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Como o Brasil lida com a paralisação do futebol. E quais as perspectivas

Grêmio e Internacional voltam aos treinos mesmo sem previsão de retomada das competições. Enquanto Bolsonaro faz lobby pelo retorno, clubes não chegam a consenso

    Em 12 de março – uma quinta-feira –, o Brasil pôde acompanhar o primeiro Grenal da história da Libertadores. À tradição do maior clássico do Sul do país, a partida foi tensa, terminando em um 0 a 0. Os últimos cinco minutos de jogo acabaram ofuscando os primeiros 85: uma briga generalizada terminou com agressões em campo e oito expulsões.

    Mais cedo naquele dia, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) havia anunciado a suspensão da Libertadores de 2020, por razão da pandemia do novo coronavírus. Inicialmente, foi descartada apenas a realização dos jogos marcados entre 16 e 20 de março, mas em pouco tempo a paralisação foi estendida.

    Nos dias seguintes ao Grenal, federações começaram a suspender os campeonatos estaduais pelo Brasil inteiro. Em São Paulo, houve rodada do Paulistão no final de semana de 14 e 15 de março. O último jogo do futebol paulista antes da paralisação foi na segunda-feira, 16 de março: um clássico entre Guarani e Ponte Preta, em Campinas, com vitória de virada do Guarani, por 3 a 2. Assim como o Grenal, o jogo também terminou em briga.

    Passado o mês de abril com competições suspensas, no início de maio clubes e federações começam a se mobilizar para retornar às atividades. Abaixo, o Nexo mostra qual é a situação do futebol brasileiro dois meses após o início da paralisação.

    A opinião de especialistas

    Assim como no resto do mundo, há preocupações entre federações, clubes e jogadores brasileiros com as possíveis consequências de voltar às atividades. Entre diversas indefinições, há uma espécie de consenso de que o retorno das competições se dará, em um primeiro momento, sem torcida nas arquibancadas, para evitar aglomerações.

    Mas mesmo sem torcida, especialistas expressam preocupação com a possibilidade de retornar aos gramados. Ao portal R7, o infectologista Renato Grinbaum explicou que o contato entre jogadores – inevitável em uma partida ou em um treino coletivo – aumenta as chances de contágio.

    “Um jogador está marcando o outro, então existe a possibilidade de uma contaminação respiratória. Até mesmo com as mãos ele pode se infectar. Esse contato físico indireto, não pelo suor, mas pelas vias respiratórias, existe e faz com que o atleta corra o risco de contrair o vírus”

    Renato Grinbaum

    infectologista, em entrevista ao portal R7, publicada em 24 de abril de 2020

    Já o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido por Bolsonaro em 16 de abril, disse à ESPN Brasil que discutir a volta do futebol é algo precipitado. Segundo ele, a situação crítica do vírus no país, com casos da covid-19 (a doença causada pelo novo coronavírus) ainda aumentando diariamente, eleva os riscos de um eventual retorno do futebol e outras atividades esportivas e culturais.

    “Ao meu ver, temos outras medidas mais importantes a fazer antes de falar de futebol. Acho que a gente estaria atropelando a história natural desse vírus. Não tem elementos para fazer essa decisão no momento. Estamos aumentando o número de casos. Seria decidir pelo retorno e logo na frente ter que suspender”

    Luiz Henrique Mandetta

    ex-ministro da Saúde, em entrevista à ESPN Brasil em 7 de maio de 2020

    O temor dos jogadores

    Uma reportagem do portal de notícias UOL, publicada em 30 de abril, mostrou que entre jogadores, há temor em voltar às atividades. Isso porque muitos atletas têm receio de se contagiar em treinos e jogos e acabar levando o vírus para casa, contaminando familiares.

    De acordo com o presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol, Felipe Augusto Leite, o medo tem sido a principal reação dos atletas diante da possibilidade de retorno do esporte.

    “Atletas profissionais em geral são jovens, são recém-casados, tem filhos pequenos. Eles têm medo de trazer a doença para casa”

    Felipe Augusto Leite

    presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol, em entrevista publicada pelo UOL em 30 de abril de 2020

    A situação dos clubes

    Enquanto não há previsão para o retorno do futebol, alguns clubes já iniciam a movimentação para voltar aos treinos. É o caso dos principais times de Porto Alegre, que já retomaram atividades presenciais, com regras especiais para minimizar riscos de contágio. O retorno foi liberado pela prefeitura da capital gaúcha, em decreto publicado em 30 de abril.

