Ir direto ao conteúdo

Por que agentes que pesquisam o coronavírus estão sendo detidos

Prefeitos barraram iniciativa financiada pelo Ministério da Saúde em cerca de 40 municípios por não terem sido informados sobre ela. Universidade que conduz estudo critica ‘burocracia’

    Temas

    Agentes contratados pelo governo federal para realizar a primeira grande pesquisa por amostragem no Brasil com a finalidade de detectar o avanço do coronavírus estão sendo detidos pela polícia, agredidos por moradores ou impedidos pelas prefeituras de fazer seu trabalho.

    Batizada de Epicovid-19, a iniciativa é coordenada pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) e financiada pelo Ministério da Saúde. Seu objetivo é medir a prevalência do vírus e a velocidade de expansão da doença no Brasil. A ideia é criar políticas públicas mais eficientes a partir dos resultados.

    A Ufpel realiza um levantamento nos mesmos moldes no Rio Grande do Sul. Os resultados da terceira fase do estudo no estado, divulgados em 13 de maio, sugerem que o número de gaúchos com a doença pode ser até nove vezes maior do que o registrado oficialmente. A pedido do governo federal, a universidade ampliou o projeto para todo o país.

    254.200

    casos de infecção pelo novo coronavírus foram confirmados até segunda-feira (18) pelo Ministério da Saúde

    16.792

    era o número de mortes pela doença até a mesma data, segundo o órgão

    Na pesquisa nacional, 2.000 agentes do Ibope começaram a visitar em 14 de maio as casas dos participantes em 133 municípios e a coletar amostras de sangue da ponta dos dedos para a realização de testes rápidos. A primeira fase seria concluída na sexta-feira (15), o que não foi possível por causa dos problemas enfrentados pelos agentes.

    R$ 12 milhões

    é o custo estimado do estudo

    R$ 9,97 milhões

    é o valor pago ao Ibope pelo serviço

    As dificuldades da pesquisa

    Agressões

    Como a população, na maioria das vezes, não foi avisada da pesquisa, os agentes têm sido atacados nas ruas por moradores sob acusação de violarem as quarentenas ou sob suspeita de serem golpistas. As agressões foram relatadas em Mossoró (RN). Em Campos dos Goytacazes (RJ), famílias não quiseram participar por desconfiança.

    Detenções

    A polícia está levando os pesquisadores para a delegacia para prestar depoimento, e os testes estão sendo apreendidos — estima-se que cerca de 800 foram perdidos. As detenções ocorreram em ao menos 12 cidades de todas as regiões do Brasil, segundo os coordenadores do trabalho. Em Rondonópolis (MT), os entrevistadores ficaram detidos num hotel à espera de autorização para poderem sair e fazer o trabalho.

    Proibições

    Em alguns municípios, a prefeitura não permitiu a realização da pesquisa. Em Araraquara (SP), a secretaria de Saúde afirmou que os agentes do Ibope não são profissionais da área e não podem coletar sangue das pessoas. O prefeito da cidade, Edinho Silva (PT), disse que a iniciativa não foi comunicada às autoridades de vigilância locais e que o ministério deveria compartilhar com os gestores a metodologia usada.

    Como é feita a pesquisa

    O levantamento foi dividido em três etapas. As duas primeiras são feitas em maio (a segunda está marcada para ocorrer nos dias 28 e 29), e a última, em junho (nos dias 11 e 12).

    Em cada fase, são 250 entrevistas em cada um dos 133 municípios, o que resulta em 33.250 testes por inquérito. As cidades foram determinadas por serem as sedes de cada sub-região intermediária do país segundo critérios do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    99.750

    era a previsão inicial do número total de entrevistas feitas pela pesquisa nas três etapas

    Em cada uma das cidades, 25 setores censitários são escolhidos com probabilidade proporcional ao tamanho. Há, então, uma seleção aleatória de dez casas dentro desses setores. Em cada domicílio, um morador é escolhido, também de forma aleatória, para fazer o exame.

    Os agentes realizam o teste rápido, que leva cerca de 15 minutos para apresentar o resultado e aponta se o indivíduo possui anticorpos para o vírus. Se for positivo, a pessoa recebe orientações sobre como se cuidar, e o caso é informado às secretarias municipais de saúde.

    150 mil

    testes rápidos foram entregues pelo Ministério da Saúde para viabilizar o estudo

    Na impossibilidade de testar os 210 milhões de brasileiros, a pesquisa amostral pode ser importante por possibilitar a realização de projeções sobre o avanço da doença no Brasil. Os dados permitem identificar as áreas mais atingidas pelo coronavírus no país e fornecem base para o planejamento de ações — como medidas de isolamento social.

    O diz a Ufpel sobre os problemas

    Segundo a universidade que coordena a pesquisa, os agentes contratados aguardam autorização para concluir o levantamento em quase 40 cidades, “num processo burocrático que pode causar prejuízo aos cofres públicos, visto que a pesquisa é integralmente financiada com recursos públicos”.

    Em nota divulgada em seu site, a Ufpel diz que os pesquisadores têm sido tratados “como criminosos”. “Trata-se de cerca de 2.000 brasileiros e brasileiras, que estão trabalhando para sustentar suas famílias, numa pesquisa que pode salvar milhares de vidas, e que mereciam proteção das forças de segurança e uma salva de aplausos por parte de toda a população. Ao contrário, as forças de segurança, que deveriam proteger os entrevistadores, foram responsáveis por cenas lamentáveis e ações truculentas, algumas delas felizmente registradas”, afirma a instituição.

    Os coordenadores da pesquisa dizem que, por mais que as cidades tenham sido informadas em cima da hora pelo Ministério da Saúde sobre a realização do estudo, o comportamento de gestores municipais como “xerifes” não se justifica. Todas as informações sobre a iniciativa estão divulgadas na página principal do ministério, afirmam.

    A universidade diz ainda que o governo federal informou aos municípios sobre a iniciativa, por meio de ofícios. Segundo o Ibope, alguns dos comunicados podem não ter chegado, causando a confusão.

    As críticas ao estudo

    A testagem em massa é defendida pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para que os governos conheçam o alcance do vírus na população e para que um país possa planejar como lidar com a doença.

    Uma das críticas ao estudo por amostragem financiado pelo Ministério da Saúde diz respeito à capacitação dos pesquisadores. Gestores de saúde dizem que os funcionários do Ibope, acostumados a fazer pesquisas de opinião, não deveriam recolher amostras de sangue. Eles receberam treinamento específico para isso, mas há quem defenda que o governo deveria ter buscado convênios com associações de empresas de saúde ou de enfermeiros para a realização do trabalho.

    A qualidade dos testes rápidos também é questionada. A pesquisa liderada pela Ufpel utiliza o exame Wondfo SARS-CoV-2 Antibody Test, produzido na cidade de Guangzhou, na China, pela empresa Wondfo. Muitos países, como Espanha e Reino Unido adquiriram testes chineses, mas acabaram devolvendo o material ou descartando-o por eles não funcionarem direito.

    Segundo a Ufpel, os exames usados são capazes de identificar casos positivos em 86% das vezes, segundo o fabricante. Testes com o material feitos pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde também apontaram bons resultados. E a própria universidade identificou um acerto de 78% em resultados positivos, e de 99% em resultados negativos.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.