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As pressões a favor e contra o lockdown em São Paulo

Enquanto empresários cobram do governador plano de saída da quarentena, estado registra aumento acelerado no número de casos. Na capital, hospitais estão perto do limite

    A escalada de casos do novo coronavírus no estado de São Paulo tem pressionado as autoridades públicas a adotar medidas mais restritivas de circulação de pessoas, em especial na capital e na região metropolitana, que concentram 81% de todas as notificações.

    Na sábado (16), o estado de São Paulo registrava 61.183 casos e 4.688 mortes em decorrência do vírus. Do total de casos confirmados, cerca de metade foi observada apenas nos primeiros 15 dias de maio, o que demonstra um agravamento da situação nos últimos dias.

    Uma projeção feita por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) prevê que, no final de junho, o estado poderá contabilizar a cada dia 53,5 mil novas infecções (20,8 mil apenas na capital) e 2.500 mortes (1.100 na capital), caso a taxa de contágio observada entre 10 de abril e 10 de maio seja mantida.

    Os pesquisadores alertam, porém, que o quadro pode ser ainda pior, já que a taxa de isolamento social em São Paulo vem caindo desde meados de abril. Na sexta-feira (15), segundo o governo do estado, apenas 48% das pessoas ficaram em casa.

    Entre o final de março e o início de abril, São Paulo conseguiu manter o índice acima dos 50% (com picos de 59% nos fins semana), mas a partir de maio viu o distanciamento ser relaxado. Os efeitos das restrições costumam demorar até duas semanas para serem sentidos nas estatísticas.

    Alguns pesquisadores e autoridades da área de saúde consideram como ideal um isolamento igual ou superior a 70% para forçar uma redução na taxa de infecção. Nessa situação, em vez de um doente passar o vírus para outras três pessoas, esse número cairia para menos de um. Isso aliviaria a pressão sobre os hospitais e poderia permitir uma reabertura do comércio não essencial.

    233.142

    casos de covid-19 foram confirmados no Brasil até sábado (16), segundo dados do Ministério da Saúde

    15.633

    era o número de mortos pela doença até a mesma data, de acordo com o órgão

    O que é lockdown

    O lockdown já foi decretado em lugares de ao menos cinco estados do Norte e Nordeste. A medida implica o fechamento total de atividades não essenciais e o controle da circulação de carros e pessoas por meio de pontos de bloqueios. Quem sair de casa precisa justificar o motivo. Idas ao supermercado e farmácias são permitidas. Já viagens intermunicipais ficaram proibidas. Há multas para quem descumprir as regras.

    Estudiosos da área da saúde criticam, porém, o que chamam de “lockdown à brasileira” por incluir muitas categorias no rol de essenciais, o que limitaria os efeitos. Em Belém, por exemplo, empregadas domésticas foram liberadas para trabalhar. Também há pouco controle de circulação em bairros periféricos, onde a concentração de pessoas em moradias é maior. As medidas adotadas no Brasil têm sido mais leves do que as colocadas em prática por países como a China ou a Itália, por exemplo.

    Em São Paulo, embora o comércio não essencial tenha fechado durante a quarentena, ainda não há bloqueios que controlem a circulação de pessoas, multas a pessoas físicas por descumprimento das medidas nem a proibição de viagens intermunicipais. Isso passaria a valer num possível lockdown.

    As pressões pró-lockdown em São Paulo

    As medidas mais restritivas já são discutidas pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas, com o Ministério Público. Numa reunião realizada na quarta-feira (13), o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, afirmou que o sistema de saúde da capital pode ficar perto do colapso se a disseminação do vírus continuar na mesma velocidade.

    A dificuldade, porém, seria coordenar a medida com todos os 39 municípios da região metropolitana. Apenas a capital responde por 58,3% dos casos do estado, e as demais cidades da Grande São Paulo, por 22,6%. Se São Paulo, sozinha, adotar o lockdown, o efeito não seria o mesmo, segundo Covas.

    “Mesmo com o custo político, se chegar em um momento que os técnicos da saúde recomendem, nós vamos fazer [o lockdown]. Mesmo com a dificuldade de fazer isso de forma isolada. Numa cidade como São Paulo, onde não se vê a divisa entre São Paulo e São Caetano ou São Paulo e Guarulhos, as pessoas moram em uma cidade e trabalham em outra”

    Bruno Covas

    prefeito de São Paulo, em entrevista à GloboNews, em 12 de maio

    Entre a equipe do Ministério Público, porém, não há um consenso sobre a necessidade da medida, devido a sua complexidade e ao seu impacto, segundo relato do jornal Folha de S.Paulo. Maior região metropolitana do país, a Grande São Paulo tem cerca de 21,5 milhões de habitantes. Parte dos prefeitos não concorda com o endurecimento das restrições.

