Por que os frigoríficos são foco de disseminação do coronavírus

No Rio Grande do Sul, cidades com estabelecimentos do setor estão entre as mais atingidas pelo vírus. Ministério Público do Trabalho investiga empresas em 11 estados 

    Diversos frigoríficos em cidades do interior do Rio Grande do Sul tiveram surtos de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, entre seus empregados. O Ministério Público do Trabalho do estado já iniciou ações contra seis empresas do setor.

    Entre os fatores que explicam o alto grau de contaminação estão as características dos ambientes de trabalho e a localização geográfica. Para o Ministério Público do Trabalho, há também um elemento de negligência dos estabelecimentos que, em muitos casos, não levaram a sério orientações que pediam mais distanciamento entre funcionários e diminuição de aglomerações.

    Escalada de casos

    • Em 24 de abril, o Ministério Público do Trabalho lacrou uma unidade do frigorífico JBS em Passo Fundo, Rio Grande do Sul. O motivo foi a contaminação de 62 funcionários pelo novo coronavírus. Seis pessoas morreram depois de ter contato com esses funcionários.
    • Três dias depois, em 27 de abril, no município de Marau, vizinho a Passo Fundo, o frigorífico BRF anunciou o afastamento de todos os funcionários com mais de 60 anos e gestantes. Em 27 de abril, havia pelo menos 18 trabalhadores da empresa com covid-19.
    • No dia 4 de maio, o Ministério Público do estado solicitou a interdição de dois frigoríficos na cidade de Lajeado (RS), das empresas Minuano e BRF. Cerca de uma semana antes, um funcionário da Minuano havia morrido de covid-19. Alguns dias depois, sua esposa faleceu pelo mesmo motivo.
    • Em 5 de maio, em Garibaldi (RS), uma unidade do frigorífico Nicolini anunciou, mediante acordo com o Ministério Público, a paralisação de suas atividades depois que o número de casos de infecção por covid-19 entre seus trabalhadores subiu de 10 para 60 em apenas 4 dias.

    Fatores que favorecem a propagação em frigoríficos no RS

    Ambientes frios e apertados

    Enquadrados na categoria de serviços essenciais, empresas que processam carne de bovinos, aves e suínos no geral mantêm o funcionamento durante a quarentena. Segundo o Ministério Público do Trabalho, seus ambientes são “propícios” à disseminação do novo coronavírus por serem “ambientes fechados, com baixa taxa de renovação de ar, baixas temperaturas, umidade e com diversos postos de trabalho sem o distanciamento mínimo de segurança (...) além da presença de diversos pontos de aglomeração de trabalhadores”. Há também um constante ruído do maquinário de refrigeração, o que faz com que as pessoas tenham de gritar para serem ouvidas, favorecendo o espalhamento de saliva no ar, uma das formas de disseminação do vírus.

    Mobilidade dos trabalhadores

    No Rio Grande do Sul, uma característica encontrada em diversas empresas do setor, boa parte situada em municípios pequenos e médios, é empregar pessoas de toda a região ao redor. Segundo o presidente da Federação dos Trabalhadores na Alimentação do RS, Paulo Madeira, em declaração à BBC Brasil, cerca de metade da força de trabalho dos frigoríficos no estado se desloca de uma cidade para outra. “Muitos estão levando a doença para suas pequenas cidades”, afirmou Priscila Schvarcz, do Ministério Público do Trabalho, também à BBC Brasil. A procuradora deu o exemplo de Ibirapuitã, onde moram pessoas que são empregadas pela unidade da JBS de Passo Fundo. Com aproximadamente 5 mil habitantes e 15 casos confirmados de covid-19, Ibirapuitã tem uma das maiores taxas de infecção do estado. No caso dos contaminados no frigorífico Natalini, em Garibaldi, parte deles são residentes das cidades de São Leopoldo e São Sebastião do Caí.

