O que países propõem para retomar eventos culturais

Nações europeias colocam shows, baladas, cinemas e exposições no fim da fila da reabertura. Coreia do Sul teve de retroceder após surto de casos ligado a casas noturnas

    Temas

    Como parte das medidas de flexibilização da quarentena, diversos países europeus traçam estratégias para locais de convívio público como estabelecimentos de entretenimento e eventos culturais. Dos 33 países do continente que passaram por regimes de isolamento social, 28 tinham anunciado medidas de relaxamento até segunda-feira (11).

    A regra geral é que a reabertura será gradativa e cuidadosa, pronta para retroceder ao menor sinal de que a taxa de transmissão do novo coronavírus possa ter voltado a crescer. Os países que anunciaram planos dessa natureza se encontram todos em fase de desaceleração da covid-19, com redução nos números de contaminados e mortos. Em boa parte deles, houve a aplicação do lockdown, a modalidade mais rígida de quarentena em que qualquer movimentação nas ruas considerada não essencial é proibida e sujeita a punição.

    Locais de cultura e entretenimento estão no fim da fila quando se trata de desenhar planos de reabertura. Shows, baladas, bares, festivais, exposições de arte, espetáculos teatrais ou sessões de cinema são, essencialmente, pontos de aglomeração de pessoas.

    Na Alemanha, por exemplo, que vem levantando restrições a atividades desde 20 de abril, jogos esportivos ou festivais de música, que têm potencial de juntar públicos maiores, estão vetados pelo menos até o fim de agosto. Na primeira fase da reabertura alemã, só museus foram contemplados. Ao mesmo tempo, iniciativas oficiais ajudam o setor a continuar respirando. Berlim já repassou quase R$ 10 milhões para dezenas de clubes e bares da cidade.

    No Reino Unido, um plano governamental publicado em maio afirma que espaços internos podem levar muito mais tempo para serem reabertos em comparação a eventos abertos. “É provável que reabrir espaços públicos internos e instalações de lazer (como academias e cinemas), instalações cujo objetivo principal seja a interação social (como baladas), locais que atraem grandes multidões (como estádios esportivos) e estabelecimentos de cuidados pessoais nos quais é inerente um contato próximo (como salões de beleza) só poderão funcionar totalmente bem mais tarde, dependendo da redução no número de infecções”, afirma o documento.

    O impacto da pandemia

    Os negócios da cultura e do entretenimento sofreram um duro golpe com a pandemia devido ao cancelamento ou adiamento de milhares de eventos em inúmeros países. No Brasil, uma estimativa de abril calculou que o prejuízo no setor pode ficar em torno de R$ 100 bilhões.

    Uma estimativa recorrente é de que eventos maiores só poderão voltar a acontecer em 2021. Grandes festivais de música europeus como Roskilde (Dinamarca), Primavera Sound (Espanha) e Glastonbury (Reino Unido) tiveram suas edições de 2020 canceladas.

    Em paralelo, aparecem soluções criativas. Na Dinamarca, em 24 de abril, o músico Mads Langer realizou um show “drive-in”, a exemplo dos cinemas ao ar livre onde o público assiste à atração de dentro do carro. Langer tocou para 500 automóveis. Em seguida, a Alemanha teve uma rave drive-in, chamada “Autodisco”. Nos EUA, o músico Marc Rebillet anunciou uma turnê de shows drive-in.

    A reabertura espanhola

    Na Espanha, um dos países com o maior número de mortos pela doença no mundo, medidas de abrandamento do confinamento começaram a ser anunciadas em 25 de abril.

    O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez, elencou propostas para as semanas seguintes, a serem adotadas de acordo com particularidades de cada região. Uma delas é a permissão para crianças saírem de casa pela primeira vez desde 14 de março para uma hora de atividade externa por dia, acompanhadas por um adulto, em um raio de um quilômetro da residência.

