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Como China e EUA acirram tensões na pandemia

Duas maiores economias do mundo travam conflitos na saúde, na tecnologia e nas finanças. Escalada põe em xeque o acordo firmado no início do ano e Trump fala até em rompimento

    “Nossa relação com a China nunca esteve melhor”. Foi o que disse Donald Trump, presidente dos EUA, em 21 de janeiro de 2020. Naquele momento, os dois países haviam acabado de assinar a primeira fase de um acordo, apaziguando as tensões da guerra comercial travada desde o início de 2018.

    Por mais que não retirasse todas as tarifas dos EUA sobre a importação de produtos chineses, a assinatura do acordo sinalizou a possibilidade de trégua em uma das maiores disputas comerciais das últimas décadas. O texto incluía a suspensão de parte das tarifas previstas pelos EUA à China e o comprometimento do governo chinês em comprar mais de US$ 200 bilhões em produtos americanos entre 2020 e 2021. Nos mercados, o compromisso firmado entre os dois países foi recebido como a remoção de um importante fator de risco para 2020.

    Quatro meses depois, as tensões entre as duas maiores economias do mundo estão altas de novo. A pandemia do novo coronavírus abalou as relações entre as duas partes, e a disputa que parecia se encaminhar para uma solução amigável dá sinais de reviravolta. Abaixo, o Nexo mostra como EUA e China acirram as relações na pandemia.

    As acusações dos EUA

    Uma das principais linhas de frente da disputa entre China e EUA se dá em torno da narrativa sobre a origem e controle do novo coronavírus. O presidente dos EUA, Donald Trump, e seu secretário de Estado, Mike Pompeo, disseram diversas vezes, desde o início da circulação do vírus, ainda no fim de 2019, que o novo coronavírus se originou num laboratório da cidade de Wuhan, na China. Trump também se referia ao novo coronavírus como “um vírus chinês”.

    Tanto as declarações de Pompeo quanto de Trump vão na contramão de um relatório da própria inteligência americana que sustenta que o vírus “não foi feito pelo homem, nem foi geneticamente modificado”. O mesmo relatório diz, no entanto, que as pesquisas continuarão sendo feitas para determinar se a pandemia teve início “no contato com animais infectados ou se foi resultado de um acidente no laboratório de Wuhan”.

    Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), não há evidências que suportem tal afirmação. Trata-se, portanto, de uma mera especulação, uma vez que os americanos não apresentaram provas que sustentem essa teoria. O governo chinês, por sua vez, classifica a acusação das autoridades dos EUA como simplesmente “insana”.

    As ações dos EUA na saúde e ciência

    Para além de acusações, os EUA também tomaram medidas concretas. Primeiro, Trump anunciou em 14 de abril que iria interromper o encaminhamento de verba para a OMS. Uma das justificativas do presidente americano era que a organização dava atenção demais à China, e não cobrava o gigante asiático pela responsabilidade na disseminação do coronavírus.

    Trump também cortou verba para uma pesquisa sobre doenças ligadas a morcegos na China. A pesquisa era conduzida por uma organização americana não-lucrativa chamada EcoHealth Alliance, em parceria com o Instituto de Virologia de Wuhan. A interrupção no dinheiro para a pesquisa é parte da investida dos EUA para levantar suspeitas contra laboratórios chineses e cortar cooperação com a China na área da ciência.

    Além das preocupações científicas em torno do novo vírus, há ainda elementos ideológicos, pelo fato de a China ser governada por um partido comunista. O acirramento da tensão geopolítica tem, inclusive, levantado entre especialistas a ideia de que China e EUA podem adentrar em uma nova Guerra Fria. O nome Guerra Fria se refere ao período de disputas militares entre a hoje extinta União Soviética, comunista, e os EUA, capitalista, quando o mundo esteve mais perto de uma catástrofe nuclear.

    A nova disputa na OMS

    A reunião virtual da OMS que ocorre entre segunda (18) e terça-feira (19) não ficou livre de disputas entre as duas maiores economias do mundo. Agora, o assunto foi a participação de Taiwan na OMS.

    A China entende que Taiwan é parte de seu território. A ilha, por sua vez, tem um governo democrático próprio, eleito pelos seus 23 milhões de habitantes, e não demonstra vontade de se anexar ao governo do Partido Comunista Chinês.

    Entre 2009 e 2016, Taiwan foi observador nas reuniões da OMS. Com Trump pressionando para elevar o status do país nos eventos, a China barrou qualquer participação de Taiwan na reunião, nem mesmo como observador. Em 2020, o debate sobre a participação da ilha foi retomado, com China e EUA assumindo posições opostas.

