Por que as mortes dentro de casa aumentaram em meio à pandemia

Nos dois meses seguintes ao primeiro caso de covid-19 registrado no Brasil, país teve 15% mais óbitos domiciliares em relação ao mesmo período de 2019

Desde o anúncio do primeiro caso de um infectado pelo novo coronavírus no Brasil, as mortes de pessoas dentro de casa no país aumentaram 14,6% em relação a 2019. De 26 de fevereiro, quando foi confirmada a primeira contaminação pelo vírus em São Paulo, a 26 de abril, data do último dado consolidado, os cartórios brasileiros registraram 4.552 óbitos domiciliares a mais do que no mesmo período do ano passado, segundo informações do Portal da Transparência do Registro Civil.

A alta foi observada em 19 dos 27 estados brasileiros e em 20 capitais do país. Nos estados que mais sofrem com a epidemia, o crescimento foi superior à média nacional. No Amazonas, por exemplo, onde o sistema de saúde entrou em colapso, o registro de mortes dentro de casa cresceu 94,7% (apenas na capital, Manaus, o aumento foi 120%).

No Rio de Janeiro, que também sofre com a falta de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), o crescimento foi de 34,8%. Já em São Paulo, o estado com o maior número de casos registrados e de mortes pela covid-19, a alta de óbitos domiciliares foi de 21,8%.

35.551

brasileiros morreram em casa entre 26 de fevereiro e 26 de abril de 2020, segundo o Portal da Transparência do Registro Civil

30.999

foi o número de óbitos domiciliares no mesmo período de 2019

O Portal da Transparência do Registro Civil é mantido pela Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) e usa dados das declarações de óbitos registradas em 7.672 cartórios. Os cartórios possuem até cinco dias para registrar um óbito e mais oito dias para enviar a informação para a Central Nacional de Informações de Registro Civil, que alimenta o portal.

O Brasil alcançou na quinta-feira (7) 135.106 casos confirmados do novo coronavírus e 9.146 mortes. Desde terça-feira (5), o país registra pelo menos 600 novas vítimas da doença por dia.

As mortes em outros países

O aumento de mortes em casa em meio à pandemia do novo coronavírus não tem acontecido apenas no Brasil. Em países como Estados Unidos, Itália e Espanha, grande parte dos óbitos pela covid-19 ocorreram fora dos hospitais.

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 4 de maio, o engenheiro Pércio de Souza e o médico Ben-Hur Ferraz Neto mostraram que, mesmo com a presença de leitos de UTI ociosos em países europeus desde meados de março, os óbitos domiciliares continuaram a ser registrados.

Na Lombardia, região mais afetada da Itália, 1.300 pessoas ocupavam leitos de UTI em 27 de março. Nos dez dias seguintes, ocorreram 3.500 mortes na região. “Assumindo que uma parcela desses internados morre e mesmo considerando uma rotatividade nos leitos, é fácil deduzir que a maioria dos óbitos não passou pelas UTIs. Isso se repete nas demais províncias italianas com maior ou menor intensidade”, escrevem os autores.

Nos Estados Unidos, dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) apontam que mortes de pacientes nas UTIs representam apenas 20% do total, por diversas causas. O restante pode ocorrer em casa, em vias públicas ou outros lugares.

As possíveis explicações

Não há uma única explicação para o aumento dos óbitos domiciliares. Segundo especialistas, elas podem estar relacionadas com a sobrecarga dos hospitais que mandam os pacientes de volta para casa, com o medo das pessoas de ir ao pronto-socorro e se infectar pela doença e com uma característica observada em alguns casos de doentes da covid-19 de piora repentina e morte súbita pelo vírus.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Lotufo afirmou que alguns pacientes perdem oxigenação do sangue sem sentir “a falta de ar que era esperada”. “Há também comprometimento da circulação por causa de microcoágulos causados pelo vírus. Tudo isso pode levar a uma morte repentina”, disse.

A negligência dos pacientes também pode colaborar para o quadro de aumento das mortes em casa. Um estudo de 2014 elaborado por pesquisadores da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) mostrou que existem determinantes sociais na busca por serviços de saúde.

Quanto maior a renda e a escolaridade, mais as pessoas vão atrás de um médico. Mulheres, pessoas brancas e mais velhas também se preocupam mais em ter assistência de um profissional. Apenas 25% dos homens tinham buscado atendimento no período estudado pela pesquisa, enquanto esse número era de 42% entre as mulheres. Já se sabe que o novo coronavírus mata mais os homens e agora tem atingido também os mais pobres com mais força.

Uma análise sobre os óbitos domiciliares

Para tentar entender os motivos do aumento no número de mortes dentro de casa em meio à pandemia, o Nexo conversou com a pesquisadora Alitéia Santiago Dilélio, que é doutora em epidemiologia e professora adjunta da Faculdade de Enfermagem da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas). Ela é uma das autoras do estudo de 2014 sobre os padrões de uso de atendimento médico-ambulatorial no Brasil.

O que pode explicar o aumento de mortes dentro de casa?

ALITÉIA DILÉLIO Teríamos de explorar as questões referentes às possíveis barreiras geográficas e estruturais de acesso aos serviços de saúde, à assistência médica e à oferta e capacidade de atendimento. Também poderíamos abordar a importância que o indivíduo atribui ao problema de saúde vivenciado, pensando em realizar a busca pelo serviço apenas no agravamento dos sintomas clínicos.

Os indivíduos mais escolarizados e com melhores condições socioeconômicas compreendem melhor os riscos e a necessidade breve de busca pelo atendimento. Eles têm melhor e maior acesso aos serviços de saúde, podendo usufruir, na maioria dos casos, de atendimento médico particular ou por convênio. Claro que essas hipóteses podem ser pensadas considerando a classificação econômica em que se encontrariam esses óbitos. Ter acesso a essa informação revelaria o quanto a desigualdade socioeconômica afeta a busca, o acesso e o cuidado em saúde.

Também não podemos perder de vista que os óbitos em casa não necessariamente foram causados pela covid-19. Devido às orientações de se manter em isolamento e evitar aglomerações, indivíduos com doenças crônicas podem não estar realizando o tratamento adequado ou concluindo diagnósticos, de forma a agravar seu estado de saúde.

Todas essas questões são hipóteses que poderiam ser consideradas, entendendo que ainda não temos informações suficientes para analisar todo o contexto. Eles ainda podem ter optado por não buscar o serviço ou ter buscado e não ter conseguido o atendimento em tempo oportuno.

O que poderia ser feito para evitar essas mortes?

ALITÉIA DILÉLIO Melhorar o nosso processo de trabalho, isto é, reorganizar nossos serviços de saúde, melhorando a oferta, facilitando o acesso a indivíduos sintomáticos, realizando o diagnóstico precoce, ofertando condições adequadas para o isolamento de sintomáticos com acompanhamento e intervenção em tempo oportuno. Além disso, dar orientações adequadas, objetivas, em linguagem adequada ao público alvo, e ofertar insumos, como máscaras e luvas, e saneamento básico em quantidade e qualidade. Também é preciso garantir a manutenção dos tratamentos (medicamentosos e clínicos) para as comorbidades pré-existentes, para que não aumentem suas exposições e riscos de maior adoecimento.

No município de Pelotas (RS), o formato do atendimento na APS (Atenção Primária à Saúde) foi modificado. A população com sintomas respiratórios é orientada a buscar o serviço de saúde em um turno, e no turno inverso são ofertados os demais atendimentos, como as ações programáticas de puericultura (ciência que favorece o desenvolvimento físico e psíquico das crianças, da gestação à puberdade) e pré-natal.

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