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O avanço acelerado da covid-19 no interior do Rio e de São Paulo

Doença se alastra com rapidez para cidades menores em que há pouca capacidade hospitalar 

    Depois de atingir principalmente as regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, a covid-19 avança por todo o interior dos dois estados. Essa interiorização da doença é um fenômeno observado em todo o país – mais de mil cidades já tiveram mortes pela doença até terça-feira (12) —, mas os dois estados do Sudeste registram níveis alarmantes de propagação. O avanço preocupa pela baixa capacidade hospitalar de cidades menores.

    Em São Paulo, até meio de março, havia casos do vírus apenas na região metropolitana da capital. Em menos de 45 dias, ele avançou para todas as regiões do estado, de acordo com levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo. Entre 3 de abril e 1º de maio, o número de infectados no interior cresceu 2.532%. Nos primeiros 11 dias de maio, subiu 99%, segundo o governo estadual.

    Já no Rio de Janeiro, a comissão de especialistas que assessora o governo do estado para questões de covid-19 pediu que seja realizado o lockdown, modalidade rígida de quarentena, em todo o estado. A medida também é defendida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). “Teremos que nos preparar para um período muito longo de crise humanitária”, afirmou o vice-presidente da Fiocruz, Valcler Rangel, em entrevista à Globo News.

    62%

    porcentagem dos municípios de São Paulo com ocorrências de covid-19 em 11 de maio

    93,5%

    porcentagem dos municípios do Rio de Janeiro com ocorrências de covid-19 em 11 de maio

    Na terça-feira (12), o estado de São Paulo registrou quase 48 mil casos e mais de 3.900 mortes confirmadas por coronavírus. Cerca de 10 mil pessoas estão hospitalizadas com suspeita ou confirmação de covid-19.

    A expectativa do governo estadual é de que a doença alcance todos os municípios paulistas até o fim de maio. Segundo as autoridades do estado, as regiões de Campinas e Baixada Santista apresentam os piores índices de aceleração dos casos.

    “Não existe nenhuma região protegida neste momento, a onda epidêmica está se distribuindo por todos os municípios do estado”

    Dimas Covas

    diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, em 7 de maio

    Na Baixada Santista, região que compreende municípios litorâneos como Santos e Guarujá, o crescimento no número de casos foi de 272% desde março. Segundo declarou o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, ao G1, a região também registrou queda na taxa de isolamento social e tem uma população acima de 60 anos maior que a média estadual.

    No interior do Rio, a cidade que tem mais casos é Volta Redonda, com 399 infecções confirmadas e 16 mortes, o mesmo número de óbitos registrado em Petrópolis, onde há 152 casos confirmados.

    Segundo dados da Fiocruz, em 20 de março, todas as cidades do estado do Rio com mais de 500 mil habitantes tinham ocorrências do novo coronavírus. Em 4 de maio, a doença já estava presente em todas as cidades com mais de 50 mil habitantes. Atualmente, apenas seis municípios do estado do Rio não apresentaram casos da covid-19.

    O Brasil todo contabilizava, até terça-feira (12), mais de 177 mil casos confirmados da doença e 12.400 mortes.

    As medidas adotadas em São Paulo

    Em 8 de maio, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), prorrogou a quarentena em todo o estado até o dia 31 do mesmo mês. Um dia antes, havia sido decretada a obrigatoriedade do uso de máscara nas ruas, em estabelecimentos comerciais e repartições públicas.

    Em vigor desde 24 de março, a quarentena paulista permite o funcionamento apenas de serviços e comércio essenciais (como saúde, alimentação, segurança e transporte). As atividades não essenciais que têm contato com o público, como lazer, entretenimento e serviços, não podem operar.

    “Não há lockdown previsto neste momento, mas ele não está excluído. Se houver necessidade de endurecimento de medidas, não hesitaremos em adotar”, declarou Doria à imprensa, na segunda-feira (11), em referência à modalidade mais severa de quarentena.

    Segundo projeções feitas a partir de um modelo matemático desenvolvido na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o lockdown vai se tornar necessário no estado se não houver aumento dos níveis de isolamento social. Pela taxa de contágio registrada no estado entre 10 de abril e 10 de maio, cada 100 infectados transmitem para 150 pessoas. Com base nesse cenário, o levantamento estimou uma média de mais de 53,5 mil casos novos diários até 30 de junho, o que poderia levar ao colapso o sistema público de diversas regiões, incluindo a Região Metropolitana de São Paulo.