    “Nós não iremos recobrar a atividade repentinamente em todos os setores. O relaxamento tem de ser gradual e assimétrico. Não iremos avançar na mesma velocidade, mas iremos seguir as mesmas regras”

    Pedro Sanchez

    primeiro-ministro da Espanha

    Em 11 de maio, o país registrou 123 mortes em 24 horas, um dos menores totais diários. O recorde foi 950 mortes em um único dia, em 2 de abril.

    Na segunda-feira (11), teve início em metade do país um programa de três fases que prevê a retomada de diversas atividades, incluindo a reabertura de estabelecimentos de lazer e cultura. Na primeira fase, bares e restaurantes poderão funcionar com 50% da capacidade de público. Eventos realizados em espaços internos poderão ter no máximo 30 pessoas; abertos, no máximo 200. Todos terão de seguir diretrizes de distanciamento, como assentos pré-marcados e espaçamento.

    A fase seguinte começará em 26 de maio, data sujeita a mudanças. Cinemas, teatros, galerias de arte e museus poderão voltar a funcionar com público reduzido. Já os eventos poderão ampliar o atendimento para 50 pessoas (internos) e 400 (externos). Na terceira fase, programada para 10 de junho, o número subirá para 80 e 800 para eventos dentro e fora, respectivamente. Todos terão que contar com assentos numerados pré-marcados.

    No entanto, em reportagem do site Resident Advisor, as propostas foram criticadas por coletivos artísticos e profissionais de casas noturnas no país. Para muitos, embora a novidade seja “uma luz no fim do túnel”, muitos afirmam que ainda não é economicamente sustentável reabrir com público menor.

    A estratégia da Irlanda

    A Irlanda destacou festivais de música em um plano governamental de reabertura. Com 23 páginas, o documento detalha cinco fases do relaxamento, começando em 18 de maio. A última fase, marcada para 10 de agosto, contempla a possibilidade de “festivais, eventos e outros encontros sociais de massa onde o distanciamento social pode ser seguido”.

    Além disso, locais de entretenimento em áreas internas, como boliches, pubs e casas noturnas, poderão reabrir apenas se puderem seguir diretrizes rigorosas de afastamento entre pessoas e limpeza.

    Segundo o plano, qualquer uma das fases pode ser revogada com a “potencial reintrodução de medidas se ocorrer um aumento da doença”.

    As baladas na Ásia

    Casas noturnas começaram a reabrir na China, primeiro epicentro mundial da doença, ainda em março. No dia 12 daquele mês, o governo chinês afirmou que novos casos da covid-19 haviam diminuído o bastante no país para que se pudesse declarar o fim do surto.

    Em Chengdu, Shanghai e Shenzhen, baladas voltaram a funcionar, mas com cuidados especiais. Pistas de dança são limpas e desinfetadas com frequência, e visitantes têm de usar máscaras o tempo todo.

    Além disso, os estabelecimentos têm de tirar a temperatura de quem entra, assim como ter um código QR no celular escaneado. Essa informação é confrontada com uma base de dados que informa se o cidadão está aprovado (verde), potencialmente infectado (amarelo) ou comprovadamente contaminado (vermelho). Com a retomada, o desafio agora é conseguir convencer o público a sair. Diversos locais vêm reportando um baixo número de frequentadores.

    Na Coreia do Sul, país visto como modelo na contenção do vírus, um novo surto foi identificado entre pessoas que frequentam um circuito de bares e baladas LGBTI na capital do país, Seul. As autoridades procuram, com dificuldades, milhares de pessoas que podem ter se contaminado depois que pelo menos 100 novos casos foram ligados à região. As medidas de rastreamento que ajudaram a Coreia a controlar o surto da doença, no entanto, se mostraram desafiadoras por causa do estigma associado à homossexualidade no país.

    No total, o governo coreano registrou 35 casos novos entre domingo (10) e segunda-feira (11), o número mais alto em um mês. Casas noturnas vinham reabrindo no país desde 6 de maio, com público reduzido e uma política de proibir entrada de pessoas sem máscara. Com o novo surto, todos os clubes de Seul foram fechados outra vez.

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