    Após sete semanas de paralisação, jogadores do Internacional se reapresentaram no clube para realização de treinos na terça-feira (5). No dia anterior, os atletas colorados realizaram testes para covid-19 (todos retornados negativos) e passaram por avaliação médica dentro de seus carros. A nova rotina da equipe envolve divisão do grupo para atividades em horários separados, treinos sem contato físico, higienização de equipamentos e avaliação da temperatura dos jogadores antes do início da programação diária.

    Da mesma forma, o Grêmio realizou as primeiras atividades no centro de treinamentos na quinta-feira (7), com realização prévia de exames e testes. No clube tricolor, três casos de covid-19 foram confirmados: dois funcionários e o atacante Diego Souza, que não se reapresentou às dependências do clube por conta da doença.

    No restante do país, outros clubes começaram a se mobilizar para um possível retorno aos gramados. Entre eles, o Flamengo, campeão brasileiro e da Libertadores em 2019. Como preparação para uma possível volta aos treinos, o clube realizou quase 300 testes, entre jogadores, funcionários e familiares de pessoas ligadas ao clube.

    Os resultados revelaram 38 casos de covid-19, sendo três de jogadores que não tiveram seus nomes revelados. Apesar dos casos confirmados da doença, a ideia é voltar às atividades na segunda-feira, 11 de maio. A equipe ainda espera aval de governantes do Rio de Janeiro para confirmar o plano. No dia 4 de maio, Jorge Luiz Domingos, que trabalhou como massagista do Flamengo por 40 anos e ainda era funcionário do clube, morreu por conta do novo coronavírus.

    Além do Flamengo, o Vitória é outro clube que espera aval das autoridades locais para retornar às atividades no centro de treinamentos. No Atlético Mineiro, também é debatida a possibilidade de voltar aos treinos já em 11 de maio, com rotina adaptada e testagem de jogadores.

    Ao mesmo tempo, algumas equipes adotaram rotinas de treinos à distância, para tentar manter os atletas em forma. Fluminense, Bahia e Palmeiras estão entre as equipes que optaram por esse formato de retorno aos trabalhos.

    Os dirigentes que rejeitam a volta

    Na elite do futebol brasileiro, enquanto alguns clubes já pensam em retornar às atividades mesmo sem previsão de retorno das competições, outras equipes rejeitam a ideia de voltar aos gramados enquanto a situação do novo coronavírus não for controlada no Brasil.

    O presidente do Botafogo, Nelson Mufarrej, está entre os que se pronunciaram contra a volta do futebol. O clube, que prepara transição para se tornar um clube-empresa, passa por graves dificuldades financeiras em meio à pandemia; apesar disso, o time não pensa em apressar a volta aos gramados.

    “Não existe hipótese de colocar nossos atletas em campo, seja para treino ou jogo, sem garantia de saúde. Passamos tanto tempo parados para voltar a ter contato presencial nos treinos justamente no pico, no auge das mortes, no momento que o sistema de saúde está ficando asfixiado? Do que adiantou todo esse período parado? Vamos jogar fora? Além de ilógico e de total desconexão com a realidade, é desumano”

    Nelson Mufarrej

    presidente do Botafogo, em entrevista ao GloboEsporte.com, publicada em 6 de maio de 2020

    O presidente do Vasco da Gama, Alexandre Campello, também deixou claro que não considera a possibilidade das atividades do clube sem aval das autoridades de saúde. Em meados de abril, o Palmeiras também se posicionou contra a volta do futebol enquanto não houver garantia de segurança para atletas, treinadores e funcionários dos clubes.

    O São Paulo também rechaçou o retorno aos treinos. A posição do clube foi tornada pública pelo diretor-executivo de futebol, Raí – também ex-jogador e ídolo do time – em entrevista ao GloboEsporte.com.

    “É bom deixar claro e reforçar que a posição do São Paulo não é voltar rápido. É voltar ao seu tempo, com as orientações, e gradativamente”

    Raí

    diretor-executivo de futebol do São Paulo, em entrevista ao GloboEsporte.com, publicada em 30 de abril de 2020

    Ao se posicionar contra a volta do futebol, Raí também criticou duramente a postura de Jair Bolsonaro ao longo da crise, pedindo a saída do presidente.

    O lobby de Bolsonaro

    Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem ido contra medidas de isolamento social, defendendo, inclusive, a retomada do futebol mesmo em meio ao agravamento da situação da covid-19 no país. Antes da paralisação do futebol no Brasil, o presidente era contra a suspensão das competições.

    “Quando você proíbe jogos de futebol, entre outras coisas, você está partindo para o histerismo, no meu entender. Eu não quero”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, em entrevista à CNN Brasil em 14 de março de 2020

    Desde então, Bolsonaro tem se mobilizado nos bastidores para articular a volta do futebol no Brasil. Como parte da campanha, ele chegou a conversar por telefone no final de abril com o treinador do Grêmio, Renato Gaúcho. De acordo com a apuração de diversos veículos, Renato, que já revelou ter votado em Bolsonaro em 2018, disse ser contra a volta do futebol, demonstrando a preocupação com a segurança dos atletas e outros profissionais envolvidos na realização de jogos.

