Os militares em postos-chave do Ministério da Saúde

Segundo Nelson Teich, presença de nomes do Exército é temporária e se deve à ‘guerra’ contra o vírus

    Temas

    O ministro da Saúde, Nelson Teich, tomou posse em 17 de abril sob desconfiança. O temor era que ele fosse tutelado ao substituir Luiz Henrique Mandetta, demitido pelo presidente Jair Bolsonaro por defender medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos contra a pandemia do novo coronavírus.

    Teich não pôde sequer escolher seu braço direito na pasta. A função de secretário-executivo, segundo cargo mais importante do Ministério da Saúde, ficou com o general da ativa Eduardo Pazuello, por determinação de Bolsonaro. O militar havia coordenado a Operação Acolhida, que recebe refugiados venezuelanos em Roraima, e comandado a logística da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro.

    “Ele [Teich] vai nomear boas pessoas, eu vou indicar algumas pessoas também, porque é um ministério muito grande. Foram sugeridos nomes sim, para começar a formar um ministério que siga a orientação do presidente de ver o problema como um todo e não uma questão no particular”

    Jair Bolsonaro

    presidente, ao confirmar o nome de Nelson Teich para o Ministério da Saúde, em 16 de abril

    Preocupado com os efeitos da paralisação de atividades não essenciais na economia, o presidente tem defendido a volta à normalidade e desdenhado a gravidade da doença, a qual já classificou em pronunciamento como uma “gripezinha”. No sábado (9), quando o país contabilizou mais de 10 mil mortos, Bolsonaro decidiu andar de jet-ski. A substituição de Mandetta por Teich foi vista como uma tentativa de interferir diretamente na Saúde a fim de impor sua visão.

    168.331

    casos do novo coronavírus foram confirmados no Brasil até segunda-feira (11), segundo o Ministério da Saúde

    11.519

    era o número de mortes em decorrência da doença até a mesma data, segundo o órgão

    Apesar de ter dito que estava “100% alinhado” a Bolsonaro, Teich não mudou as orientações do Ministério da Saúde em relação ao isolamento social e chegou a reconhecer que algumas regiões do país vão precisar recorrer ao lockdown (bloqueio total, com controle da circulação de carros e pessoas). No sábado (9), o ministro lamentou que o país tivesse passado das 10 mil mortes causadas pela doença.

    No cargo, ele tem ressaltado que ainda é preciso conhecer melhor a doença para tomar decisões. Teich prometeu 46,2 milhões de testes, mas apenas 11% foram entregues. Em 4 de maio, visitou Manaus, e falou em “recursos escassos”. Ele tem sido criticado por parlamentares e gestores da saúde por demonstrar desconhecimento sobre a crise. Na segunda-feira (11), foi pego de surpresa por um decreto de Bolsonaro que facilita a abertura de salões de beleza e academias.

    Nesse contexto, as nomeações que não passam por ele continuam a ocorrer no ministério. Prestes a completar um mês, a nova gestão da pasta exonerou funcionários de carreira e se tornou mais militarizada. O que não é novidade em outros setores do governo. Bolsonaro tem, ao todo, nove ministros militares, parte da ativa e parte da reserva.

    Nos cargos inferiores, de segundo e terceiro escalões, também há uma forte presença militar. O número de pessoas cedidas pelas Forças Armadas para ocupar cargos de confiança no governo Bolsonaro já se aproxima de 3.000.

    Os militares na Saúde

    Alberto José Braga Goulart

    Tenente-coronel, foi escolhido para chefiar o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) do Maranhão, que possui seis pólos-base responsáveis por atender oito etnias indígenas.

    Jorge Luiz Kormann

    Tenente-coronel, mestre em ciências militares e em aplicações militares, foi assessor de gestão e planejamento estratégico do HMAPA (Hospital Militar de Área de Porto Alegre). No ministério, é diretor de Programa da secretaria-executiva.

    Marcelo Blanco Duarte

    Tenente-coronel, assume o cargo de assessor do DLOG (Departamento de Logística em Saúde) que era ocupado por Adriane Maria Pinhate, servidora efetiva desde 2012. O órgão é responsável por compras e contratações de serviços.

    Paulo Guilherme Ribeiro Fernandes

    Coronel da reserva, tem mestrado em economia e em ciências militares. Professor licenciado do Centro Universitário Campos de Andrade, em Curitiba, assume como coordenador-geral de Planejamento.

    Reginaldo Machado Ramos

    Também tenente-coronel, foi nomeado diretor de Gestão Interfederativa e Participativa. Seu departamento desenvolve estratégias para melhorar a gestão compartilhada do SUS (Sistema Único de Saúde) entre os entes federativos.

    Emanuella Almeida Silva

    Terceiro-sargento, foi escolhida como coordenadora de Pagamento de Pessoal e Contratos Administrativos.

    As reações às nomeações

    Teich afirmou na quinta-feira (7), durante uma videoconferência com deputados federais, que a militarização do Ministério da Saúde é temporária.

    “Conforme a gente for enfrentando o problema da crise e isso for retornando para uma situação normal, essas pessoas vão naturalmente voltar para seus lugares e pessoas não militares vão ser colocadas no lugar. Mas, neste momento, é um período de guerra”, afirmou.

    Mesmo assim, informações de bastidores publicadas pela imprensa dão conta de que as trocas não estão sendo bem aceitas internamente. Pazuello foi classificado como “espaçoso” e “autoritário”, segundo o jornal O Globo.

    De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, funcionários dizem que a entrada dos militares no ministérios tem causado “demora na resolução de processos que já estavam em curso”.

    Francisco Bernd, servidor desde 1985 que foi substituído pelo tenente-coronel Jorge Luiz Kormann, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo nunca ter visto “mudança tão drástica, com a chegada de pessoas tão estranhas à Saúde”. Ele criticou o governo por tentar classificar a crise na saúde como fruto de uma desorganização da pasta.

    As dificuldades também estão no preenchimento de vagas. A chefia da assessoria de assuntos internacionais do ministério, por exemplo, ainda não foi reposta após a dispensa de uma funcionária de carreira.

    Secretários de saúde que se reuniram com o ministro afirmam que Teich parece “perdido” e incapaz de estabelecer uma diretriz para o órgão. Eles também reclamam que equipamentos e insumos prometidos não estão chegando aos estados. O próprio ministro chegou a reconhecer que a pasta não tem conseguido comprar respiradores.

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