    De acordo com o Sistema de Monitoramento Inteligente (Simi), que monitora 104 municípios com mais de 70 mil habitantes, no domingo (10), o isolamento social do estado foi de 53%. Embora próximo do índice médio desejado pelas autoridades estaduais, de 55%, foi o pior índice desde o começo da quarentena para um domingo. Na segunda-feira, ele foi de 48%. Em março e abril, chegou a 59% por várias semanas.

    O índice sempre varia de cidade para cidade. No domingo, os três municípios com melhores taxas eram São Sebastião (68%), Ubatuba (67%) e Bebedouro (65%).

    Em reunião com prefeitos das principais cidades do estado, Doria pediu que o isolamento social fosse mantido em seus municípios. A solicitação frustrou alguns dos líderes municipais que defendem o relaxamento da quarentena em suas cidades, como Felicio Ramuth (PSDB), de São José dos Campos.

    De acordo com o “Plano São Paulo”, roteiro de reabertura e retomada das atividades no estado depois da quarentena, será usado um sistema de classificação das regiões de acordo com sua situação. Serão três categorias: verde, amarelo e vermelho, baseadas em critérios como taxa de ocupação em leitos da UTI e quantidade de novos casos de covid-19.

    O isolamento no estado do Rio

    Na segunda-feira (11), o Rio de Janeiro teve sua quarentena oficial prorrogada até 31 de maio. O regime veda o funcionamento de atividades não-essenciais, incluindo obras não emergenciais em imóveis residenciais.

    O governador Wilson Witzel (PSC) deixou a critério de autoridades locais a adoção de medidas mais rígidas. “O decreto recomenda que prefeitos do estado realizem em seus municípios alguma forma de lockdown, como medida de isolamento social, com o objetivo de evitar a proliferação da doença. As forças de segurança pública do estado auxiliarão as ações das prefeituras”, afirmou o texto da decisão.

    A decisão é criticada. “O coronavírus segue as redes de conexão entre as cidades. As cidades não existem de forma isolada. Mesmo o lockdown não pode ocorrer com decisões unilaterais. As prefeituras precisam fazer isso de forma conjunta, com coordenação dos governos estadual e federal”, disse ao jornal Extra o epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde, da Fiocruz.

    Diante da pressão dos especialistas, Witzel pode mudar a estratégia. O governador vem conversando com juristas sobre a proposta de efetuar o lockdown estadual, segundo disse ao O Globo o epidemiologista Roberto Medronho, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que integra um comitê sobre covid-19 que auxilia o governo do estado.

    “O fato [de Witzel] estar avaliando com juristas é uma boa notícia, porque há algum tempo atrás ele teria descartado imediatamente o lockdown. Ele analisa se há segurança para decretar ou não”, disse o médico.

    Poucos leitos

    Um dos maiores impactos do aumento da covid-19 em cidades do interior é a sobrecarga nos sistemas de saúde de municípios menores, geralmente insuficientes para aguentar um aumento expressivo de demanda. Um dos reflexos dessa situação é o envio de pacientes para hospitais em cidades maiores, por sua vez também cada vez mais cheios.

    Em 8 de maio, a taxa de ocupação das UTIs do estado de São Paulo era de 70,5%. Um dia antes, era de 66,9%. Na Grande São Paulo, esta taxa foi de quase 90% em ambos os dias. Na mesma semana, um novo recorde negativo para o estado: em um único dia foram internadas 1.000 pessoas com a doença.

    “Se essa proporção continuar ou até crescer, que é o que parece que vai acontecer, nós estaremos em uma fase extremamente complicada. Todas as cidades têm plano de contingenciamento, mas muitas não estão preparadas. Muitos municípios não têm leito de UTI.”

    Geraldo Reple

    presidente do Conselho dos Secretários Municipais da Saúde de São Paulo, ao jornal O Estado de S. Paulo

    Em algumas cidades, a ocupação é mais alta. É o caso de Campinas, com índice de preenchimento dos leitos de UTI do SUS (Sistema Único de Saúde) de 80%, segundo dados da prefeitura da cidade divulgados na segunda-feira (11). Já na rede privada, a ocupação é de mais de 60%. Um hospital de campanha com mais 36 leitos deve ser inaugurado em breve.

    Diversos hospitais de referência do interior estão chegando ao limite da capacidade. Em Botucatu, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu chegou a 100% da ocupação de leitos destinados à covid-19 no dia 5 de maio. A unidade atende 68 municípios na região central do estado. Perto disso estava na mesma data o Hospital Estadual Adib Jatene, com 95% de ocupação. O hospital é referência para 32 cidades da região.

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