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Cuidado redobrado e solidão: como é dar à luz na pandemia

Recém-nascidos são vistos por familiares apenas em vídeo-conferências e podem ficar afastados dos pais se houver risco de contágio

Muitas mães e pais descrevem o instante em que seguram um filho recém-nascido pela primeira vez, algo que costuma acontecer imediatamente após o parto, como um momento que assinala uma mudança definitiva em suas vidas.

A pandemia do novo coronavírus, porém, está causando mudanças no ato de dar à luz e impondo restrições, cuidados e preocupações extras a famílias. Caso haja suspeita ou confirmação de contágio por parte da mãe, por exemplo, o primeiro encontro com o bebê pode ser adiado por semanas.

O caso da americana Angela Primachenko foi noticiado em todo o mundo: com 34 semanas de gestação, ela entrou em coma induzido devido à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, e só acordou quando sua filha, Ava, já tinha cinco dias de idade. Ava nasceu em 1º de abril. Por conta do risco de contágio, Angela só pôde pegá-la no colo pela primeira vez no fim do mês, após estar curada da doença.

Mesmo para gestantes saudáveis, que não apresentam sintomas da covid-19, a pandemia tem constituído um importante fator de ansiedade, intensificando os medos e inseguranças que normalmente já fazem parte da experiência de ter um filho.

Para muitas mulheres, o isolamento social imposto pela pandemia também significa um agravamento da solidão no pós-parto e uma redução da rede de apoio – pessoas com quem os pais contariam para dar suporte nos cuidados ao recém-nascido. Por enquanto, os “bebês da quarentena” só podem ser vistos pela família estendida em vídeo-conferências.

Essas circunstâncias podem aumentar o risco de depressão pós-parto, condição causada por uma combinação de fatores biológicos, psíquicos e sociais que atinge mais de 25% das mães no Brasil.

“Meu filho é amado por muita gente que ele desconhece. Penso em como seus olhinhos vão brilhar ao descobrir que o mundo é cheio de pessoas, e que até existem outros bebês como ele”

Sílvia Amélia de Araújo, sobre o filho nascido no início de março

Em depoimento publicado pelo El País

Incluídas no grupo de risco

Em 9 de abril, o Ministério da Saúde incluiu gestantes e puérperas (mulheres até 45 dias após o parto) no grupo de risco para o coronavírus. Antes, apenas aquelas que enfrentavam uma gravidez de alto risco eram consideradas parte do conjunto de pessoas para as quais há maior chance de a doença evoluir para quadros graves.

Embora ainda faltem estudos conclusivos que confirmem o perigo maior que a covid-19 representa para mulheres nessas circunstâncias, a decisão se baseou na ação de outros coronavírus e de vírus gripais já estudados no organismo delas. O H1N1, um subtipo do vírus da gripe, por exemplo, pode ser letal para gestantes a depender de seu histórico clínico.

O risco de contágio e o colapso iminente do sistema de saúde fizeram aumentar o interesse por partos domiciliares no Brasil e em países como os Estados Unidos, segundo uma reportagem da BBC. Até o momento, não há dados oficiais que indiquem um aumento no número de partos realizados em casa em decorrência do novo coronavírus.

Ao mesmo tempo, muitos hospitais e maternidades reorganizaram sua estrutura física e seu fluxo de atendimento para minimizar o risco de transmissão e prestar atendimento especializado a gestantes infectadas.

O que se sabe: o vírus nas mães e bebês

As consequências da infecção pelo novo coronavírus durante a gestação ainda não são totalmente conhecidas. Por enquanto, segundo a Febrasgo (Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia), não há dados que indiquem que o vírus seja a causa de aborto, malformação fetal ou de outras complicações obstétricas.

Apesar disso, mulheres gestantes apresentam um sistema imunológico menos eficaz e por isso são mais vulneráveis a infecções de forma geral. Também há o risco de modificações fisiológicas do organismo na gravidez se sobreporem a sinais ou sintomas da covid-19, dificultando o diagnóstico.

Os cuidados para evitar contaminação, portanto, devem ser redobrados. “Como em qualquer doença sistêmica importante, o adoecimento grave [da gestante] pode comprometer a saúde fetal, incluindo os riscos associados ao parto prematuro”, disse ao Nexo a professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Márcia Mendonça Carneiro.

Embora os sintomas da covid-19 pareçam ser, em geral, mais leves em crianças, os números apontam que a infecção também pode evoluir para quadros mais graves e até fatais. Segundo um levantamento realizado pela revista Crescer junto às secretarias estaduais de Saúde de todo o país, até terça-feira (5) pelo menos 13 bebês de até dois anos de idade haviam morrido de covid-19 no Brasil.

As recomendações de especialistas, em 5 pontos

O Nexo consultou a professora da UFMG Márcia Mendonça Carneiro, a Febrasgo e instruções oficiais publicadas pelo governo para buscar orientações sobre gestação, parto e puerpério no contexto da pandemia de coronavírus.

Pré-natal

É importante que as consultas de pré-natal sejam mantidas mesmo durante a pandemia, já que esse atendimento tem um papel fundamental em prevenir e detectar precocemente patologias para garantir o desenvolvimento saudável do feto e reduzir riscos para a mãe.

