Ir direto ao conteúdo

Desprezo, fake news e afronta: Elon Musk na pandemia

Bilionário desafia autoridades e reabre fábrica da Tesla após dois meses minimizando a gravidade do novo coronavírus e se posicionando contra a quarentena

    O bilionário Elon Musk, CEO da empresa de automóveis Tesla, tem atraído holofotes em meio à pandemia do novo coronavírus. E não apenas por ter nomeado seu filho recém-nascido, que teve com a cantora Grimes, de X Æ A-12 – o que pode ser impedido pela lei do estado da Califórnia.

    Desde os primeiros avanços do vírus nos EUA, o chefe executivo da fabricante de carros elétricos demonstrou ceticismo e desprezo para com os possíveis riscos relacionados à covid-19, doença que já matou centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Além disso, Musk tem resistido a ordens do poder público que visam a contenção da pandemia, a ponto de desafiar o governo da Califórnia e reabrir a fábrica da Tesla em meio à quarentena.

    O desprezo de Musk pelo coronavírus

    Em 6 de março, alguns dias antes da OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar a situação do novo coronavírus como uma pandemia, Musk se pronunciou nas redes sociais sobre o assunto. Num tuíte de poucas palavras, ele disse que “o pânico do novo coronavírus é estúpido”, contrariando os alertas das autoridades de saúde do mundo. Os EUA tinham, então, 307 casos confirmados e 17 mortes relacionadas à doença.

    Em e-mail enviado em 13 de março a funcionários da SpaceX, sua empresa de exploração espacial, Musk novamente minimizou os riscos ligados à pandemia. Na mensagem, obtida pelo site Buzzfeed News, o empresário disse que a doença não estava entre as principais preocupações da saúde nos EUA, e que “o risco de morrer por covid-19 é muito menor do que o de morrer dirigindo seu carro na volta pra casa”.

    O fechamento da fábrica da Tesla

    Em 16 de março, alguns condados da Califórnia adotaram a quarentena, com fechamento de negócios não-essenciais e orientando pessoas a ficarem em casa. Entre os condados que aderiram às medidas restritivas, estava o de Alameda, onde fica a única fábrica de carros ativa da Tesla nos EUA.

    Musk avisou os funcionários que a empresa continuaria operando normalmente. No dia seguinte, as redes sociais do xerife do condado deixaram clara a posição das autoridades: as atividades da fábrica da Tesla não são essenciais, e devem ser reduzidas ao mínimo possível.

    Apesar da resistência inicial, Musk cedeu às ordens do poder local e anunciou, em 19 de março, o fechamento da fábrica a partir do dia 23 daquele mês. No mesmo dia do anúncio, o governo da Califórnia adotou a quarentena obrigatória em todo o estado.

    O momento da Tesla

    O fechamento da fábrica de carros da Tesla no EUA veio em um momento em que a empresa parecia ganhar força no mercado automotivo. Depois de anos acumulando prejuízos e resultados abaixo do esperado, a empresa registrou lucro de US$ 105 milhões no último trimestre de 2019, alcançando dois períodos consecutivos de ganhos e superando em muito as expectativas do mercado.

    O resultado elevou o valor de mercado da Tesla na bolsa e passou, pela primeira vez, o recado de que a empresa poderia operar em larga escala e ter lucro, como outras montadoras. “2019 foi um ponto de virada para a Tesla”, dizia a primeira frase da apresentação de resultados da empresa.

    Ao mesmo tempo, a companhia havia inaugurado no final de 2019 uma fábrica de carros em Xangai, na China, visando aumentar significativamente a produção anual de veículos elétricos. Havia também planos de acelerar a produção na planta da Califórnia – mas a pandemia e o subsequente fechamento da fábrica interromperam as atividades e a ascensão da empresa.

    A resistência às determinações públicas

    Mesmo após concordar com o fechamento da fábrica da Tesla, Elon Musk continuou criticando publicamente as medidas adotadas pelo poder público da Califórnia. No final de abril, sua campanha se intensificou, com sessões de tuítes pedindo o fim da quarentena.

