Quais riscos decorrem da infecção de animais por covid-19

Gatos e primatas estão entre os mais suscetíveis a contrair o novo coronavírus de um humano, e efeito da doença nos bichos ainda é incerto

O novo coronavírus já contaminou, até quinta-feira (7), mais de 3,8 milhões de pessoas em todo o mundo. A hipótese mais aceita é de que a transmissão para humanos tenha começado em um mercado de animais na China.

O vírus, inicialmente em um morcego, teria saltado a um hospedeiro intermediário — possivelmente os pangolins —, antes de chegar a pessoas.

Ainda é incerto o grau de infecção que a covid-19, doença causada pelo vírus que se espalha pela humanidade, pode ter em outras espécies de animais. Já foram identificados casos em gatos, cachorros, tigres e leões.

Neles, os sintomas foram de distúrbios respiratórios leves a perda de apetite. Um dos cachorros, de Hong Kong, morreu depois de se curar da doença, dois dias depois de ser liberado da quarentena imposta por autoridades sanitárias. A causa de morte, no entanto, não foi determinada porque a dona do animal não deixou que uma autópsia fosse feita.

No passado, outros tipos de coronavírus infectaram mamíferos e pássaros, de espécies domésticas ou selvagens. Em muitos casos, foi o homem quem levou a doença para os animais.

Abaixo, o Nexo reúne o que se sabe sobre os riscos mais comuns que o novo coronavírus apresenta a animais.

A contaminação em animais domésticos

Estudos apontam que a covid-19 infecta as células ligando-se a uma proteína chamada ACE2. Ela está presente em todo o reino animal e é responsável por regular a pressão arterial do corpo. Cada espécie tem essa estrutura em um arranjo diferente, e a dos humanos é a que, até o momento, parece melhor se “encaixar” às superfícies do novo coronavírus, o que facilita a contaminação.

Animais que têm essas estruturas similares às do homem, como gatos e primatas, estão mais suscetíveis à infecção por covid-19. Uma pesquisa feita com ratos, cuja ACE2 difere bastante do humano, mostrou que eles eram mais resistentes e só adoeceram do novo coronavírus quando foram geneticamente alterados para expressar a ACE2 humana.

Em entrevista à revista Smithsonian, Linda Saif, virologista e especialista em coronavírus em animais da Universidade Estadual de Ohio, afirma que a ACE2 não define sozinho qual espécie têm maiores riscos de infecção. Novos estudos contribuem para um debate ainda incerto.

Uma das pesquisas aponta que cães, cujas estruturas ACE2 são bem diferentes das dos humanos, também são vulneráveis à covid-19. A hipótese é de que, por conviverem com maior proximidade do homem, eles recebem maiores cargas virais, e assim têm mais oportunidades para contrair a doença.

Animais de fazenda, como gados e aves, sofrem mais com tipos específicos de coronavírus, causadores de diarreias e desidratação. Nenhum caso da covid-19 foi registrado nesses animais, e estudos apontam que o novo vírus tem dificuldade para se replicar em galinhas e porcos.

Como cuidar dos pets durante a pandemia

À revista Smithsonian, Jane Sykes, veterinária e pesquisadora de vírus animais da Universidade da Califórnia em Davis, disse que a principal atitude para proteger animais de estimação na pandemia é garantir que o animal respeite as medidas de isolamento social, mantendo-no dentro de casa — especialmente se o dono estiver doente ou apresentar sintomas — e limitando a interação com outros animais quando sair para passear.

Até 7 de maio, não havia nenhum estudo que apontasse que animais de estimação podem transmitir a covid-19 para uma pessoa. Uma pesquisa (ainda sem revisão de pares), no entanto, atestou a transmissão de gato para gato em ambiente de laboratório — o que não garante que o comportamento do vírus seja igual no mundo real.

Mesmo assim, se entrar em contato com o animal, o vírus pode ficar nos pelos e patas. Uma dica é vestir o pet com uma camiseta quando for passear para evitar que ele encoste no chão ou em outras superfícies.

A recomendação é sempre limpar o pet antes de entrar em casa depois de passeios. Não se deve, no entanto, usar álcool em gel ou detergente, uma vez que esses produtos podem causar queimaduras e alergias no animal. O mais recomendado é lavar com água morna e sabão, sabonete líquido para criança ou shampoo pet.

O risco de infecção para primatas

Biólogos temem que humanos possam funcionar como transmissores da doença para animais selvagens e em risco de extinção. Um grupo em especial atenção são os dos grandes primatas, como gorilas, chimpanzés e orangotangos. Além da similaridade da proteína ACE2, eles compartilham de 98% do DNA humano.

Nenhum caso de covid-19 em primatas foi registrado até dia 7 de maio. Mas no passado, vírus causadores de sintomas leves em humanos se mostraram fatais quando expostos a populações de símios.

Em algumas populações da Costa do Marfim, segundo Roman Wittig, primatologista do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, disse à revista Science, toda vez que um novo vírus era introduzido — fosse ele um coronavírus ou de outro tipo — o número de mortes chegava a 25%.

60%

das 500 espécies de primatas no mundo correm risco de extinção, segundo pesquisa publicada na revista Science em 2017. Dessas, 75% têm populações com número em declínio

Uma vez que haja contaminação interna em populações de primatas, é difícil controlar o avanço de doenças como a covid-19. À Science, a primatologista Tara Stoinski, do Fundo Dian Fossey para o Estudo de Gorilas, explica que é impossível estabelecer distanciamento social ou dar oxigênio para esses animais.

Por outro lado, também não se pode deixá-los sozinhos, pois a presença de cuidadores e mesmo turistas afasta a ação de caçadores e predadores naturais. No momento, reservas na África e Ásia só podem ser acessadas por cuidadores tomando medidas de precaução.

O desafio de entidades animais é no controle depois do fim da pandemia, já que doenças respiratórias continuam circulando entre humanos mesmo após superada a fase mais crítica.

A possibilidade de reintrodução do vírus nos humanos

Além do combate à pandemia, cientistas afirmam que é preciso ficar atento a potenciais futuros hospedeiros animais. Segundo eles, é possível que o novo coronavírus encontre uma nova espécie, sofra mutações, e reinfecte as pessoas no futuro.

“A probabilidade de que o vírus passe de uma pessoa doente de volta para um animal é baixa. [Mas] foi de uma probabilidade baixa que tudo isso [a pandemia de covid-19] começou”

Peter Daszak

ecologista e presidente da ONG (organização não governamental) EcoHealth Alliance, que pesquisa doenças infecciosas emergentes, em entrevista à revista National Geographic

Virologistas tentam prever quais espécies têm maior potencial para servirem como hospedeiros — seja o animal acometido ou assintomático para a doença.

Todos os animais com infecção de covid-19 já confirmada devem ser analisados. Para antever os demais, são utilizados uma série de métodos: modelos computacionais em 3D para comparar as proteínas ACE2, exposição de células animais ao vírus e testes de anticorpos em animais na natureza.

Transmissões entre espécies acontecem de animal para animal, animal para humano, e humano para animal, e são cada vez mais inevitáveis conforme o homem estabelece mais ligações entre si e com o meio natural.

Smita Iyer, virologista e imunologista da Universidade da Califórnia em Davis, disse à revista Smithsonian que a pandemia deveria servir como alerta para o grau de invasão e destruição que o homem vem promovendo nos espaços selvagens do mundo.

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