Como a tomografia é usada para identificar o coronavírus

Com falta de testes, imagens de tórax estão servindo para antecipar diagnósticos e selecionar casos graves para internação. Presença de aparelhos no Norte e Nordeste, porém, é baixa

    Médicos de todo o Brasil estão usando um banco de imagens de radiografias e tomografias de tórax para identificar doentes do novo coronavírus. Com a plataforma, os profissionais antecipam diagnósticos e selecionam os casos graves que precisam de internação ou UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Num contexto de falta de testes, a ferramenta é vista como uma alternativa no combate à pandemia.

    Chamado de RadVid19, o banco já conta com mais de mil imagens de tórax de doentes da covid-19 no Brasil. A ideia é que agregue até 4.000 delas. Para obter um diagnóstico, radiologistas fornecem ao sistema o caso a ser analisado e recebem de volta um relatório dizendo se é positivo ou não para o vírus, com a ajuda de inteligência artificial.

    “Como a principal manifestação clínica da doença é o comprometimento pulmonar, a tomografia é essencial para detectar os casos graves que precisem de uma internação ou de um tratamento mais agudo. Não tendo testes, a tomografia é o método que vai selecionar esses casos que podem ter um acompanhamento clínico”, diz ao Nexo o professor Giovanni Guido Cerri, presidente do InRad (Instituto de Radiologia) e do Conselho de Inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que comanda a iniciativa. O projeto tem o apoio do Colégio Brasileiro de Radiologia e de outras entidades.

    O uso das tomografias

    As tomografias têm sido usadas na rede pública municipal de São Paulo desde abril em pacientes que dão entrada nos hospitais com possíveis sintomas da doença. Naquele mês, a prefeitura divulgou que, de todos os casos suspeitos, 48% apresentaram resultados “altamente sugestivos” de covid-19 nas tomografias computadorizadas realizadas.

    “O teste [PCR, que identifica a presença do vírus no organismo] pode demorar de dois a vários dias para sair. Ou seja, a tomografia faz o diagnóstico antes do teste que vai apontar o diagnóstico definitivo. Não é a tomografia que faz o diagnóstico definitivo, mas ela pode antecipá-lo. E o que é mais importante: se o paciente tiver o quadro bastante característico de covid, ele já deve iniciar o tratamento, com uma internação ou com os cuidados como se fosse covid”, diz Cerri.

    Ele defende o uso da tomografia para a triagem dos doentes. “Se o paciente não tiver nada no pulmão, ele pode ir para casa e fazer o acompanhamento em casa sem nenhum problema. Se tiver alterações pulmonares relacionadas com a covid, esse paciente precisa de um cuidado. E a tomografia também mostra a intensidade do processo inflamatório. Há pacientes pouco sintomáticos que já tem o comprometimento pulmonar bastante severo”, afirma.

    O que as imagens mostram

    Segundo o médico, as tomografias realizadas em doentes da covid-19 com alterações pulmonares apresentam um padrão característico de “vidro fosco”. As imagens mostram “condensações periféricas” no pulmão, como se fossem borrões, com aparência “não transparente”.

    “Esse padrão é característico de covid. É característico de pneumonias virais. Neste momento, um quadro desses é quase com certeza um covid. Hoje, um paciente que chega com esse padrão [de imagem] é considerado covid e é covid em mais de 95% dos casos”, diz.

    Os borrões indicam uma reação inflamatória dos alvéolos, que são as menores unidades do aparelho respiratório nas quais ocorrem as trocas gasosas entre ar e sangue.

    “Em condições normais, a imagem do pulmão, numa tomografia ou raio-X, é transparente e preta. Porque aquilo representa o ar dentro dos alvéolos. Num processo inflamatório infeccioso, os alvéolos ficam preenchidos por essa reação inflamatória. Isso nas pneumonias virais tem um padrão característico de vidro fosco”, afirma Cerri.

