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A trajetória de Roberto Jefferson, o novo aliado de Bolsonaro

Presidente do PTB, partido do centrão, ele ganhou destaque no governo Collor, revelou o mensalão do governo Lula e acabou condenado por corrupção. Hoje, reproduz o discurso armamentista presidencial e ataca o Supremo

    Jair Bolsonaro tem um novo aliado. Um aliado de arma na mão. Trata-se de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, partido que integra o chamado centrão, grupo de parlamentares que se unem para aumentar seu poder de pressão sobre o presidente da República e angariar, em troca de seu apoio, cargos no governo e liberação de emendas.

    Ao passar a apoiar publicamente Bolsonaro, Jefferson repete uma marca de sua trajetória política, que é a adesão ao governo em curso. No Brasil de 2020, ele surge como um dirigente partidário disposto a ajudar o presidente da República a formar uma base mínima no Congresso capaz de aprovar projetos e barrar eventuais avanços de pedidos de impeachment.

    A adesão inclui exaltação de armas e ataque a outros Poderes, temas recorrentes no discurso bolsonarista. Em suas redes sociais, Jefferson já defendeu que o presidente “demita” os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal — algo só possível por meio de um golpe e fez críticas à imprensa. Em 9 de maio, publicou uma foto portando um fuzil e dizendo estar “preparando para combater o bom combate”.

    Abaixo, o Nexo relembra a trajetória do presidente do PTB, da sua atuação no período da redemocratização, passando pelos governos Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, até sua prisão por corrupção no esquema do mensalão.

    A TV como impulso para a política

    Em 1971, Roberto Jefferson filiou-se à ala jovem do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido de oposição ao regime militar instaurado no Brasil a partir do golpe de 1964. Em 1979, graduou-se em direito pela Universidade Estácio de Sá.

    Na época, deixou o PMDB (já com o “p” de partido no nome), teve uma rápida passagem pelo PDS, formado por políticos da antiga Arena, que dava sustentação à ditadura, e finalmente se filiou ao PTB, Partido Trabalhista Brasileiro, em 1980.

    Jefferson ganhou notoriedade ao participar do programa O povo na TV, na antiga TVS, hoje SBT, entre 1979 e 1982, como advogado de pessoas carentes e desassistidas. Era um programa de abrangência nacional, com casos polêmicos, fofocas do meio artístico e queixas de consumidores mal atendidos.

    O sucesso na televisão impulsionou sua primeira candidatura para deputado constituinte, em 1983. Após a primeira candidatura, foram seis mandatos consecutivos pelo estado Rio de Janeiro, até ser cassado em 2005.

    A tropa de choque de Collor

    Jefferson foi um dos principais aliados de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito por voto direto após o fim da ditadura (1964-1985). Deu apoio ao então presidente durante a CPI que investigava o presidente e suas ligações com o esquema do ex-tesoureiro de campanha Paulo César Farias, o PC.

    As primeiras denúncias contra o governo começaram poucos meses após o início do mandato de Collor, em 1990, mas eram direcionadas apenas a funcionários do segundo escalão. Em maio de 1992, as acusações chegaram diretamente ao presidente, após uma entrevista de Pedro Collor, irmão do presidente, à revista Veja.

    Na CPI na Câmara, Jefferson integrava a chamada tropa de choque de Collor, formada por deputados defensores do presidente. O discurso era de que Collor era perseguido pelos que haviam sido derrotados nas eleições de 1989.

    Em julho de 1992, Jefferson encaminhou representação ao então procurador-geral da República, Aristides Junqueira, acusando a CPI de ter obtido de forma ilegal os documentos decorrentes da quebra de sigilo bancário dos envolvidos no caso.

    Confirmando sua fidelidade à Collor, na sessão da Câmara dos Deputados de 29 de setembro de 1992, Jefferson foi um dos 38 parlamentares que se opuseram à abertura do processo de impeachment.

    Afastado da chefia do Executivo após a votação da Câmara, Collor acabou renunciando ao mandato em 29 de dezembro seguinte, horas antes de ser cassado pelo Senado.

    A proximidade com o governo FHC

    Jefferson apoiou boa parte das propostas lideradas pelo governo Fernando Henrique entre 1995 e 2002. Já no primeiro ano, acompanhou as orientações da base parlamentar governista em votações na Câmara sobre o fim do monopólio estatal das empresas de telecomunicações e da extração, refino e transporte do petróleo e gás natural da Petrobras.

    Em fevereiro de 1997, foi um dos 386 deputados que votaram favoravelmente à emenda que instituiu a reeleição no país. A medida, sancionada por Fernando Henrique, permitiu que o presidente e governadores pudessem concorrer a um mandato consecutivo já no ano seguinte (a nova regra também passou a valer para prefeitos).

    Posteriormente, denúncias de compra de votos de parlamentares para votar a reeleição vieram à tona, mas nada foi comprovado. Jefferson também votou favoravelmente à reforma da Previdência de FHC, em 1998.

    A relação com o PSDB começou a ruir em 2000, quando o PTB rompeu com o governo, insatisfeito com a falta de cargos no governo. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo da época, o partido tinha interesse no ministério da Agricultura, mas não foi atendido. O rompimento com o PSDB acelerou o apoio a Ciro Gomes nas eleições de 2002.

