Como a pandemia expandiu nosso vocabulário

Com a chegada do novo coronavírus, termos que não eram habituais anteriormente se tornaram parte do cotidiano

    “Isolamento social”, “achatar a curva” e “quarentena”. Com certeza você leu ou usou esses termos mais de uma vez nestes primeiros meses do ano de 2020. Há até termos em inglês, como “lockdown”, que passaram a fazer parte do cotidiano dos brasileiros.

    A pandemia do novo coronavírus, decretada em 11 de março pela Organização Mundial da Saúde – e a enxurrada de informações decorrente dela –Sars-CoV-2, expandiu nosso vocabulário no dia a dia.

    Até o início de março, as buscas pelo termo “isolamento social” eram quase nulas no Google. Depois, subiram em uma curva quase vertical, que segue em ascensão, segundo dados do Trends, ferramenta que analisa as buscas feitas na plataforma.

    A tendência crescente também é notada nas pesquisas pelos termos “quarentena” (isolamento social por determinado período), “lockdown” (isolamento social radical ou confinamento), “N95” (máscara especial que conta com filtro de ar) e “Sars-CoV-2 (nome científico do novo coronavírus).

    Os mecanismos da ampliação de vocabulário

    Situações novas pedem palavras novas, que podem surgir a partir da criação efetiva de termos que não existiam antes ou, o que é mais comum, a partir da adaptação de expressões existentes para o contexto necessário.

    “A língua vive de reciclar sentidos”, disse ao Nexo Mahayana Godoy, linguista e professora de linguística da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ela ilustrou esse processo usando a palavra “rival”.

    “Hoje em dia essa palavra tem um sentido muito claro, mas ‘rival’ vem de uma palavra em latim, ‘rivalis’, que significava simplesmente quem morava do outro lado do rio. Por meio de um processo de metáfora, essa palavra passou a significar ‘opositor’ ou ‘oponente’”, exemplificou.

    De acordo com a linguista, diante de uma realidade nova, a reinterpretação de palavras já existentes ou a importação de termos de outras línguas são formas de descrevê-la.

    Segundo Godoy, o uso de termos vindos do inglês, como “lockdown” ou a expressão “testou positivo” (cuja construção não é tradicional no português) não prejudica a língua e não causa, necessariamente, uma dificuldade na compreensão da mensagem transmitida.

    “Eu posso falar português e não ser compreendida. Isso é muito comum, um ruído na comunicação mesmo quando eu não estou usando neologismos”, disse, citando como exemplo o ex-presidente Michel Temer, que, em seus pronunciamentos, usava mesóclises, colocações pronominais que existem na norma culta, mas que não são comuns no dia a dia, causando estranhamentos.

    Falando sobre o termo “lockdown”, Godoy afirma que uma tradução, como “confinamento”, poderia não ser tão clara quando inserida no contexto da pandemia.

    “A pessoa conhece o confinamento, mas o que é o confinamento na frase ‘o prefeito de São Paulo decretou o confinamento’. Nesse caso a palavra precisa vir acompanhada de uma definição do que é esse confinamento”, disse.

    Para a linguista, a maior fonte de confusão nesse caso não é a palavra que é usada, mas sim a dissonância nos discursos das autoridades sobre os procedimentos que a população deve adotar.

    “Você pode chamar de ‘lockdown’, de ‘confinamento’, de ‘quarentena’, do que você quiser. Enquanto não houver uma determinada série de regras que as pessoas devem seguir, cada um vai interpretar de uma maneira. A confusão não está na palavra, mas na falta de clareza do que se espera das pessoas nessa situação, especialmente quando há representantes do Executivo dizendo que tudo isso é uma besteira”, afirmou.

    Godoy vê o uso de “lockdown” nas conversas cotidianas como uma prova de que o termo fez sentido para as pessoas, já que não se trata de um confinamento comum, como o do Big Brother Brasil, e sim algo específico para o contexto da pandemia.

    Há, porém, quem se oponha à invasão dos neologismos na língua portuguesa, mesmo quando fazem sentido dentro do contexto da fala e são compreendidos pelas pessoas. É o caso do professor de língua portuguesa Pasquale Cipro Neto.

    “Não é possível que não tenhamos outro modo de entregar coisas em casa que não seja o 'delivery'. Outra palavra que de repente ficou indispensável é o ‘home office’, quando os portugueses, que adaptam muito, já usam o teletrabalho”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo no dia 1º de maio.

    Segundo o professor Pasquale, alguns dos termos estrangeiros são impostos. “Isso é muito chato, quando o gerente do banco fala comigo que tem um ‘call’, que ‘call’?”

    A ampliação de vocabulário em outras crises

    Não é a primeira vez que uma crise traz a adição de novas palavras e termos para o vocabulário popular. “Radar”, sigla em inglês para radio detection and ranging (detecção e telemetria por rádio), chegou ao cotidiano só na reta final da primeira metade do século 20, durante a 2ª Guerra Mundial, período em que o uso de radares se intensificou.

    Hoje em dia, a palavra radar não só mais se refere à tecnologia em si, mas também é usada para designar o campo de atenção de determinado indivíduo, empresa ou setor.

    A palavra “aids”, usada para se referir à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida causada pelo vírus HIV, surgiu em 1981 e se tornou o termo mais associado às doenças sexualmente transmissíveis.

    O mesmo aconteceu com “Brexit”, junção das palavras “british” (britânica) e “exit” (saída”), termo que designa a saída do Reino Unido da União Europeia, votada em 2016 e iniciada em janeiro de 2020.

    Com a pandemia do novo coronavírus não é diferente. Mesmo quando a situação tiver sido resolvida, é provável que termos como “lockdown” e “isolamento social” continuem presentes no vocabulário cotidiano, sendo evocados sempre que houver uma crise sanitária ou uma conversa que trate do assunto.

    A covid-19 nos dicionários

    Com a pandemia, o termo covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, foi registrada em dicionários do mundo todo.

    Na língua portuguesa, o verbete já está presente em dicionários como o Houaiss e o Priberam. Na língua inglesa, o Merriam-Webster, o dicionário de Cambridge e o de Oxford já trazem a doença. O mesmo aconteceu no francês Larousse.

    O dicionário americano Merriam-Webster mantém no ar um texto que explica como novas palavras são incorporadas à lista de verbetes.

    Segundo o artigo, parte dos editores passa o dia lendo jornais, redes sociais e revistas em busca de mudanças na linguagem. Um outro time checa revistas científicas, boletins médicos e outras publicações especializadas procurando termos técnicos que podem entrar no dicionário.

    Quando os editores notam uma nova tendência e reconhecem que o uso é significativamente amplo, o termo passa a integrar a versão digital online do dicionário e é incluso na edição física, impressa no ano seguinte.

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