    Resposta tardia das empresas

    No fim de março, o Ministério Público do Trabalho gaúcho divulgou recomendações às empresas que incluíam distância mínima de 1,8 metro entre empregados, reorganização dos transportes fretados dos funcionários a fim de evitar aglomerações e monitoramento da gerência para detectar casos e isolar pessoas com suspeita de infecção. Diversas empresas teriam resistido a se enquadrar nas diretrizes. A prefeitura de Passo Fundo afirmou que a JBS desrespeitou “regras sanitárias e epidemiológicas, o que pode colocar em risco a saúde de toda a população”. Entre os problemas, estava a falta de monitoramento de casos e suspeitas por parte da empresa. A JBS teria optado por esconder informações sobre os primeiros casos, de acordo com Paulo Madeira, da Federação dos Trabalhadores na Alimentação do Estado, à BBC. Em notas enviadas à imprensa, as empresas BRF e JBS afirmaram terem tomado medidas que estavam em acordo com especialistas e órgãos de saúde. A JBS negou que houvesse 62 casos em suas instalações e disse que havia 47 infecções confirmadas.

    Um setor sob investigação

    De acordo com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, em boletim epidemiológico divulgado em 5 de maio, foram detectados surtos de covid-19 em pelo menos 12 frigoríficos do estado. No total, são 250 casos confirmados em funcionários do setor e aproximadamente 20 mil trabalhadores expostos.

    As ocorrências nos frigoríficos levaram ao aumento da contaminação pelo vírus nas cidades onde eles se localizam. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, das cinco cidades com mais casos do novo coronavírus no estado, três têm frigoríficos: Marau, Lajeado e Passo Fundo. Mas o risco de transmissão atravessa as fronteiras municipais já que muitos funcionários vivem em outras cidades.

    Em nota distribuída à imprensa, a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) saiu em defesa das empresas, algumas das quais são seus associados. “Antes mesmo do início da adoção da quarentena em vários estados de todo o país, a associação se certificou de que as suas empresas associadas adotaram medidas preventivas necessárias”, declarou. Estas incluiriam ações de vigilância nas unidades e monitoramento da saúde dos empregados.

    A preocupação com a propagação do vírus nos frigoríficos vai além do Rio Grande do Sul. De acordo com o G1, 61 estabelecimentos do setor em 11 estados estão sendo investigados pelo Ministério Público do Trabalho. Pelo menos 17 frigoríficos pelo país apresentaram casos de trabalhadores infectados. O país conta com 446 estabelecimentos do tipo, segundo informações do Ministério da Agricultura.

    Atualmente, há investigações em curso em frigoríficos em Santa Catarina, Tocantins, Paraíba e Mato Grosso do Sul. Em todos os casos, há ocorrências de covid-19 nas unidades de empresas ou nas cidades em que se localizam. Os procuradores querem avaliar condições de higiene e cumprimento de recomendações sanitárias contra a transmissão da covid-19.

    Os casos nos Estados Unidos

    O setor das empresas de carnes dos Estados Unidos também foi severamente atingido por ondas de contaminação do novo coronavírus. Cerca de 20 unidades no país, pertencentes a gigantes do ramo como Cargill, Tyson Foods e JBS, interromperam ou reduziram suas atividades devido à doença.

    Uma unidade no estado de Dakota do Sul da Smithfield Foods, que é considerada a maior produtora de carne de porco do mundo, registrou mais de 600 casos de covid-19. De acordo com o sindicato dos trabalhadores da área, até o fim de abril mais de 5 mil funcionários em todo o país haviam sido expostos à covid-19.

    A capacidade de abate do país chegou a ser afetada em 17%. Diante da perspectiva de desabastecimento, o presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva com base em uma lei da época da Guerra da Coreia, de 1953. Para garantir o fornecimento de alimentos à população, a legislação obriga o funcionamento das empresas consideradas essenciais, como as que produzem alimentos.

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