Juntos ou a distância: como 3 casais lidam com a quarentena

Mais de um mês depois da adoção do distanciamento social no país, parceiros que se afastaram ou que passaram a viver na mesma casa dão depoimentos em vídeo sobre como encaram as mudanças na relação

A pandemia do novo coronavírus alterou radicalmente o cotidiano depois que governos em diversos países, incluindo estados e cidades do Brasil, aderiram às regras de distanciamento social recomendadas por autoridades sanitárias como a OMS (Organização Mundial da Saúde). Isolados em casa para tentar conter a transmissão da covid-19, doença causada pelo vírus, muitas pessoas tiveram que adiar os encontros cara a cara até segunda ordem.

Além de famílias e amigos, a situação afetou casais que, desde a chegada da pandemia, foram obrigados a repensar a relação. Quem já vivia na mesma casa passou a lidar com a hiperconvivência depois do isolamento. Muitos casais, que moravam separados, decidiram viver juntos, numa medida de emergência para manter o contato. Outros preferiram se afastar durante a quarentena para evitar o contágio do vírus.

A mudança repentina vem acompanhada de uma série de incertezas: meu relacionamento vai sobreviver à pandemia? Como lidar com as novas regras de isolamento? Até que ponto é possível manter a vida normal?

Uma reportagem do jornal americano The New York Times contou a história de um casal que, depois da pandemia, passou a organizar encontros cada um em seu carro. A ideia incluía pedir duas pizzas por um serviço de delivery, recebê-las separadamente e jantar a alguns metros de distância, sem sair dos veículos. Foi a solução encontrada para estar junto e proteger um deles, que está no grupo de risco da covid-19.

O dilema do isolamento

Ao Nexo José Carlos Alves Filho, professor na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo) e integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Imunologia, recomendou que os casais que têm condições de se distanciar mantenham a mesma cautela e sigam as regras do isolamento social.

“Independentemente de ser [um encontro] com um namorado, com um amigo, um parente próximo, todo encontro com outra pessoa tem a chance de favorecer a transmissão do coronavírus. [Evitar a exposição a ele] é uma questão de preservar não só a si mesmo, mas os outros”

José Carlos Alves Filho

professor na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Imunologia, em entrevista ao Nexo

Quem mora junto deve evitar sair de casa o máximo possível, a não ser para o essencial. Casais que moram em casas diferentes também devem deixar de sair – e isso inclui se encontrar com o parceiro. Nesta fase, Alves Filho recomenda manter o contato a distância, por telefone ou redes sociais, para conversar e ter encontros.

Como ainda não existe remédio com eficácia comprovada contra o coronavírus, nem vacina, o distanciamento social é apontado pela OMS como a medida mais efetiva para retardar a velocidade de propagação do vírus. A organização diz que, se a multiplicação dos casos não for contida, os sistemas de saúde chegarão ao colapso, com falta de leitos hospitalares e de equipamentos para pacientes em estado grave.

Ainda em ascensão no Brasil, a epidemia está batendo recordes de mortes, sobrecarregando hospitais nos estados e promete ainda fazer milhares de novas vítimas, em ritmo cada vez mais acelerado, segundo estudos. Apesar da piora da crise, a adesão ao distanciamento tem caído em diversas cidades.

Alves Filho destaca que a covid-19 tem alta taxa de propagação assintomática, ou seja, de pessoas que transmitem o vírus sem saber, pois não mostram sintomas. Como o Brasil tem baixo índice de testagem, é provável que a situação da epidemia esteja pior do que os números oficiais indicam. O professor lembrou também que, nas decisões do dia a dia, é preciso proteger quem faz parte do grupo de risco.

“A gente não está preparado para ficar numa situação de isolamento”, disse o professor. Ele reforça, no entanto, que se trata de uma fase. “Não sabemos quanto tempo isso ainda vai durar, mas não vai ser o resto da vida. É preciso pensar, colocar na balança se realmente vale a pena sair de casa agora e se colocar em risco, colocar outras pessoas em risco.”

O Nexo conversou, na última semana de abril, com três casais que vivem na cidade de São Paulo (epicentro da epidemia no país) e mudaram a rotina. Até a chegada do vírus, dois deles viviam separados e um dividia a mesma casa. A partir de então, o casal que morava junto se afastou, um casal que vivia separado passou a morar junto e o outro casal está distante, sem se ver há semanas.

Ele médico, ela jornalista: afastados pela covid-19

A jornalista Giovanna Chencci e o estudante de medicina Pedro Simões moram em bairros próximos de São Paulo, mas estão há semanas sem se ver por causa da covid-19. A decisão se deu depois que Giovanna viu que seria arriscado manter contato com o namorado, exposto à doença por causa da profissão, e ao mesmo tempo conviver com os pais, que cuidam de sua avó, mais vulnerável ao coronavírus.

Ao longo da relação, que já dura oito anos, o casal passou por fases em que estiveram distantes — os dois fizeram intercâmbio em épocas diferentes, num período que durou mais de um ano, por exemplo. Apesar disso, eles dizem que o afastamento agora tem sido mais difícil, porque não se sabe quanto tempo a pandemia irá durar. A sugestão dos dois é ser paciente durante esta fase e manter o companheirismo.

Ainda juntos, vivendo em casas diferentes

A professora Amanda Miranda e o profissional de TV Thiago Ferreira estavam morando juntos havia menos de um mês quando o isolamento começou em São Paulo, e o casal decidiu se afastar. A decisão foi tomada porque a emissora em que Thiago trabalha não o dispensou, e ele temeu que sua presença em casa colocasse em risco a saúde da companheira e de seu enteado, que tem asma e uma cardiopatia, condições que o colocam no grupo de risco.

Amanda e Thiago se conheceram tocando no mesmo grupo de maracatu. Namoram há 10 meses, numa relação que Thiago define como “quase um casamento”. Após a pandemia, ele vê a companheira pouco, apenas para levar compras para ela em casa. Matam a saudade conversando por mensagens, combinando a mesma rotina (como a hora de dormir) e dedicando poemas e desenhos um ao outro.

Morando juntas por causa da pandemia

A servidora pública Fernanda Duarte e sua namorada, Beatriz Bertarelli, que trabalha na empresa de bebidas Ambev, decidiram morar juntas na casa de Beatriz ainda em março, no início da adesão ao distanciamento social em São Paulo. Namorando há 10 meses, após se conhecerem em uma aula de futebol, elas contaram ao Nexo que a mudança é definitiva.

Ao se juntar, Fernanda e Beatriz não estranharam a convivência, pois antes as duas já iam à casa da outra com frequência. Agora, confinadas, elas tentam criar uma rotina comum, cozinhando ou fazendo exercícios físicos. Elas deixam de ficar juntas apenas na hora do trabalho, quando se instalam em cômodos diferentes, para evitar que uma atrapalhe a outra.

Colaborou Mauricio Abbade com os vídeos

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