Quais os sinais de alerta para países que saem da quarentena

Europa começa abertura gradual, enquanto China e Coreia do Sul veem ressurgir casos de contaminação após desconfinamento

    Dos 33 países europeus que decretaram quarentena durante a pandemia do novo coronavírus, 28 tinham relaxado as medidas de confinamento até segunda-feira (11), seguindo um caminho adotado antes por países asiáticos como a China e a Coreia do Sul.

    O relaxamento europeu ocorre de forma cautelosa. A ECDC (Agência Europeia de Controle de Doenças, a sigla em inglês) adverte sobre o risco de uma segunda onda de contaminação. Em muitos países, a reabertura foi adiada mais de uma vez. E a estratégia ainda pode ser revertida a qualquer momento, caso o ritmo de propagação da doença de fato volte a aumentar.

    “Em suas avaliações de risco, a agência afirmou que os governos devem informar claramente à população que a possibilidade de uma segunda onda existe, mesmo que a pandemia tenha sido vencida agora”

    Stefan de Keersmaecker

    porta-voz da Comissão Europeia para saúde pública, em declaração no dia 11 de maio de 2020

    Na França, por exemplo, o governo do presidente Emmanuel Macron postergou a data da reabertura duas vezes: primeiro, de 1º de abril para 15 de abril e, em seguida, de 15 de abril para 11 de maio. Ainda assim, o governo ainda foi obrigado a dividir o país em várias zonas na reabertura parcial iniciada na segunda-feira (11).

    O nordeste, onde fica Paris, é considerado território “vermelho”. Lá, pouco mudou – o alto risco de contaminação e a superlotação do sistema de saúde ainda impõem severas medidas de restrição. Em zonas “amarelas” e “verdes”, nas partes sul e oeste da França, a liberdade já é maior.

    Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez adotou um plano de desconfinamento escalonado. As fases de reabertura são divididas nacionalmente por números, e a passagem de um nível a outro só ocorre quando certos dados positivos são atingidos, por exemplo, em taxa de contaminação e ocupação de leitos hospitalares.

    Na Itália, a reabertura também ocorre em fases, como na Espanha, e por zonas, como na França. O misto dos dois sistemas não impede, no entanto, que os números voltem a explodir, sobretudo na região norte, da Lombardia, onde muitos infectados permaneceram confinados em suas casas, e agora sairão às ruas após longo confinamento.

    Mesmo países que fizeram quarentenas tardias e menos rigorosas, como o Reino Unido, estão de alguma maneira relaxando as medidas. O primeiro-ministro Boris Johnson pediu que os trabalhadores da indústria e da construção civil voltem a seus postos, mesmo com o país tendo assumido a liderança no número de mortos por covid-19 na Europa, com quase 32 mil mortos pela doença até segunda-feira (11).

    Aposta perigosa na reabertura

    Como ainda não existe vacina ou remédio, os governos europeus fiam-se exclusivamente no respeito às medidas de distanciamento social, além do uso de máscaras e a manutenção do trabalho à distância, onde isso é possível, para levar adiante suas reaberturas.

    A mistura de estratégias e a falta de indicadores unificados em toda a Europa aumentam a incerteza da população e a cobrança de políticos dos opositores aos governos de turno, que em seus respectivos parlamentos cobram maior responsabilidade de seus presidentes e premiês.

    Condições objetivas para os processos de reabertura haviam sido propostas pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em 15 de abril, mas elas não estão sendo cumpridas à risca.

    A principal violação diz respeito aos testes massivos. Os testes para detecção de contaminação estão disponíveis em larga medida no sistema de saúde dos principais países europeus, mas não os testes que indicam se a pessoa foi contaminada no passado e já possui anticorpos no presente.

    Sem isso, é impossível saber qual percentual da população está imunizado ou não, e quando poderá ser atingida a “imunidade de rebanho”, que é quando a maior parte da população já possui defesa no organismo, por ter sido contaminada e se recuperado – ainda que haja dúvidas sobre o quanto essa imunidade é de fato confiável, e por quanto tempo.

    Além disso, em algumas regiões, como no nordeste da França, os sistemas de saúde ainda estão sobrecarregados, e um súbito aumento da demanda pode fazer com que eles entrem novamente em colapso. A disponibilidade de leitos era outro dos critérios determinados pela Comissão Europeia em abril.

    Pressão econômica e psicológica

    Uma das razões para essa abertura imperfeita é a forte pressão econômica que esses países estão sofrendo. A paralisação do comércio e da indústria, assim como o fechamento das escolas e o estancamento da prestação de serviços fazem a União Europeia prever uma “recessão de proporções históricas” no bloco.

    O banco central britânico estima que a economia do país terá o maior encolhimento desde 1706, com uma queda de 14% em 2020. Só nas oito semanas de confinamento, a França viu seu PIB (Produto Interno Bruto) encolher cinco pontos, o que equivale a 120 bilhões de euros.

    Ao mesmo tempo, a pressão social e psicológica provocadas por longos períodos de isolamento social obrigatório – italianos, espanhóis e franceses passaram cerca de 60 dias sem poder sair de casa, sob pena de multa ou prisão – também é um fator a ser levado em conta não apenas pelos governantes, mas pelos serviços de saúde.

    Sinais adversos na reabertura

    Dois exemplos de reabertura começaram a enviar sinais negativos para a Europa justamente no momento em que italianos, espanhóis, franceses e britânicos falam em desconfinamento.

    O primeiro veio da China, epicentro mundial da doença em 2019. A cidade de Wuhan registrou pela primeira vez em um mês um novo caso de contaminação pela covid-19, no domingo (10). Um homem de 89 anos foi internado com os sintomas e identificado com a doença. O governo subiu o nível de alerta e rastreou os contatos do homem contaminado para evitar o alastramento. No norte do país, em Jilin, foram detectados 14 novos casos, no primeiro aumento de dois dígitos no país num intervalo de dez dias.

    O segundo sinal preocupante veio da Coreia do Sul, onde o prefeito de Seul voltou atrás nas medidas de reabertura e ordenou o fechamento imediato de bares e restaurantes, depois da detecção de 34 novos casos em 24 horas.

    Crescimento preocupante também ocorreu dentro da própria Europa. Em 24 horas, a Alemanha – país que investiu em testes massivos, mas não impôs quarentena rigorosa – registrou 667 casos adicionais da doença, com 13 novas mortes. O país relaxou as medidas excepcionais quando a taxa de contaminação passou a ser menos de 0,65 – o que significa que cada pessoa infectada contaminava menos do que uma outra pessoa, em média. Porém, esse índice passou a ser de 1,1 no domingo (10).

    A Alemanha tem a menor taxa de mortes por covid-19 em toda a Europa (8,6 por por 100 mil habitantes). Para efeito de comparação, essa taxa chega a ser de 19,4 no estado brasileiro do Amazonas. Esse bom desempenho, no entanto, deve-se à medidas tomadas de forma coesa pelo governo, contra o qual muitos alemães passaram a se manifestar recentemente, pedido relaxamento das restrições em vigor, mesmo elas já sendo mais brandas do que em outros países europeus.

    Com falta de exames, hospitais ainda com alta demanda e sem vacina à vista, a abertura europeia parece uma aventura arriscada para especialistas como o médico imunologista português António Coutinho. “O achismo continua a se impor, porque não há dados suficientes para se poder tomar posições que são baseadas na ciência”, disse ele ao jornal brasileiro Folha de S.Paulo no sábado (9).

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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