    Taiwan acabou não sendo convidado para a reunião de meados de maio, em decisão que contrariou os EUA e favoreceu a China. O governo taiwanês lamentou a decisão, dizendo que gostaria de compartilhar com o restante do mundo seu sucesso em controlar o coronavírus. O ministro de Relações Exteriores de Taiwan, Joseph Wu, disse que o governo aceitou adiar o debate sobre o status da ilha na OMS para outro momento de 2020, sem especificar uma data.

    As disputas envolvendo a Huawei

    O setor de tecnologia representa um capítulo à parte nas disputas comerciais entre China e EUA. E na pandemia, as tensões nessa área ganharam novos capítulos, girando novamente em torno da Huawei, gigante chinesa de tecnologia.

    Na sexta-feira (15), Donald Trump anunciou um bloqueio de vendas de semicondutores – materiais com nível intermediário de condução elétrica – para a Huawei. Na prática, isso significa que os EUA irão dificultar o acesso da empresa chinesa à cadeia de fornecimento global de chips, prejudicando sua produção. Por mais que os chips tenham sido projetados pela Huawei, sua produção depende de tecnologia americana.

    No sábado (16), o Ministério das Relações Exteriores da China pediu para os EUA pararem com a “perseguição irracional” contra a empresa. Na segunda-feira (18), a Huawei chamou a decisão de Trump de “arbitrária”, e disse que sua sobrevivência está em xeque. A empresa ainda diz que a decisão do governo americano deve afetar suas operações em 170 países.

    “Esperamos que nossos negócios sejam inevitavelmente afetados. Vamos tentar o máximo possível para encontrar uma solução”

    Guo Ping

    presidente da Huawei, em discurso na cúpula anual de analistas da Huawei, em 18 de maio de 2020

    O histórico do conflito na tecnologia

    A Huawei tem sido protagonista desde o início das disputas comerciais entre os dois países. O conflito começou no final de 2018, quando autoridades canadenses prenderam Meng Wanzhou, diretora e filha do fundador da Huawei, a mando dos EUA. A prisão teria sido motivada pela violação a sanções americanas ao envio de equipamentos americanos ao Irã. O episódio inaugurou uma série de ataques diretos e escancarou o conflito tecnológico entre EUA e China.

    Em 2019, as disputas em torno da tecnologia se agravaram. Em maio, o presidente americano assinou um decreto que proibia empresas americanas de usar equipamentos de empresas estrangeiras que fossem consideradas um risco à segurança nacional – medida que atingiu diretamente a Huawei. Além disso, a medida restringia a compra de insumos americanos pela Huawei, buscando minar a cadeia de produção da empresa.

    Pouco após a imposição da sanção, o Google rompeu laços com a gigante chinesa, que ficou impedida de oferecer serviços da empresa americana a seus clientes. A estimativa é que a Huawei tenha perdido cerca de US$ 10 bilhões em receitas anuais com o decreto do governo americano. Em maio de 2020, a medida foi prorrogada até 2021.

    Em agosto de 2019, Trump ampliou o ataque à Huawei ao barrar o uso de produtos da gigante de tecnologia e de outras empresas chinesas nas agências do governo dos EUA. A China já havia decretado medidas similares, como a proibição de tecnologias estrangeiras nos órgãos públicos do país, anunciada no início de 2019 e divulgada em dezembro daquele ano pelo jornal britânico Financial Times.

    O lucro da Huawei em 2019 registrou o menor crescimento em três anos. A empresa disse que o governo chinês não ficaria “com os braços cruzados enquanto massacram a Huawei”.

    O argumento da segurança nacional

    A principal justificativa usada pelos EUA para focar atenções na tecnologia é que o setor possui, além de um grande potencial comercial, peso estratégico na área de segurança nacional. O país enxerga a presença adversária como um risco severo, especialmente pela possibilidade de espionagem entre as duas maiores economias do mundo. A Huawei e o governo chinês negam as acusações, e questionam a ideia de que a gigante de tecnologia poderia ser usada para roubo de dados e informações dos EUA. Em troca, acusam o governo americano de tentar travar o desenvolvimento industrial chinês.

    A briga travada também tem como objeto o sinal de telefonia móvel de quinta geração – o chamado 5G. O governo americano tem feito pressão em diversos países para impedir a crescente atuação de empresas chinesas em um mercado considerado central para o desenvolvimento de novas tecnologias no futuro próximo. A disputa envolve até o leilão do 5G no Brasil, previsto para o final de 2020.

