Quem foi Herman Hollerith. E o que ele tem a ver com seu salário

Inventor americano foi pioneiro no processamento de dados. Seu sobrenome deu origem à palavra ‘holerite’

    Em meio ao cenário da pandemia causada pelo novo coronavírus, trabalhadores do mundo todo temem que haja algum tipo de redução em seus salários.

    Todo mês, os trabalhadores com registro em carteira recebem um relatório que detalha todos os ganhos e descontos daquele período, o chamado holerite (ou contracheque).

    Apesar de ser parte do cotidiano há muito tempo, muita gente não sabe qual é a origem desse documento. A história desse relatório começa no século 19, com um americano que foi pioneiro no processamento de dados: Herman Hollerith.

    Quem foi Herman Hollerith

    Descendente de alemães, o americano Herman Hollerith nasceu em 29 de fevereiro de 1860, na cidade de Buffalo, em Nova York.

    Formou-se engenheiro de minas em 1879. Três anos depois, tornou-se professor no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), onde teve o primeiro contato com cartões perfurados.

    Como o próprio nome diz, cartões perfurados eram pedaços de papel repletos de furos, usados desde 1804 na indústria têxtil como forma de otimizar o trabalho em teares.

    O uso de cartões perfurados nos teares, por sua vez, é creditado ao francês Joseph Marie Jacquard.

    Antes dessa tecnologia, usada para criar estampas, era necessário que um funcionário ficasse acima do tear, olhando a peça inteira e, aos poucos, criando o desenho, abaixando e levantando o tecido conforme a necessidade.

    Foto: Divulgação/Science and Industry Museum
    Um rolo de cartões perfurados
    Os cartões perfurados de Jacquard

    Os cartões perfurados mudaram esse jogo, já que o padrão de furos indicava exatamente os caminhos do desenho, diminuindo o tempo da tarefa e permitindo a reprodução de uma mesma estampa, repetidas vezes, sempre de forma idêntica.

    Estudioso de estatística e matemática, Hollerith queria encontrar uma forma de processar grandes quantidades de dados de maneira ágil, e viu nos cartões perfurados uma solução.

    Em 1887, Hollerith patenteou uma máquina que aceleraria o processamento de dados, a coleta e organização de informações, e colocaria seu nome como um dos pioneiros da área.

    As informações eram reunidas e transpostas para os cartões por meio de um perfurador. Depois disso, um funcionário posicionava o cartão perfurado em uma base com pequenos furos preenchidos com mercúrio, conectada a um eletroímã.

    Na sequência, a base com o cartão era prensada levemente com outra base, repleta de agulhas metálicas. Quando havia um furo, a agulha entrava em contato com o mercúrio e ativava o eletroímã, que, por sua vez, fazia avançar os ponteiros de uma série de relógios integrados ao móvel da máquina – cada volta completa do relógio equivalia a 9.999 dados.

    Cada relógio representava uma categoria de dados que estava sendo processada. Informações como gênero, existência de vínculo empregatício, presença de doenças crônicas e estado civil podiam ser coletadas a partir desse sistema.

    Em 1889, Hollerith fez o primeiro teste significativo com a máquina, processando dados médicos dos soldados do Exército dos EUA. Dado o sucesso do experimento, o governo americano decidiu usar a máquina do engenheiro no censo nacional que seria feito no ano seguinte.

    O censo nos EUA é feito a cada 10 anos, com o governo identificando a população de cada estado e levantando outros índices demográficos, como idade, estado civil, etnia, vínculos empregatícios etc.

    O processamento dos dados do censo de 1880 tinha levado sete anos. Com a máquina de Hollerith, a organização das informações levou apenas dois dias, após o término da coleta dos dados e da perfuração dos cartões.

    A máquina de Hollerith passou a ser usada em larga escala por órgãos do governo e empresas privadas que precisavam fazer o processamento de um grande volume de dados.

    Com a demanda, o inventor fundou a Tabulating Machine Company, empresa que, em 1911, se juntou a outras três empresas de soluções tecnológicas para negócios, formando a CTR Company, rebatizada, em 1924, como International Business Machines – ou, como conhecemos até hoje, IBM.

    Antes do surgimento dos computadores eletrônicos, empresas do mundo todo faziam o controle da entrada e da saída de seus funcionários usando os cartões perfurados, que permitiam o cálculo exato do salário devido conforme as horas trabalhadas.

    Por isso, a folha que detalha os ganhos do trabalhador é chamada holerite, termo derivado do sobrenome do inventor americano.

    Holerite ou contracheque?

    Assim como há o debate entre os termos “bolacha” e “biscoito”, há divergências sobre como chamar o relatório de pagamento.

    Em artigo publicado no G1 no ano de 2013, o professor de língua portuguesa Sérgio Nogueira aponta que tanto “holerite” como “contracheque” são termos válidos e corretos.

    A diferença é que “holerite” é mais usado no sudeste do país, especialmente em São Paulo, enquanto “contracheque” é adotado nas outras regiões do Brasil.

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