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Quais as críticas a Shinzo Abe durante a pandemia no Japão

Premiê japonês retardou adoção de quarentena e promove remédios de efeito duvidoso, em comportamento similar a líderes como Trump e Bolsonaro

    O governo do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, decretou estado de emergência nacional por causa da pandemia do novo coronavírus no dia 7 de abril. Seis dias depois, uma pesquisa feita pela emissora japonesa NHK mostrou que, para 75% da população, Abe agiu tarde demais.

    Até a emergência ser decretada, o premiê japonês preferiu manter uma postura de certa incredulidade, minimizando os riscos de alastramento descontrolado da doença, mesmo sem negar completamente sua gravidade. Para ele, a economia japonesa não podia parar por causa de uma crise sanitária, nem a Olimpíada, marcada para ocorrer em Tóquio nos meses de julho e agosto, poderia ser cancelada. Hoje, o evento foi adiado para 2021 mas não tem data para acontecer.

    No dia em que Abe finalmente decretou emergência nacional pela primeira vez, o Japão contava 1.200 infectados e 93 mortos pela covid-19. Um mês depois, na quinta-feira (7), eram mais de 15 mil infectados, enquanto o número de mortos havia crescido seis vezes, somando 556 vítimas fatais pela doença em todo o país. Na segunda-feira (4), Abe prorrogou o estado de emergência até pelo menos 31 de maio.

    Na mesma data, a Coreia do Sul – que tem 51,6 milhões de habitantes, a metade da população do Japão – registrava apenas 256 mortes pelo novo coronavírus, ou seja, menos da metade que o número de mortos japoneses, mesmo estando mais perto e mais conectada à China, primeiro epicentro mundial da doença.

    Para muitos moradores do arquipélago japonês, essa escalada poderia ter sido evitada, caso Abe tivesse tomado medidas mais efetivas ainda em março, como fizeram os europeus, ou mesmo antes, como fez a vizinha China e outros países asiáticos.

    Na mesma linha de Bolsonaro e Trump

    Um mês antes de Abe decretar emergência, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, referia-se ao Japão como um exemplo de país que controlava a pandemia preservando a economia, sem decretar o confinamento da população.

    Ao mesmo tempo, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike – que chegou a ser ministra da Defesa do gabinete de Abe em 2007, quando o atual premiê teve uma breve passagem de um ano pelo cargo, antes de assumir, em 2012, o mandato atual – já alertava que o país vivia uma “crise explosiva de infecção”, e precisava da quarentena para frear a propagação do vírus; algo que Abe só faria em abril, e que o presidente brasileiro nunca apoiou totalmente.

    A gestão que o primeiro-ministro japonês faz da crise o aproxima de líderes como o presidente americano, Donald Trump, nos EUA, e Jair Bolsonaro, no Brasil. Todos têm em comum pelo menos três fatores: minimizaram a ameaça da covid-19, viram sua popularidade cair na pandemia e promoveram remédios de eficácia não comprovada como uma possível cura para os infectados.

    Pela primeira vez em dois anos, o número de japoneses que reprovam Abe (47%) é superior aos que o aprovam (42%). Algo semelhante ocorre com Trump nos EUA (53% desaprovam e 45% aprovam) e com Bolsonaro no Brasil (38% reprovam e 33% aprovam), onde a popularidade desses dois presidentes também registrou queda durante a pandemia.

    Assim como Trump e Bolsonaro promoveram a cloroquina como um remédio eficaz contra a covid-19, mesmo sem comprovação científica disso, Abe também fez o mesmo com outra droga, o Avigan, de nome genérico favipiravir. O premiê japonês destinou US$ 130 milhões para aumentar o estoque do produto no país, mesmo diante do alerta de cientistas locais de que sua eficácia não é comprovada, e de que a droga pode causar má formação fetal, como ocorreu com a talidomida nos anos 1950 e 1960.

    Quando reagiu tardiamente à pandemia, Abe investiu num programa de distribuição popular de máscaras que, por seus problemas, acabou virando meme no Japão. Uma das empresas fornecedoras teve de fazer um recall do produto, que apresentava defeitos de fabricação e até fios de cabelo dentro das embalagens. Além disso, a oposição acusou o primeiro ministro de favorecer um empresário chamado Shigeru Hiyama, que foi condenado por evasão fiscal em 2019 e é próximo do Partido Komei, que faz parte da coalizão governista. Uma das empresas de Hiyama, a Hiyama Youthbio, baseada em Fukushima, foi escolhida para produzir parte das máscaras.

    Peculiaridades da política japonesa

    Trump e Bolsonaro são expoentes da nova extrema direita populista. Abe partilha do discurso moralmente conservador, economicamente liberal e acentuadamente belicista e nacionalista, embora o Japão tenha muitas peculiaridades que não podem ser transplantadas numa comparação direta com a política americana ou brasileira. Um exemplo é o fato de Abe não usar as redes sociais como Trump e Bolsonaro fazem.

    O Japão é uma monarquia parlamentarista. O primeiro-ministro é o chefe de governo e de Estado, respondendo tanto pelos assuntos internos quanto internacionais. O imperador – que desde 2019 é Naruhito – tem funções culturais, históricas e até religiosas, dentro do xintoísmo japonês, mas não governa.

    O Partido Liberal Democrata de Shinzo Abe mantém-se no poder desde 2012. Em todo esse período, Abe tornou-se um dos líderes mais longevos do Japão, promovendo uma agenda radical de reformas econômicas liberais e defendendo a alteração da legislação nacional que, desde o pós-Guerra (1945), limita a capacidade de engajamento militar japonês.

    Abe é “líder de uma nova geração de políticos desinibidos, e defende a volta de um Japão firme e forte diplomática e militarmente”, disse ao Nexo, em fevereiro, a francesa Céline Pajon, pesquisadora responsável pelo Japão no centro de estudos asiáticos do Ifri (Instituto Francês de Relações Internacionais), em Paris.

    “O Partido Liberal Democrata de Shinzo Abe mantém-se no poder desde 2012, graças a uma oposição dividida e à passividade dos eleitores, mais do que em razão do que poderia ser uma capacidade eleitoral assentada sobre uma forte adesão popular ou de seus próprios valores”, disse Pajon.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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