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Sem quarentena: os resultados da Suécia na pandemia

País escandinavo que se negou a decretar quarentena soma mais mortos que os demais países da região e vê crescerem projeções negativas para sua economia em 2020

    Desde o registro do primeiro caso da covid-19 na Suécia, em 31 de janeiro, o governo local optou por adotar uma estratégia diferente de seus vizinhos. Sem decretar quarentena, o país esperava conter o alastramento do vírus apoiado apenas na consciência de cada cidadão. Com isso, os suecos sonhavam em manter o ritmo de vida normal, preservar as liberdades individuais e ainda evitar danos à economia.

    Para quem questionava as duras medidas de quarentena que vinham sendo adotadas ao mesmo tempo no restante da Europa, a Suécia virou um paradigma, um caso a ser acompanhado ao longo do tempo.

    Enquanto italianos, espanhóis e franceses sentiam o peso psicológico e econômico de seus rígidos confinamentos, os suecos passeavam por parques públicos e frequentavam cafés e restaurantes.

    Os números de mortos e infectados eram, em fevereiro, semelhantes aos dos demais países do entorno. Porém, em maio, a Suécia lidera o ranking de vítimas fatais causadas pelo novo coronavírus entre todos os países da Escandinávia, e as projeções mais pessimistas do próprio Banco Central sueco é de que a economia do país recue até 9,7% em 2020.

    Disparada de casos

    Gráfico mostra mortos por covid-19 na Suécia

    A Suécia não lidera apenas em número absoluto de casos. O país soma 300 mortes por milhão de habitantes. Na Dinamarca, são 89 por milhão. Na Finlândia, são 46. E na Noruega, 40.

    Aposta na liberdade

    Não é que o governo sueco tenha duvidado da importância e da eficácia das medidas de distanciamento social. O primeiro-ministro Stefan Löfven, social-democrata que está há seis anos no cargo, nunca minimizou a gravidade do vírus ou militou contra medidas de distanciamento social, como fez, por exemplo, Jair Bolsonaro no Brasil, ou os líderes do Turcomenistão e da Bielorrússia, que compõem um bloco informal apelidado de “aliança dos avestruzes”.

    A diferença é mais de método: em vez de baixar leis de quarentena, e estipular penas de multa e prisão, como fazem outros países europeus, a Suécia acredita que é possível obter o mesmo resultado apenas confiando no comportamento individual dos cidadãos.

    As instruções são claras: manter distância de mais de 1,5 metro, espirrar contra o próprio braço para conter a dispersão de vapor e saliva e lavar as mãos com frequência e por mais de 20 segundos. O uso de máscara, no entanto, é raro no país.

    Restaurantes que não cumpriram as recomendações foram fechados para adequar seus ambientes, mas não receberam multas ou qualquer outra penalidade por parte das autoridades de saúde.

    Na Suécia, a aglomeração máxima permitida é de 50 pessoas, enquanto na França, o limite em cultos religiosos, por exemplo, era de apenas 20 pessoas. A polícia orienta os cidadãos nas ruas sobre práticas mais seguras, mas jamais age para punir infratores.

    O argumento central do governo sueco é de que não há como sair de uma quarentena uma vez que você entra nela. Enquanto não se descobre uma vacina – e pode ser que isso demore – o país tenta seguir o curso normal da vida.

    “Basicamente, estamos tentando fazer o mesmo que a maioria dos demais países fazem, que é reduzir o alastramento da doença o máximo possível. A questão é que usamos ferramentas um pouco diferentes das dos demais países”

    Anders Tegnell

    Epidemiologista da Autoridade de Saúde Pública da Suécia, em entrevista ao The New York Times, em 28 de abril de 2020

    O governo sueco nega que esteja tentando atingir a chamada “imunidade de rebanho”, que é a expressão usada quando se pretende expor um número tão grande de pessoas à contaminação que essa população torna-se imune a novas contaminações.

    O Reino Unido tentou essa estratégia no início da pandemia, mas voltou atrás no meio do caminho. A indefinição rendeu ao país a liderança em número de mortos pela covid-19 na Europa, com mais de 30 mil vítimas fatais registradas até sexta-feira (8).

    Euforia inicial

    A derrocada nos números suecos em relação a seus vizinhos escandinavos põe em questão o comportamento otimista que o país despertou em todos aqueles que acreditavam ser possível passar pela crise de maneira suave.

    “A Suécia parece estar sendo tão bem sucedida em controlar o vírus quanto a maioria das outras nações”, foi a conclusão de uma elogiosa reportagem publicada em 28 de abril por dois repórteres do jornal americano The New York Times enviados ao país escandinavo.

    Um dos argumentos dos que defendem a estratégia sueca é a de que o país registra índice semelhante de mortos que países como a Irlanda do Norte, que optaram por quarentenas estritas.

    Quando a reportagem foi publicada, a taxa sueca de 22 mortos por 100 mil era igual à da República da Irlanda. Passados dez dias da publicação dessa reportagem, a comparação se manteve – a Irlanda somava na sexta-feira (8) 1.403 mortos pela covid-19, enquanto a Suécia somava 3.040, sendo que a população irlandesa é a metade da população sueca, o que justificaria a proporção no número de vítimas fatais também.

    Ainda assim, persiste o contraste com os quatro países do entorno – Dinamarca, Finlândia, Islândia e Noruega – que têm se saído melhor. Como, no entanto, a crise é longa e não há cura à vista, os suecos apostam que, no longo prazo, com seus vizinhos se reabrindo paulatinamente à vida social, essas curvas tendem a se aproximar.

    A Dinamarca, país nórdico que adotou uma quarentena severa logo no início da crise, vai começar a reabrir as escolas, cafés e restaurantes no dia 18 de junho, mas as fronteiras seguirão ainda fechadas, até 1º de junho. Se os números de contaminação subirem, o governo diz que recuará da reabertura.

    Na Suécia, o premiê Stefan Löfven mostra-se confiante em suas opções, e diz que, passada a parte mais aguda da crise, criará uma comissão independente para avaliar as atitudes tomadas por seu próprio governo.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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