se baseia na inoculação do RNA mensageiro do próprio vírus. Esse RNA é uma espécie de “fita” que carrega as instruções para que as células produzam as proteínas do coronavírus. É por meio dessas proteínas que o Sars-CoV-2, o agente causador da covid-19, invade as células humanas.

    A medida que as proteínas são produzidas, elas passam a funcionar como uma “bandeira vermelha” alertando o sistema imunológico para que produza anticorpos. Como a pessoa recebe, na vacina, só um pedaço do material genético do vírus, ela não desenvolve a doença, mas sim o mecanismo de defesa, que a protegerá em caso de infecção.

    Ao testar a vacina em ratos, a Moderna observou que ela impediu que o vírus se reproduzisse nos pulmões dos animais. Eles apresentaram níveis de anticorpos neutralizantes próximos aos de humanos.

    Na primeira fase de testes em voluntários, iniciada em março, a empresa aplicou duas doses da vacina em cada uma das primeiras oito pessoas testadas. Elas tinham de 18 a 55 anos.

    Os anticorpos produzidos a partir da experiência foram testados em células infectadas em laboratório e impediram que o vírus se replicasse, resultado que é fundamental para que se considere uma vacina eficaz. Os níveis desses anticorpos neutralizantes bateram ou até excederam o observado em pacientes que se recuperaram depois de contrair o vírus.

    Foram usadas vacinas de baixa, média e alta dosagem. O único efeito adverso das duas primeiras foi vermelhidão e dor no local da aplicação no braço de um voluntário. Já nos testes da vacina de alta dosagem, três pacientes tiveram febre, dores musculares e de cabeça, mas os sintomas desapareceram dias depois. Por isso, as vacinas de alta dosagem deixarão de ser testadas nas próximas fases, porque as outras funcionaram bem e foram consideradas suficientes.

    Os dados da pesquisa, não publicados, foram submetidos à agência federal reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration). Cientistas disseram que os resultados são promissores, mas acreditam que a pressa para desenvolver o medicamento pode comprometer a segurança das pessoas. Nenhuma vacina feita com esse método está atualmente disponível no mercado.

    Ainda na primeira fase, o laboratório irá testar o medicamento em dois outros grupos, de 55 a 70 anos, e de 70 para cima. A segunda fase, já aprovada pelo governo americano, deve envolver 600 pessoas. A terceira etapa, em julho, deverá ser feita com milhares de pessoas.

    Outro teste com RNA mensageiro

    A multinacional Pfizer, que tem sede em Nova York, começou a aplicar vacinas experimentais em 12 voluntários na Alemanha. O estudo é feito em parceria com a empresa farmacêutica alemã BioNTech. Ambas já vinham trabalhando juntas desde 2018 numa vacina contra a influenza.

    No início de maio, os testes passaram a ser feitos também nos Estados Unidos, em 360 pessoas, com idades que variam de 18 a 55 anos. Na segunda etapa, poderá chegar a 8.000 voluntários, e incluirá pessoas de 65 a 85 anos.

    A técnica utilizada é a mesma adotada pela Moderna, com o uso do RNA mensageiro. Os participantes são divididos em grupos para que se possa comparar quatro variações da vacina. Uma das doses aplicadas será placebo, ou seja, neutra. Isso servirá para os pesquisadores meçam as reações de natureza psicológica.

    A análise está sendo conduzida pela Universidade de Nova York, Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, Centro Médico da Universidade de Rochester e Centro Médico do Hospital Infantil de Cincinnati.

    O estudo de Oxford em macacos

    Pesquisadores do Instituto Jenner da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com a farmacêutica britânica AstraZeneca, estão testando uma vacina contra o novo coronavírus que usa uma versão enfraquecida de um vírus comum de resfriado (adenovírus) que recebeu o material genético do Sars-CoV-2.

    Os estudos estão avançados porque a instituição já trabalhava numa vacina contra a Mers, que surgiu em 2012 e também é causada por um tipo de coronavírus.

    Os resultados mais recentes, divulgados em 14 de maio, mostram que o imunização desenvolvida ofereceu proteção a um grupo de seis macacos. Por isso, desde o fim de abril, a vacina passou a ser testada também em humanos — cerca de 1.102 pessoas de 18 a 55 anos haviam participado do experimento até 13 de maio.

    Parte dos animais que recebeu uma única dose desenvolveu anticorpos contra a doença num período de 14 dias. Todos os macacos que participaram dos testes apresentaram os anticorpos dentro de 28 dias. O medicamento evitou danos nos pulmões e impediu a reprodução do vírus. Os pesquisadores observaram, porém, que o agente causador da doença continuou se multiplicando na mucosa nasal dos animais.

    O motivo para isso pode estar relacionado à alta dosagem de vírus inoculada nos macacos durante a testagem, segundo os pesquisadores. A dose usada é maior do que a observada em humanos infectados na vida real. Eles ainda precisam explicar se uma dose menor nos testes representaria uma proteção mais eficiente da vacina. A iniciativa, porém, é vista como promissora justamente por ter preservado os pulmões dos animais, evitando com que eles apresentassem os sintomas da doença.

    A produção chinesa de vacinas

    Na China, a farmacêutica CanSino Biologics, fundada em 2009 e com sede na cidade de Tianjin, foi a primeira empresa a entrar na segunda fase de testes. Ela já testou 508 pessoas.

    Os estudos começaram no mesmo dia em que a Moderna anunciou seus testes nos Estados Unidos, em 16 de março. A empresa chinesa tem apoio do Instituto de Biotecnologia e da Academia de Ciências Médicas Militares da China, mas vem colaborando também com o Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá para futuros experimentos naquele país.

    Assim como ocorre nos estudos da Universidade de Oxford, os chineses recorreram a uma versão de um adenovírus para tentar provocar uma resposta imune do organismo no combate à infecção causada pelo novo coronavírus. A fórmula usada pela empresa no desenvolvimento da vacina é a mesma aprovada para o enfrentamento do ebola.

    A China vem reduzindo burocracias e investindo na produção de medicamentos contra a covid-19, mas tenta superar a desconfiança da própria população, por causa de uma crise iniciada em 2018. Naquele ano, descobriu-se que vacinas sem eficácia foram aplicadas em bebês.

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