Pandemia nas Américas: precariedade e descoordenação

Região mais afetada do mundo pela covid-19 é também a que tem acesso mais precário às redes de saúde, além de falta de políticas conjuntas entre países

Dois indicadores trágicos assolam a América Latina na pandemia do novo coronavírus: um alto número de casos de contaminação e uma rede precária de assistência em saúde.

Outras regiões também são tocadas por esses problemas, mas não de forma conjunta, nem com a mesma intensidade dos latino-americanos. A África, por exemplo tem uma rede de saúde precária, porém o número de casos ainda é baixo no continente.

A América do Norte e a Europa também têm numerosos casos da doença, mas, por outro lado, contam com robustos sistemas sanitários. A Ásia tem menos casos registrados que a América Latina, e além disso o primeiro choque da onda de contaminação já passou. Já a Oceania é a região menos afetada, com apenas 29% dos países desta região registrando casos do novo coronavírus.

Até domingo (17), os países da América do Sul e o Caribe somavam 500 mil diagnósticos confirmados da doença, com mais de 28 mil mortos. O mais atingido é o Brasil, país que responde por 47% do território da América do Sul e mais da metade da população do subcontinente.

Mesmo com mais de 16 mil mortos pela covid-19 registrados até domingo (17), o Brasil era o país da região com a política mais confusa em relação ao isolamento social recomendado por autoridades sanitárias. Embora alguns governadores e prefeitos tentem manter a população em casa, o governo federal se opõe ativamente às medidas e tenta acelerar a volta ao trabalho e a reativação da economia, sobretudo por meio de declarações públicas do presidente Jair Bolsonaro.

O total de mortos pela covid-19 em todo o continente americano passava dos 130 mil no domingo (17), quando acrescidos os dados dos EUA (mais de 90 mil mortos) e do Canadá (mais de 5 mil). Em todo o mundo, eram 316 mil mortos.

Desencontro com a Argentina

Se no passado recente o Brasil reivindicava para si um papel de coordenação e de representação dos interesses sul-americanos – a tal ponto que chegou a ser criticado por supostamente assumir um papel de potência regional subimperialista –, agora, sob o governo do presidente Bolsonaro, a situação é inversa: o país parece cada vez mais apartado de seus vizinhos.

Bolsonaro nunca encontrou-se pessoalmente com Alberto Fernández, presidente do país que é o maior parceiro do Brasil na região, a Argentina. Os dois líderes nutrem uma animosidade pública por razões ideológicas. Fernández é de esquerda e apoia o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, do qual Bolsonaro, de extrema direita, é arquirrival.

“A única coisa que está clara nessa pandemia é que a resposta a ela deveria ser coletiva e não individual. Nenhum país vai se salvar sozinho desse vírus que viaja na velocidade das comunicações num mundo globalizado”, disse ao Nexo o senador argentino Jorge Taiana, que foi chanceler de seu país de 2005 a 2010, durante as administrações de Néstor e Cristina Kirchner, e que hoje preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado, em Buenos Aires.

“Devemos superar as diferenças e os preconceitos, e fortalecer as tendências de integração regional, restabelecendo cadeias de valor e aproveitando o desenvolvimento econômico de possíveis acordos entre os países, que nos permitam crescer”, disse o ex-chanceler argentino, menos de um mês depois de seu país ter anunciado que abandonou as negociações do Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul) para se dedicar exclusivamente à gestão da crise provocada pela covid-19.

“A situação econômica após o coronavírus será muito grave, com grande queda do produto interno bruto regional e mundial. Crescerão os índices de desigualdade, de pobreza e de indigência. Por isso, a única saída que nós temos, enquanto região, é fortalecer e integrar, como forma de aguentar as pressões, e de termos uma voz que seja escutada”, afirmou o senador.

Brasil e Paraguai: afinidade, mas com distanciamento

Mas mesmo quando o presidente brasileiro nutre simpatia ideológica a coordenação vai mal. O presidente do Paraguai, Mario Abdo, por exemplo, de quem o governo Bolsonaro é próximo, resolveu decretar quarentena e fechar a fronteira, para que brasileiros contaminados não fizessem os casos da covid-19 dispararem no país de apenas 7 milhões de habitantes.

Os governos paraguaio e argentino reclamaram publicamente da falta de coordenação brasileira e do risco que o país passou a representar para seu entorno desde o início da pandemia.

O Brasil faz fronteira com todos os países da América do Sul, com exceção do Chile e do Equador. Portanto, qualquer descontrole num país com essa magnitude pode transbordar para o restante da região.

Desde o início da pandemia, poucos foram os fóruns de coordenação efetiva entre os líderes da região. Bolsonaro sequer participou da primeira reunião virtual de presidentes para tratar do tema, no dia 16 de março.