A periodicidade das consultas e exames, porém, deve se limitar ao suficiente para garantir o cuidado adequado de cada gestante, de acordo com as particularidades da gravidez, evitando um excesso de visitas aos locais de atendimento que aumentam o risco de contágio.

No caso de gestantes que tenham sido diagnosticadas com a covid-19 ou apresentem suspeita, a consulta pré-natal deve ser agendada para depois do período de quarentena exigido para que o vírus deixe de ser transmitido pela pessoa infectada.

Transmissão vertical

A ocorrência de transmissão do novo coronavírus da mãe para o bebê durante a gravidez ainda não pode ser totalmente descartada, mas é considerada mínima ou inexistente.

Um estudo publicado em 22 de abril pela revista científica The Lancet demonstrou a ausência do vírus no líquido amniótico (por meio do qual ocorreria a transmissão) no meio da gravidez de mulheres que haviam sido diagnosticadas com covid-19 em um estágio inicial da gestação. A maioria dos estudos feitos sobre transmissão vertical de Sars-Cov-2 até então haviam focado em mulheres que estavam no fim da gravidez.

Parto

Não tendo sintomas relacionados ao novo coronavírus, a gestante pode manter sua escolha inicial do hospital ou maternidade onde o parto será realizado. Caso ela apresente sinais ou sintomas de covid-19, é indicado que converse com seu médico sobre qual o melhor hospital para fazer o parto, levando em conta, por exemplo a disponibilidade de equipamentos adequados, leito de isolamento e UTI neonatal ou de adulto.

Chegando ao hospital, os cuidados de prevenção devem ser os mesmos adotados fora do ambiente hospitalar, como manter distância das pessoas, higienizar frequentemente as mãos e usar máscara. É recomendado evitar acompanhantes ou visitas acima de 60 anos, portadores de qualquer sintoma respiratório, febre ou doen��as crônicas, e se abster da presença das doulas. O objetivo é que a instituição mantenha o menor número possível de pessoas circulando.

Quanto à escolha do tipo de parto, normal ou cesárea, a indicação depende das características de cada caso e do que for mais seguro para a mãe e para o bebê. A princípio, o parto normal é considerado preferível e deve ser indicado para as parturientes que não apresentam dificuldades respiratórias. Quando elas apresentam um quadro grave da doença, por outro lado, a cesariana é mais indicada.

Nos casos suspeitos ou confirmados de infecção pelo vírus por parte da mãe, ela deve ser mantida em quarto de isolamento e usar máscara durante toda a internação. O contato físico com o recém-nascido deve ser suspenso após o parto e é indicado que ele receba um banho precoce.

Buscado por mães que acreditam que ele é uma alternativa mais segura durante a pandemia, o parto domiciliar é desaconselhado. Não há, por enquanto, evidências científicas que provem que há menor risco de contágio em um parto realizado fora do ambiente hospitalar.

“O parto realizado em ambiente hospitalar é mais seguro, visto que as condições de controle de disseminação de infecção são mais rigorosas”, diz a professora Márcia Mendonça Carneiro ao Nexo.

Puerpério

Não há, até o momento, relato de piora no quadro das mães com covid-19 nos 45 dias após o parto nem confirmação de que elas sejam mais suscetíveis ao vírus nessa fase. Se as condições da mãe e do bebê permitirem, eles devem ser estimulados a ter alta o quanto antes para reduzir o tempo de permanência no ambiente hospitalar.

Em casa, as medidas preventivas de higiene e isolamento social devem continuar sendo seguidas rigorosamente. Como o vírus é altamente contagioso, deve haver um cuidado ainda maior com essas medidas ao segurar o bebê.

Caso a mãe precise ficar isolada do bebê, há efeitos adversos para a saúde de ambos, mas a professora Márcia Mendonça Carneiro lembra se tratar de uma “avaliação de risco-benefício diante de uma infecção potencialmente grave para a qual ainda não há tratamento eficaz”. Ficar longe até que a infecção seja eliminada é a melhor maneira de protegê-lo.

Amamentação

Uma boa notícia é que não há contraindicações à amamentação. Não existem evidências de que o vírus possa ser transmitido pelo leite materno e, desde que a mãe tenha condições de amamentar, a prática deve ser mantida normalmente.

Se a mãe apresentar sinais de gravidade da covid-19 que a impeçam de continuar a amamentação direta, ela deve ser incentivada a retirar o leite, adotando medidas de prevenção.

Para evitar a disseminação do vírus para o recém-nascido, são necessárias precauções como lavar as mãos antes de tocar no bebê, na bomba extratora de leite ou na mamadeira. Também é preciso usar máscara facial durante a mamada e higienizar as ordenhadeiras de forma correta após cada uso.

Embora ainda sejam necessários estudos a respeito, há a possibilidade de que a amamentação seja inclusive benéfica para a imunização do bebê contra o novo coronavírus. Em um artigo publicado pelo site de divulgação científica EurekAlert, o médico e editor-chefe do periódico acadêmico Breastfeeding Medicine Arthur I. Eidelman afirmou que “a amamentação continuada tem o potencial de transmitir anticorpos maternos protetores ao bebê através do leite materno”.

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