Como as empresas de tecnologia enxergam o trabalho remoto

As chamadas big tech estão, em sua maioria, postergando o retorno aos escritórios, quebrando uma mentalidade que existia desde o começo do boom das startups

    Em meio à pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pela OMS (Organização Mundial da Saúde), trabalhadores de escritório do mundo todo se viram tendo que aderir ao trabalho remoto.

    Nos países onde houve diminuição no número de casos, discussões sobre uma reabertura e uma volta a algo próximo da normalidade pré-pandemia já estão acontecendo.

    As grandes empresas de tecnologia, porém, estão cada vez mais sinalizando que não têm pressa para que suas equipes retornem ao ambiente de escritório. Estão dispostas até a permitir que os funcionários continuem em casa mesmo no período pós-pandemia.

    O posicionamento das big tech

    As principais big tech – termo usado para designar as grandes empresas do Vale do Silício – já se posicionaram em relação ao futuro do trabalho remoto em meio ao avanço do novo coronavírus.

    A Amazon anunciou, no dia 1º de maio, que seus funcionários de escritório continuarão em casa pelo menos até outubro, com o prazo podendo ser revisto de acordo com a situação da pandemia.

    No comunicado interno, a empresa ainda esclareceu que está preparando os escritórios para um retorno seguro, com mesas espaçadas, checagem de temperatura dos funcionários na entrada, aumento das rotinas de limpeza e disponibilização de máscaras e álcool em gel.

    Seis dias depois, Google e Facebook anunciaram que a maior parte dos funcionários deve continuar no sistema de home office até o começo de 2021. No escritório, a partir de junho ou julho, estarão apenas aqueles trabalhadores que necessariamente precisam estar presentes no espaço físico da empresa em tempo integral – desde o começo da pandemia, em março, apenas visitas pontuais são feitas.

    O Twitter anunciou que os escritórios devem permanecer fechados pelo menos até setembro, e, quando reabrirem, o retorno será feito de forma gradual, com medidas de segurança que incluem o espaçamento entre as mesas e a intensificação das rotinas de limpeza.

    O diferencial do Twitter é que a empresa vai dar aos funcionários a possibilidade de continuar o trabalho remoto mesmo depois do fim da pandemia, ficando em casa se quiserem, sem nenhum tipo de redução de salário ou corte de benefícios.

    A Microsoft não anunciou publicamente uma janela de tempo específica para o retorno, mas, ao jornal The Washington Post, o presidente da empresa, Brad Smith, disse que não há pressa para que isso aconteça. “Nosso setor pode servir a economia com mais trabalho remoto do que outras áreas. É uma questão de responsabilidade social”, afirmou.

    Segundo a agência Bloomberg, a Apple é a única big tech a ir na contramão de suas concorrentes, com planos para um retorno aos escritórios começando entre o fim de maio e o começo de junho, inicialmente para funcionários que precisam estar nos espaços físicos da empresa.

    De acordo com as fontes anônimas ouvidas pela Bloomberg, um volume maior de funcionários – do mundo todo – voltarão aos escritórios a partir de julho. Não se sabe quando 100% dos trabalhadores estarão presentes nos espaços físicos da empresa. A Apple não quis comentar o assunto à agência de notícias americana.

    Uma mudança na mentalidade

    O prolongamento do trabalho remoto caracteriza uma mudança de mentalidade nas empresas do Vale do Silício, região do centro-oeste da Califórnia que abriga as principais empresas de tecnologia do mundo.

    Desde meados dos anos 2000, quando houve o chamado boom das startups, com novas empresas de tecnologia surgindo aos montes, empreendedores da área usam escritórios como forma de mostrar que seus negócios são inovadores e também para atrair novos talentos para o quadro de funcionários da empresa.

    Um levantamento de 2018 feito pela Continental Office, empresa americana de consultoria de mercado, concluiu que 23% dos trabalhadores de escritório dos EUA enxergavam o espaço físico das empresas como fator decisivo na hora de aceitar ou não uma oferta de emprego.

    Não era incomum ver escorregadores, camas elásticas, videogames e salas de descanso nos escritórios das grandes empresas de tecnologia. Nessa área, o Google se tornou referência quando se fala de ambientes de trabalho que fogem do tradicional.

    As resistências em relação ao home office

    Apesar de o home office ter sido imposto em meio à pandemia, muitas empresas, antes do coronavírus, apresentavam resistências ao trabalho remoto.

    De acordo com a consultora americana de recursos humanos Liz Ryan, a resistência vinha de uma falta de confiança dos supervisores nos próprios funcionários e neles mesmos.

    “Líderes que não confiam em si mesmos o suficiente para contratar pessoas em que confiam sempre vão se voltar a mecanismos de poder e controle”, afirmou em uma edição de sua coluna na revista Forbes em 2017.

    “Isso inclui forçar as pessoas a dirigir um carro ou pegar um trem todos os dias para que possam ser supervisionadas de perto”, acrescentou. “Eles acreditam que um funcionário que está trabalhando em casa está na verdade assistindo a novelas e comendo chocolate em vez de realizar as tarefas”, concluiu.

    Um estudo de 2014 publicado pela revista da Escola de Negócios da Universidade de Harvard mostrou que o temor é infundado, e que o trabalho remoto, na maioria dos casos, pode trazer um aumento de cerca de 13,5% na produtividade.

    A pesquisa foi conduzida pelo professor Nicholas Bloom, da Universidade de Stanford, observando 249 funcionários da empresa de telemarketing chinesa CTrip.

    Os funcionários que trabalharam de casa não só foram mais produtivos na hora de realizar ligações, mas relataram se sentir mais satisfeitos com os resultados e menos cansados, já que não precisavam fazer o trajeto casa-trabalho-casa.

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