Os líderes de Argentina, Chile, Uruguai, Equador, Peru, Paraguai, Bolívia e Colômbia estiveram presentes, enquanto o presidente brasileiro preferiu designar seu chanceler, Ernesto Araújo, e seu então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que seria demitido no meio de uma crise política exatamente um mês depois.

Desconexão com a América do Norte

A pandemia chegou primeiro à América do Norte – Canadá e EUA, em fevereiro – para só um mês depois, em março, começar a se alastrar pela América Latina e pelo Caribe.

No dia 30 de março, os EUA ultrapassaram os chineses em números de mortos pelo novo coronavírus (3.810). Em 11 de abril, passaram a liderar o número de infectados e mortos no mundo todo (19.882), e até domingo (17) o país somava mais de 91 mil vítimas fatais, isolando-se no primeiro lugar.

Assim como os brasileiros, os americanos também adotaram um modelo confuso de quarentena, com governadores divergindo do presidente que, por sua vez, divergia das autoridades sanitárias na hora de fechar ou abrir o comércio, as escolas e os transportes, enviando mensagens desencontradas para uma população desorientada.

A maior potência do mundo viu expostas suas fragilidades internas. Sem um sistema público de saúde universal, os americanos tiveram dificuldade para fazer frente à pandemia. Mais de 27,5 milhões de pessoas não têm condição de pagar por um plano privado de saúde no país, e as dívidas com hospitais são o maior motivo de falência dos cidadãos americanos que não dispõem de um plano privado.

Engolfado por suas próprias mazelas, os EUA indicaram a parceiros como o Brasil que o país teria de, primeiro, resolver suas próprias urgências, para só depois pensar em ajudar.

“O povo brasileiro pode contar com os EUA quando ‘virarmos a esquina’ [‘turn the corner’, expressão em inglês para se referir à melhora do quadro depois de uma situação difícil] e aumentarmos a produção americana para todos os itens restritos, que vão de respiradores, testes, tudo o que é necessário. Quando chegarmos lá, o Brasil deve saber que faremos tudo o que pudermos para ter certeza de que eles terão o que precisam”, disse em 14 de abril o secretário de Estado americano, Mike Pompeo.

Equipamentos essenciais comprados da China por governadores de estados brasileiros chegaram a ficar retidos no aeroporto de Miami no mês de março. Alemães e franceses passaram por problemas semelhantes, e acusaram o governo do presidente Donald Trump de incorrer em “pirataria moderna”.

Diante da dificuldade de coordenação com a principal potência da região, alguns estados recorreram a triangulações com a China, passando por aeroportos da África, especialmente Adis Abeba, na Etiópia, em vez de buscar cooperação com Washington.

A estratégia dos EUA têm sido de criar espaço para que suas empresas privadas participem dos esforços internacionais, mais do que o governo em si. No dia 1º de maio, os americanos anunciaram a destinação de R$ 5,21 milhões “para incentivar investimentos do setor privado na mitigação dos impactos não relacionados à saúde” durante a pandemia, especificamente “na região amazônica”.

O embaixador dos EUA em Brasília, Todd Chapman, disse numa teleconferência com jornalistas brasileiros, em 8 de maio, da qual o Nexo fez parte, que empresas americanas como 3M, Ford, Johnson & Johnson's, Google, Facebook, UHG (United Health Group) estão presentes no Brasil e atuarão na colaboração entre os dois países ao longo da pandemia.

Longe do pico, que pode ser alto

O Nexo enviou uma série de perguntas sobre o estado da cooperação regional à Opas (Organização Panamericana da Saúde), que respondeu afirmando que é preciso levar em conta “o mosaico epidemiológico que existe nas Américas”.

“Os sistemas de saúde dos países da América Latina e Caribe têm graus distintos de preparação e capacidade de resposta, não podemos tratá-los como se fossem homogêneos nesse aspecto. Como um dos últimos continentes a experimentar o surto da covid-19, não acreditamos que a América Latina e o Caribe tenham atingido o pico de casos”, disse a organização em sua resposta.

Alguns cientistas chegaram a cogitar que o clima quente das regiões tropicais fosse desfavorável à disseminação do vírus, mas especialistas da Opas afirmaram que “não há qualquer evidência que áreas tropicais sejam mais protegidas. Os surtos importantes que ocorrem em Guayaquil [no Equador] e Manaus demonstram que a covid-19 pode ser transmitida e gerar um número importante de casos mesmo em áreas tropicais”.

A Opas afirma ainda que, “no início do ano, distribuiu um estoque limitado de EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] para todos os países da América Latina a partir de seu armazém regional no Panamá. Esse estoque limitado está sendo usado pelos ministérios da saúde para responder a surtos em pontos críticos da região. Desde fevereiro, foram distribuídos 2,6 milhões de testes manuais de RT-PCR a 34 laboratórios nacionais da região”.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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