Como a Índia conduz o maior desconfinamento do mundo

Mais de 1,3 bilhão de indianos passaram 50 dias em quarentena, fazendo baixar a curva de contaminação. Agora, a pressão econômica faz o governo relaxar as medidas

    O governo da Índia autorizou o funcionamento de parte de seu gigantesco sistema ferroviário a partir de quarta-feira (13). Com o levantamento das restrições, os trens voltaram a irrigar a vida econômica de um país no qual 1,3 bilhão de pessoas passaram 50 dias confinadas em casa.

    A quarentena da Índia foi a maior do mundo. Nenhum outro país tão populoso manteve em vigor um confinamento nacional com regras tão rígidas por tanto tempo na pandemia do novo coronavírus.

    8,6 bilhões

    é o número de passageiros transportados por ano nas ferrovias indianas

    Desde o início desse período excepcional, em 24 de março, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, avisou que a estratégia era pesada e seria cumprida à risca: “A única maneira de nos salvarmos do coronavírus é não sairmos de casa. Aconteça o que acontecer, fiquem em casa. Todo distrito, toda rua, toda aldeia ficará em quarentena.”

    O país encontra-se hoje na terceira fase de um desconfinamento gradual, com parte do comércio e dos transportes reabrindo. A quarta fase deve ser detalhada pelo governo na segunda-feira (18), acompanhada de um número maior de testes e políticas dirigidas especificamente para pessoas e regiões mais contaminadas, permitindo uma circulação mais fluida do restante da população.

    Passados 50 dias, os números da saúde mostram que a estratégia teve sucesso em frear a curva de propagação da doença. Ao mesmo tempo, os dados da economia mostram que o país precisará de muito tempo e esforço para repor suas perdas.

    Até quarta-feira (13) – quando linhas de trens que servem a pelo menos 20 milhões de passageiros por dia, o que equivale a 10% de toda a população do Brasil, voltaram a operar – a Índia somava 70 mil casos detectados da covid-19 em seu território, com 2.300 mortos. Mesmo que haja subnotificação – e há um grande debate a esse respeito no país –, os números são irrisórios se considerada a população de 1,3 bilhão de habitantes.

    O custo econômico do confinamento, por outro lado, é pesado. A quarentena, que era prevista para durar três semanas, foi prorrogada três vezes, sufocando desde pequenos comerciantes, agricultores e prestadores de serviço, até grandes indústrias e companhias aéreas.

    O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) indiano, que em 2019 foi de 4,2%, está previsto para ficar em 1,9% em 2020, segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional). A projeção é ruim, mas ainda assim melhor que a do Brasil, onde mesmo sem uma política nacional de confinamento, a projeção é de um encolhimento do PIB de 5,3%. O Brasil também tem um número de mortos cinco vezes maior que o da Índia, mesmo tendo uma população seis vezes menor.

    O peso do nacionalismo de Modi

    O premiê Modi é um nacionalista conservador que se orgulha da afinidade com líderes como o americano Donald Trump e o presidente Jair Bolsonaro. Porém, ao contrário de seus pares, não hesitou em apostar tudo na recomendação recebida dos cientistas de decretar quarentena rigorosa para achatar a curva da doença, e nem em usar o peso do Estado para reerguer a economia na sequência.

    Na terça-feira (12), Modi foi à TV anunciar um pacote de mais de US$ 260 bilhões para tentar amenizar o estrago da queda econômica que o país está vivendo. O valor equivale a 10% do PIB da Índia, e deve chegar tanto a pequenos produtores e comerciantes quanto às maiores companhias do país.

    Em seu discurso, Modi evocou a campanha de boicote aos produtos britânicos durante os períodos colonial (1858-1947) e pós-colonial para animar uma estratégia de valorização da indústria nacional. “O caminho à frente é local: produção local, mercados locais, cadeia de suprimento local. O local não é apenas uma necessidade, mas uma responsabilidade”, disse o primeiro-ministro na TV.

    O anúncio do descongelamento progressivo da quarentena colocou milhares de indianos de volta aos trilhos, literalmente. No primeiro dia de funcionamento das linhas férreas, milhares de trabalhadores percorreram quilômetros a pé para conseguir acesso às estações e comprar bilhetes.

    O movimento foi reverso ao registrado no início da quarentena, em março, quando muitos correram para o interior, em busca de suporte familiar, diante da iminência do fechamento da indústria e do comércio.

    O governo Modi sabe que, sem remédio e sem vacina à vista, o fim da crise sanitária e econômica provocada pelo novo coronavírus ainda não aparece no horizonte. Por isso, é preciso tomar decisões mesmo no campo das incertezas.

    “Todos os especialistas estão a nos dizer que o coronavírus será parte de nossas vidas por um longo período, mas nós não podemos permitir que nossas vidas fiquem girando em torno do corona, corona, corona”, disse o premiê em seu pronunciamento, prometendo novas diretrizes sobre o desconfinamento em breve, e recomendando que os cidadãos usem máscaras e mantenham o distanciamento social.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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