    De acordo com o médico, se a tomografia der positiva, a chance de erro é mínima. “A única alternativa é que não seria uma pneumonia viral por coronavírus, mas uma pneumonia com uma outra origem. Essa possibilidade, neste momento, é praticamente zero. Se for positiva tem que ser considerado um paciente de covid”, diz.

    A falta de testes

    Documento elaborado por um grupo de entidades, entre as quais o próprio Colégio Brasileiro de Radiologia, defende que a tomografia computadorizada de alta resolução do tórax não deve ser usada isoladamente, mas de maneira complementar ao diagnóstico da covid-19. O exame não pode ter valor para descartar a infecção e servir como justificativa para retirar pacientes suspeitos do isolamento.

    A tomografia é indicada, de acordo com as entidades, principalmente para pacientes hospitalizados, sintomáticos, com quadro moderado ou grave, e ajuda a avaliar suspeita de complicações como tromboembolia pulmonar e sobreposição de infecção bacteriana. O documento diz que os achados são mais frequentes entre o terceiro e o sexto dia de infecção (fase intermediária) e a partir do sétimo dia (fase tardia).

    A ferramenta, porém, é vista neste momento como essencial considerando o contexto de falta de testes para identificar os doentes no Brasil. Dados do Ministério da Saúde apontam que até sexta-feira (15) foram entregues 5,4 milhões de testes rápidos (que identificam a presença de anticorpos) dos 22 milhões prometidos pelo órgão.

    Em relação aos testes PCR, 3 milhões chegaram aos hospitais, de um total de 24,2 milhões que o então ministro Nelson Teich afirmou que seriam fornecidos. Teich pediu demissão na sexta-feira (15).

    Pesquisa do Conselho Federal de Medicina entre o final de março e o início de maio mostrou que 19% dos médicos reclamaram de falta de testes nos hospitais do país.

    Com 241 mil casos confirmados e 16.118 mortes até domingo (17), o Brasil é o quinto país do mundo com maior número de doentes. É também um dos que menos realizou testes. Foram feitos 3.462 testes para cada milhão de habitantes, bem atrás de países como Espanha (52.784), Itália (46.426) e Estados Unidos (32.295), segundo dados do site Wordometer, que compila informações de todo o mundo.

    Os efeitos da desigualdade

    Dados sobre a quantidade e distribuição de tomógrafos computadorizados no Brasil revelam, porém, dificuldades estruturais e desigualdades entre regiões que podem atrapalhar a estratégia de usar os equipamentos no combate à pandemia.

    Segundo informações do CNES (Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil), do Ministério da Saúde, o país possuía, em abril de 2020, 5.109 tomógrafos computadorizados, dos quais 4.937 estavam em uso.

    Desses equipamentos, 46% estão no Sudeste, 18% no Nordeste, e apenas 6% no Norte. Os sistemas de saúde do Norte e Nordeste foram os primeiros a apresentar sinais de colapso devido à pandemia.

    Em comparação com outros países, o Brasil também fica atrás no uso da tecnologia. Um trabalho de 2016 da FGV (Fundação Getulio Vargas) apontou que o país tinha 16,4 equipamentos de tomografia computadorizada para cada milhão de habitantes, enquanto a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) era de 24,4. O Japão tinha 101,3, e os EUA, 53,6.

    Considerados apenas os equipamentos disponíveis no SUS (Sistema Único de Saúde), que é responsável por atender três quartos dos brasileiros, a taxa é ainda menor: 8,2 tomógrafos por milhão de habitantes.

    O mesmo estudo também mostra que o Brasil fica em penúltimo na lista de países analisados pela OCDE em relação à quantidade de exames de tomografia computadorizada realizadas por ano. O país faz 49,7 exames por mil habitantes, enquanto a média de todos os países é de 120. Para quem possui plano privado no Brasil, a taxa é de 108 exames. Já no SUS, ela despenca para 23 para cada mil habitantes.

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