Quem é o genocida de Ruanda preso na França após 23 anos de fuga

Félicien Kabuga vivia com identidade falsa desde que se envolveu no massacre de um milhão de rivais em seu país natal em 1994

    A polícia francesa prendeu no sábado (16) nos arredores de Paris o cidadão ruandense Félicien Kabuga. Ele era procurado há duas décadas por ter participado no genocídio de até um milhão de pessoas em seu país natal, Ruanda, no leste da África, em 1994.

    A prisão de Kabuga, que tem 84 anos, e, no momento da detenção, vivia com identidade falsa num apartamento alugado em Asnières-sur-Seine, a noroeste da capital francesa, foi considerada a mais importante no âmbito do direito internacional em mais de uma década.

    A polícia chegou até ele depois de rastrear a comunicação que era mantida com parentes que lhe davam assistência financeira a partir de Ruanda. O governo francês diz não ter registro de entrada legal de Kabuga no país.

    Contas bancárias movimentadas por ele registraram acessos feitos a partir de Quênia, Suíça, França, Bélgica e Alemanha, desde sua condenação, em 1997, num tribunal internacional criado especificamente para julgar os responsáveis pelo genocídio de Ruanda. O governo dos EUA chegou a oferecer US$ 5 milhões por informações que levassem à prisão de Kabuga.

    Após sua prisão, Kabuga deve ser enviado para Arusha, na Tanzânia, onde um tribunal penal criado pela União Africana assumiu as funções pendentes do tribunal especial para Ruanda, encerado em 2015.

    Quais os crimes de Kabuga

    Em seu país natal, Ruanda, Kabuga era próximo do presidente Juvénal Habyarimana (1973-1994). Esse presidente foi assassinado num atentado, por rivais políticos em Kigali, capital do país, em 1994, num crime que deflagrou uma matança entre duas comunidades rivais – os os hutus e os tutsis.

    O presidente Habyarimana, assim como Kabuga, era hutu. Ao longo dos dias seguintes, os membros dessa comunidade matariam com as próprias mãos quase um milhão de rivais tutsis, no maior genocídio registrado na história desde o holocausto nazista, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

    84%

    da população tutsi de Ruanda morreu no genocídio de 1994

    Kabuga era dono da rádio Mille Collines, que, durante o genocídio, veiculou mensagens de ódio entre as comunidades, e chegou a dar nomes e endereços dos tutsis que seriam mortos.

    O empresário também foi responsável pela importação de dezenas de milhares de facões da China, que acabariam sendo usados para cometer a maior parte dos assassinatos naqueles dias.

    A divisão artificial entre hutus e tutsis

    A Conferência de Berlim, em 1884, que dividiu o continente africano entre as potências europeias, deixou o que hoje é Ruanda sob o poder alemão. O controle desse território passou para os belgas após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

    Uma das primeiras ações dos novos governantes foi classificar a população local — até então unificada e com um sistema eficiente de governo centralizado — em três categorias, definidas por características físicas arbitrárias como o tamanho do nariz e a cor dos olhos: hutus, tutsis e twas. A ideia era dividir a população para governar mais facilmente.

    Os colonizadores belgas passaram, com o tempo, a beneficiar os tutsis por entenderem que o grupo apresentava traços mais parecidos com os de pele branca, portanto, segundo correntes de pensamento racista, estaria mais próximo da civilidade. Colocaram, então, os tutsis no poder. Os hutus, que eram maioria, sentiram-se oprimidos.

    Em 1959, uma revolta conquistou a independência de Ruanda e instalou os hutus no poder, após um processo que envolveu assassinatos em massa de tutsis. As tensões entre os dois grupos permaneceram ao longo das décadas até culminar, em 1994, no episódio do genocídio.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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