    Em 29 de abril, Musk fez postagens com mensagens como: “FREE AMERICA NOW” (“LIBERTEM A AMÉRICA AGORA”, em português) e “Give people their freedom back!” (“devolvam a liberdade das pessoas!”, em português). Ao mesmo tempo, ele questionou dados de internações e mortes por coronavírus e compartilhou textos que contrariam a ideia – defendida por autoridades sanitárias do mundo todo – do isolamento social como forma de controlar a pandemia.

    Também em 29 de abril, em ligação para divulgar os resultados da Tesla no primeiro trimestre de 2020 – que foram positivos, superando novamente as expectativas –, Musk fez fortes críticas ao isolamento social e às ordens dos governantes locais. O empresário disse que as medidas eram “antidemocráticas” e “fascistas”, seguindo a linha de manifestantes que vêm pedindo a reabertura da economia apesar dos alertas de cientistas de que isso resultará em mais mortes por covid-19.

    O compartilhamento de informações falsas

    A campanha de Musk para minimizar os riscos do vírus e combater a quarentena também contou com o compartilhamento de informações falsas ou pouco embasadas. Isso começou ainda em meados de março, após a adoção da quarentena no condado de Alameda.

    Em 16 de março, o bilionário usou sua conta no Twitter para promover a cloroquina como medicamento contra a covid-19. Não havia – e ainda não há, até 14 de maio – estudos provando a eficácia da droga contra o novo coronavírus, e há riscos de efeitos colaterais cardíacos graves.

    Três dias depois, Musk postou que crianças são “essencialmente imunes” ao novo coronavírus, o que não é verdade. Ele também previu, sem embasamento, que os novos casos diários da doença nos EUA estariam perto de zero até o final de abril, o que não ocorreu.

    Já em 26 de abril, o empresário compartilhou um vídeo em que dois médicos usavam números e metodologias falhas para concluir que o coronavírus era pouco letal e pedir o fim das medidas isolamento social. O vídeo foi removido pelo YouTube por divulgar informações falsas.

    A reabertura da fábrica

    Em maio, a batalha de Musk passou das postagens em redes sociais para a prática. O empresário decidiu tomar medidas para tentar reabrir a fábrica da Tesla na Califórnia.

    Em 9 de maio, ele abriu processo contra o condado de Alameda, acusando as autoridades de tomar medidas “inconstitucionais”. Ao mesmo tempo, ele ameaçou tirar a sede da Tesla da Califórnia e levá-la para o Texas ou para Nevada, estados americanos onde as restrições às atividades e à circulação na pandemia são menos rigorosas.

    Em resposta, as autoridades do condado disseram que ainda estavam negociando com a Tesla a retomada das atividades da fábrica, preparando um plano com medidas de segurança e saúde para a volta dos funcionários ao trabalho. Mas ainda não havia aval oficial para a fábrica voltar a funcionar.

    Na segunda-feira (11), Musk anunciou no Twitter que a produção de carros na planta estava sendo retomada, mesmo contra as determinações do poder público. Ele ainda pediu que, se as autoridades decidissem intervir e prender pessoas na fábrica, ele fosse o único detido. As autoridades locais reforçaram a ordem de não abertura e disseram que esperavam que as regras fossem cumpridas sem necessidade de medidas coercitivas.

    Na terça-feira (12), o bilionário ganhou apoio do presidente americano Donald Trump para sua causa. No Twitter, o presidente dos EUA saiu em defesa de Musk.

    “A Califórnia deveria deixar a Tesla e Elon Musk abrirem a fábrica, AGORA. Isso pode ser feito rapidamente e com segurança”

    Donald Trump

    presidente dos EUA, em tuíte de 12 de maio de 2020

    Horas depois, o condado de Alameda anunciou em uma nota que recebeu um plano de prevenção e controle da Tesla, e que havia iniciado conversas com a empresa. Na nota, as autoridades do condado afirmaram que concordam em autorizar a Tesla a preparar a retomada das atividades na fábrica a partir do dia 18 de maio.

    Logo após a publicação da nota, Musk postou em suas redes uma foto de um sorvete de chocolate, com a frase: “a vida deve ser vivida”.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.