    Na sexta-feira (15), o governador João Doria admitiu estar discutindo a possibilidade de adotar a medida com Covas e que já existe um protocolo definido. “O protocolo existe, está pronto, mas neste momento não será aplicado. Se houver necessidade, aplicaremos e informaremos”, disse em entrevista. Ele afirmou que o governo acompanha diariamente os dados para decidir sobre a necessidade de endurecimento das medidas de isolamento. Doria manteve as quarentenas até 31 de maio.

    A Prefeitura de São Paulo tentou reduzir a circulação de pessoas ampliando o rodízio de carros desde 11 de maio, mas a medida não apresentou os efeitos esperados, e a taxa de isolamento na cidade ficou abaixo dos 50% durante a semana. No domingo (17), Covas anunciou o fim da medida, com o rodízio de automóveis voltando ao modelo normal a partir de segunda-feira (18). A prefeitura também enviou um projeto de lei para a Câmara Municipal prevendo a antecipação de feriados.

    O governo havia traçado como meta o índice entre 55% e 60% para começar a flexibilizar o fechamento do comércio não essencial.

    Em 8 de abril, o PT anunciou que pediria à Justiça que a Grande São Paulo adotasse o lockdown. Segundo vereadores, deputados estaduais e federais do partido, as medidas de isolamento social atualmente em vigor estão funcionando apenas como uma “peneira ao sol”. Eles dizem que o quadro em São Paulo pode ser pior do que o visto em Nova York, e que a cidade americana só se recuperou após um “duríssimo lockdown”.

    A situação dos hospitais

    Na quinta-feira (14), os hospitais públicos da região metropolitana de São Paulo tinham ocupação de 85,5% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e 74,5% nas enfermarias. No mesmo dia, os da rede privada na capital atingiram lotação de 95%, segundo o governo municipal.

    Na quarta-feira (13), dos 20 hospitais municipais de São Paulo, seis chegaram a parar de receber pacientes nas UTIs devido à lotação máxima ou por estarem no limite. O secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, reconheceu que a situação estava “se agravando muito”.

    O governo do estado anunciou na quarta-feira (13) um quarto hospital de campanha na capital. Ele deve ser inaugurado em 20 de maio. Com 200 leitos, sendo 24 deles de UTI, a unidade exclusiva para atendimento de doentes do novo coronavírus está sendo montada em Heliópolis, na zona sul da cidade.

    São Paulo já conta com hospitais de campanha no estádio do Pacaembu, no centro de convenções do Anhembi e no ginásio do Ibirapuera.

    A pressão pela flexibilização

    Ao mesmo tempo em que se discute a necessidade de endurecer medidas de isolamento para conter a doença em São Paulo, há uma pressão para que o governo estadual reabra o comércio não essencial. Durante uma reunião na terça-feira (12), empresários cobraram de João Doria um plano de saída do isolamento.

    Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, as cobranças também são feitas por familiares e amigos do governador. Mesmo assim, de acordo com a publicação, diante do potencial agravamento da crise sanitária ele decidiu manter as quarentenas, e citou como exemplo seu irmão, Raul Doria, dono de uma produtora de cinema, como um dos prejudicados pela crise.

    Em entrevista a um canal americano de TV, o governador disse que vive o “pior momento de sua vida” devido à pandemia e ao crescente número de mortos.

    Adversário político do governador, o presidente Jair Bolsonaro, que trabalha contra a adesão às medidas de isolamento social, cobrou de empresários durante uma videoconferência organizada pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), na quinta-feira (14), que pressionem Doria. Em 11 de maio, o presidente decretou que atividades como salões de beleza e academias seriam consideradas essenciais, uma medida que não foi seguida por Doria e vários outros governadores.

    “Um homem está decidindo o futuro de São Paulo, o futuro da economia do Brasil. Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra. É o Brasil que está em jogo, se continuar o empobrecimento da população daqui a poucos seremos iguais na miséria”, afirmou o presidente.

    Doria rebateu dizendo que Bolsonaro “despreza vidas” e que São Paulo “está lutando” para protegê-las. “Gostaria que o Brasil tivesse um líder que liderasse o combate ao coronavírus, a luta pela vida, o respeito pela ciência, medicina e saúde. Um presidente que fosse solidário, visitando hospitais de campanha, cidades que estão em colapso”, disse.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que o decreto do presidente Jair Bolsonaro que considera salões de beleza e academias como atividades essenciais foi publicado em 11 de abril de 2020. Na verdade, foi em 11 de maio de 2020. A informação foi corrigida às 13h20 de 18 de maio de 2020.

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