    Mesmo assim, Bolsonaro seguiu sua campanha, apoiado por outros membros do governo. Em 7 de maio, o presidente novamente defendeu a retomada do esporte mais popular do país. Um dos que também defende a volta do futebol é Carlos da Costa, secretário especial da Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia. Em entrevista no dia 27 de abril, o secretário disse que o retorno das competições aconteceria “em breve”.

    “Precisamos jogar futebol, nós precisamos reabrir bares e restaurantes, nós precisamos reabrir indústrias que foram fechadas, nós precisamos voltar a produzir”

    Carlos da Costa

    secretário especial da Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, em coletiva de imprensa no dia 27 de abril

    O Ministério da Saúde enviou em 30 de abril um documento à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e aos clubes, afirmando que é favorável ao retorno do futebol, sem a presença de torcidas. A justificativa usada foi de que a transmissão de jogos pela televisão pode ajudar a reduzir a circulação nas ruas, uma vez que as pessoas ficarão em casa para acompanhar as partidas.

    No entanto, o ministério disse que seria necessário testar atletas, funcionários e familiares, o que não seria tarefa fácil, dada a escassez de testes no país. Além disso, o documento deixa claro que a decisão de autorizar ou não a volta das atividades futebolísticas caberá às autoridades locais (governadores e prefeitos), e não ao Ministério da Saúde, ligado ao governo federal.

    A CBF e as federações

    Informações do jornal Estado de S. Paulo dão conta de que a CBF se mobiliza nos bastidores para preparar a volta do futebol brasileiro. A ideia é promover um retorno gradual aos gramados, respeitando orientações médicas e distribuindo um documento com orientações minuciosas de saúde aos clubes.

    De acordo com o Estado de S. Paulo, que teve acesso ao “Guia Médico de sugestões protetivas para o retorno às atividades do futebol brasileiro”, a CBF prevê uma rotina adaptada com rigor e avaliação frequente da condição dos atletas. O material prevê medição de temperatura e testes de olfato para tentar detectar contaminação entre os jogadores.

    Na quinta-feira (8), o Secretário-geral da CBF, Walter Feldman, disse em entrevista à rádio Jovem Pan que “não é hora de voltar”. Ele também afirmou que a entidade não tem data planejada para um retorno das competições.

    Nas federações estaduais, não há uma posição consensual, mas a maioria adota cautela na hora de tratar do assunto. Em São Paulo, a FPF (Federação Paulista de Futebol) espera autorização do governo estadual para pensar em voltar às atividades. Já a Ferj (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) discute um plano para voltar a realizar jogos.

    Uma carta assinada por 14 dos 16 times da primeira divisão do Campeonato Carioca e pela Ferj, divulgada na sexta-feira (8), pediu o aval de autoridades do Rio de Janeiro para retornar às atividades. Botafogo e Fluminense não assinaram o documento.

    Assim como os times, as federações também são afetadas financeiramente pela paralisação dos jogos, uma vez que recebem parte do dinheiro arrecadado pelos clubes. A tendência é que o eventual retorno do futebol comece pelos campeonatos estaduais, já que os jogos envolvem deslocamentos menores das equipes.

    O futebol na pandemia em outros países

    Se no Brasil há discussão pelo retorno do futebol, há países onde decisões já foram tomadas. Na França, por exemplo, o campeonato nacional foi encerrado antes da realização das últimas rodadas, com o PSG (Paris Saint-Germain) sendo decretado campeão.

    Na Argentina, a temporada foi dada como encerrada e o rebaixamento foi suspenso até 2022. O campeão da Superliga, principal competição nacional, já havia sido definido em 7 de março, com o Boca Juniors erguendo a taça. Outras competições em curso, como a Copa da Superliga e a Copa Argentina, foram interrompidas e ficaram sem vencedor.

    Já a Federação alemã decidiu retomar o campeonato local a partir de 16 de maio. A Bundesliga será jogada sem torcedores, conforme autorizado pelo governo do país. Na Alemanha, o isolamento social começou a ser flexibilizado gradualmente no final de abril. Na Coreia do Sul, onde a disseminação da doença foi reduzida com sucesso, o campeonato local de futebol foi retomado na sexta-feira (8).

    Na Itália e na Espanha, países gravemente afetados pela covid-19, as equipes começaram a voltar aos treinos no início de maio. Nesses países, não há data confirmada para a volta dos torneios locais.

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