    A grande novidade do 5G é a velocidade de conexão e o trânsito de informação. Além disso, essa tecnologia é considerada muito mais estável que as anteriores. A nova tecnologia também possibilita maior integração entre máquinas inteligentes como carros, televisões, celulares e até casas.

    As empresas que dominam a infraestrutura da rede de 5G pelo mundo são a chinesa Huawei e duas empresas escandinavas, a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson. Esse protagonismo chinês tem suscitado preocupação do governo americano. A Casa Branca demonstra receio com a possibilidade de que a Huawei use seu alcance e participação na rede de quinta geração para capturar dados e entregá-los ao governo chinês.

    A questão dos investimentos

    A tensão entre EUA e China também tem se acirrado quando o assunto é investimento. Isso porque ambos países estão diminuindo os fluxos de dinheiro para o respectivo rival comercial, abrindo caminho para uma possível guerra financeira.

    No primeiro trimestre de 2020, o investimento direto chinês em projetos nos EUA foi de US$ 200 milhões. Em 2019, o investimento trimestral médio foi de cerca de US$ 2 bilhões – ou seja, a queda foi de praticamente 90%. Em 2019, os fluxos de dinheiro da China para os EUA já haviam caído significativamente em relação ao ano anterior.

    Em venture capital – investimentos em startups e outros negócios pouco tradicionais – a queda dos movimentos de dinheiro em 2019 ocorreu nos dois sentidos: americanos reduziram investimentos na China e chineses reduziram investimentos nos EUA.

    Em 13 de maio de 2020, em meio à intensificação das críticas de Trump à China, o maior fundo de pensões controlado pelo governo americano anunciou que iria suspender planos de investimento em ações de empresas chinesas. O fundo, que controla quase US$ 600 bilhões em bens de 5,9 milhões de funcionários públicos americanos, sofreu pressão do governo para abandonar o plano.

    O argumento usado é que não faria sentido colocar dinheiro de trabalhadores dos EUA em empresas que atuam contra os interesses nacionais do país. O governo chinês disse que a ação vai ser prejudicial apenas aos investidores americanos.

    O estado das relações

    A escalada das tensões entre EUA e China em meio à pandemia do novo coronavírus pode significar uma deterioração histórica das relações entre os dois países. Entre especialistas, começa a circular a leitura de que este seja o pior momento na relação entre as duas maiores economias do mundo em mais de 40 anos.

    Em entrevista à emissora americana Fox na quinta-feira (14), Trump deu uma declaração que sinaliza um agravamento nas relações. Além de dizer que não tem vontade de conversar com o presidente da China, Xi Jinping, Trump disse que pode romper laços.

    “Poderíamos cortar todas as relações. Se fizesse isso, o que poderia acontecer? Economizaria US$ 500 bilhões, se cortasse todas as relações”

    Donald Trump

    presidente dos EUA, em entrevista à Fox

    Em reação à declaração de Trump, o Ministério de Relações Exteriores da China disse que os EUA deveriam abandonar a “mentalidade da Guerra Fria”. Segundo o governo chinês, o foco deveria ser o combate ao novo coronavírus.

    “O desenvolvimento estável das relações entre China e Estados Unidos é de interesse fundamental dos povos dos dois países e também é propício à paz e à estabilidade mundial”

    Zhao Lijian

    porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, em conferência com jornalistas

    O acordo comercial

    Nesse contexto, o acordo comercial entre os dois países voltou ao centro das atenções. Isso porque o texto assinado em janeiro configura apenas a primeira fase do acordo, e havia, antes da pandemia, a expectativa de as negociações avançarem ao longo de 2020, possivelmente resultando na retirada de tarifas americanas sobre a importação de produtos chineses.

    Em 11 de maio de 2020, Trump disse em coletiva de imprensa que não está interessado em reabrir as conversas relativas ao acordo. O presidente americano afirmou que “queria ver se eles vão cumprir o acordo que assinaram” antes de prosseguir com as negociações. A fala foi acompanhada novamente de críticas à forma como a China lidou com a pandemia do novo coronavírus.

    Ao mesmo tempo, uma reportagem do jornal estatal chinês Global Times, publicada também em 11 de maio, mostrou que há pressão dentro do governo da China para romper o acordo. Isso seria devido a uma crescente insatisfação com as críticas do governo americano com relação à pandemia.

    O argumento a favor do rompimento diz que os EUA perderam poder de negociação frente à queda da economia do país e à proximidade das eleições presidenciais, que ocorrem em novembro. O atual presidente, Donald Trump, irá enfrentar o democrata Joe Biden pelo mandato entre 2021 e 2025.

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