    A guinada lulista e o mensalão

    A aproximação com Luiz Inácio Lula da Silva começou ainda em dezembro de 2002, antes da posse do petista. Jefferson, eleito para mais um mandato, disse que seu partido confiava cegamenteem Lula. “Somos diferentes do PT. E é essa diferença que nos tornará unidos, com muito afeto”, o então deputado.

    O apoio irrestrito se confirmou na formação do primeiro ministério petista, quando dois políticos ligados ao PTB, o deputado Walfrido Mares Guia (MG) e o senador Carlos Wilson (PE) ficaram com o Ministério do Turismo e a presidência da Infraero, respectivamente.

    No primeiro semestre do governo, o PTB engordou sua bancada na Câmara em função de trocas partidárias. Em muitos momentos, Jefferson, um político conservador, precisou justificar sua aproximação com o PT. Em julho de 2004, já como presidente nacional do PTB, disse que o partido de Lula tinha mudado.

    A relação entre Jefferson e a cúpula petista começou a se deteriorar em setembro de 2004, quando o PSDB, principal partido da oposição, acionou a Procuradoria-Geral da República para averiguar supostas acusações de que o PT teria pagado 10 milhões de reais ao PTB em troca de apoio em eleições municipais e estaduais. Um mês depois, Jefferson pediu a Lula e a José Dirceu, então ministro chefe da Casa Civil, mais um ministério, mas não foi atendido.

    Em março de 2005, Jefferson disse que “a relação com o governo estava desgastada. A insatisfação naquele momento se dava pelo não cumprimento de promessas do Palácio do Planalto em cargos no Instituto de Resseguros do Brasil. “Não posso ficar avalizando o governo na bancada em torno de acordos que não são cumpridos”, disse Jefferson.

    Em maio de 2005, quando a revista Veja publicou reportagem mostrando um esquema de corrupção dentro dos Correios, com benefícios em licitações mediante pagamento de propina, Roberto Jefferson foi apontado como “homem-chave do PTB no esquema.

    Acuado e se sentindo traído pelo governo por não ser defendido das acusações, o então deputado concedeu entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em agosto de 2005, na qual revelou o esquema do mensalão: pagamentos sistemáticos do PT a parlamentares aliados em troca de apoio no Congresso.

    Dirceu caiu da Casa Civil e teve o mandato de deputado cassado pela Câmara. Jefferson também perdeu o mandato. Já em 2012, tanto a cúpula petista quanto o próprio petebista viriam a ser condenados pelo Supremo em razão do escândalo. Jefferson e outros envolvidos no mensalão passaram então a cumprir suas penas.

    Mesmo com o mensalão, Lula foi reeleito em 2006, um ano após o escândalo vir à tona, e conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Foi um período em que Jefferson submergiu, num momento em que cumpria sua pena pelo mensalão, inicialmente em regime semiaberto.

    O vaivém no apoio a Dilma

    Nas eleições de 2010, o PTB apoiou José Serra, candidato tucano à Presidência. Quando Dilma foi eleita, no entanto, deputados do PTB passaram a votar favoravelmente as propostas petistas, além de ocuparem cargos em estatais da Caixa Econômica Federal.

    A parceria, no entanto, não se sustentou para a reeleição de Dilma, em 2014. O PTB apoiou Aécio Neves (PSDB), candidato posteriormente derrotado.

    Apesar de não apoiar Dilma, o PTB de Jefferson acabou ficando com o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, após nomeação de Armando Monteiro, em janeiro de 2015. Em agosto do mesmo ano, o partido decidiu deixar a base do governo alegando postura de independência em relação ao mandato petista.

    Roberto Jefferson recebeu indulto de sua pena do mensalão em abril de 2016. Junto com a liberdade, foi reconduzido à presidência nacional do PTB. Ao jornal O Globo, afirmou que o partido era a favor do impeachment de Dilma. O rompimento com o PT estava consolidado.

    Jefferson viria a reaparecer na cena política após a queda de Dilma no impeachment por manobras fiscais de 2016.

    A aproximação com Temer

    Vice de Dilma, Michel Temer assumiu o comando do Brasil. Em janeiro de 2018, Jefferson conseguiu emplacar sua filha Cristiane Brasil no ministério do Trabalho do governo.

    A nomeação, no entanto, foi barrada pelo Supremo, que atendeu à decisão de um juiz da 4ª Vara Federal de Niterói. O argumento era de que Cristiane havia sido condenada num processo de direito trabalhista movido por um ex-motorista, portanto não poderia assumir o cargo. Temer anulou a nomeação no dia 23 de fevereiro.

    Mesmo após os problemas com a nomeação de Cristiane Brasil, Jefferson manteve o apoio do PTB ao governo de Temer.

    Bolsonaro e o centrão na crise

    Nas eleições, de 2018, Jefferson apoiou Geraldo Alckmin (PSDB) no 1º turno e Jair Bolsonaro no 2º turno. Durante a campanha, o presidente do PTB disse que as propostas do ex-capitão reformado colocariam o Brasil de volta aos trilhos do desenvolvimento social e econômico".

    Assim como outros partidos do centrão que foram criticados por Bolsonaro desde a campanha, como PP, PRB, PSC e PSD, o PTB tem apoiado votações que interessam ao governo, como a reforma da Previdência.

    Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo do dia 6 de maio mostrou que líderes do PP, PL e Republicanos estão gerenciando a distribuição de cargos do governo para atrair outros partidos na composição da base aliada de Bolsonaro na Câmara. O PTB de Jefferson negocia com o governo a recriação do ministério do Trabalho a fim de ocupá-lo.

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