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Como investidores da bolsa se comportam na pandemia

No Brasil, pessoas físicas compram mais que estrangeiros e investidores institucionais durante a crise de 2020. O ‘Nexo’ ouviu uma especialista para entender esse fenômeno

    A pandemia do novo coronavírus atingiu com força a bolsa de valores de São Paulo. A partir do final de fevereiro de 2020, a bolsa acumulou perdas bilionárias, principalmente em decorrência dos efeitos negativos da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, sobre as perspectivas econômicas do país.

    Nesse período, outros fatores também ajudaram a derrubar os preços das ações negociadas no pregão. Entre eles, a crise internacional do mercado de petróleo – que levou preços de barris a ficarem até mesmo negativos em alguns mercados – e a crise política e institucional brasileira.

    A combinação dos fatores levou a uma grande instabilidade do mercado de capitais, com registro de alta volatilidade e incerteza para os investidores.

    QUEDA ACUMULADA EM 2020

    Evolução acumulada do Ibovespa desde o início de 2020. Queda forte entre o fim de fevereiro e o fim de março. Até o fim de abril, queda acumulada de 30%

    O gráfico acima mostra a evolução do Ibovespa, principal índice da bolsa de São Paulo, desde o início de 2020. Mesmo com a recuperação parcial no mês de abril, as perdas acumuladas nos quatro primeiros meses do ano ficaram em pouco mais de 30%. Isso cortou uma sequência de quase quatro anos de trajetória de alta da bolsa.

    Os diferentes tipos de investidores

    Na bolsa, participam diferentes tipos de investidores. Eles vão desde fundos de investimentos estrangeiros até o investidor individual, passando por empresas com capital aberto e bancos. Isso significa que há uma variedade grande de perfis entre aqueles que negociam ações no pregão. Os três maiores grupos de investidores são:

    • Investidor estrangeiro
    • Investidor institucional, como fundos, seguradoras e bancos
    • Investidor individual, pessoa física

    Esses três grupos, conjuntamente, representam a maior parte dos negócios fechados na bolsa. Nos quatro primeiros meses de 2020, eles foram conjuntamente responsáveis por mais de 95% de todo o volume de compras e vendas de ações na bolsa de São Paulo.

    TIPOS DE INVESTIDORES

    Participação no volume de compras e vendas na bolsa em 2020.  46% estrangeiros, 32% institucionais e 18% individuais.

    O investidor individual na bolsa

    O número de investidores individuais na bolsa de São Paulo vem crescendo ano a ano. Em especial, houve um crescimento muito forte a partir de 2017. Entre 2016 e abril de 2020, o número de investidores individuais na bolsa mais que quadruplicou.

    INVESTIDORES INDIVIDUAIS

    Número de investidores tipo pessoa física na bolsa de SP. Crescimento alto desde 2016

    IDADE

    Participação das pessoas físicas, por faixa etária. Faixa com maior número de contas é entre 26 e 35 anos. Mas a faixa com mais dinheiro investido é a com mais de 66 anos.

    SEXO

    Participação das pessoas físicas, por sexo. Proporção de contas de homens e dinheiro investido similar, na faixa dos 77%. Mulheres com em torno de 23%.

    ESTADOS COM MAIOR PARTICIPAÇÃO

    Participação das pessoas físicas, por estado.  SP com 40% das contas, mas 50% do dinheiro investido. Outros cinco estados com participação alta, do segundo ao sexto, em ordem: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná

    O comportamento na pandemia

    O comportamento do investidor individual desde o início da crise pandêmica foi diferente dos outros tipos de investidores. A começar pelo número de pessoas que participam da bolsa. Conforme mostrado acima, mesmo com queda de 30% do Ibovespa nos quatro primeiros meses de 2020, mais de 700 mil novas pessoas se registraram com CPF na bolsa nesse período.

    Ao mesmo tempo, se estrangeiros e institucionais retiraram dinheiro ou diminuíram o ritmo do saldo de compra, os individuais investiram a níveis superiores a qualquer outro período recente anterior. Com isso, a pessoa física se tornou o maior comprador líquido do mercado de capitais de São Paulo, justamente em um período de forte desvalorização da bolsa.

    COMPRAS MENOS VENDAS

    Saldo de compras e vendas, por tipo de investidor. Individual aumentou compras na pandemia, enquanto os outros tipos reduziram o saldo.

    Em março, mês em que a bolsa acumulou queda de quase 30%, os investidores individuais colocaram R$ 17,5 bilhões na bolsa, indo na contramão do movimento dos outros tipos de investidores. Os estrangeiros seguiram a tendência anterior de retirada de dinheiro, que já vinha desde 2019. Já os institucionais frearam o ritmo do saldo de compras em março, vendendo mais do que comprando em abril.

    Esses números não querem dizer que o investidor individual necessariamente perdeu dinheiro no mercado de capitais; eles indicam que, no geral, a queda da bolsa foi encarada pelo investidor indiviudal mais como uma oportunidade do que algo a se recear.

    Uma análise sobre o comportamento dos investidores

    O Nexo conversou com a professora Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV-EAESP, para entender o que está por trás dos comportamentos dos investidores na bolsa – em especial os individuais.

    O que explica os investidores individuais estarem comprando mais na pandemia, na contramão de outros investidores?

    Claudia Yoshinaga A gente pode ver muito investidor individual agindo talvez como vendo uma oportunidade de fazer algum ganho extraordinário na bolsa, tentando acertar timing. São talvez aquelas compras que pegam aqueles dias em que a desvalorização foi muito forte, e que vários deles conseguiram aproveitar para justamente fazer posições de compra. Muitos desses investidores podem ter decidido se arriscar mais e comprar.

    O que não necessariamente foi uma postura que investidores institucionais tiveram, principalmente porque em alguns casos esses investidores institucionais têm limitações para conseguir fazer isso. Então se imaginarmos um dia em que a volatilidade foi muito alta e a queda foi muito grande, imagino que muitos desses institucionais podem até ter sido obrigados a liquidar posições por conta de políticas de stop loss [mecanismos automáticos de venda de ações quando há uma queda de tamanho pré-determinado no preço]. E aí foi uma oportunidade para alguns investidores de pessoa física justamente fazerem as posições contrárias, que seria comprar essas ações.

    Também podemos imaginar que muitas vezes, o investidor individual é menos favorecido em termos de informação. Investidores institucionais têm seus analistas e pessoas que ficam em contato com as empresas o tempo inteiro, e que talvez tenham acesso a informações de maneira mais antecipada.

    Esse comportamento é algo novo ou já era identificado antes da pandemia?

    Claudia Yoshinaga Acho que isso é um fenômeno bastante conhecido. E a gente até já tem evidências mostrando que investidores individuais que querem acertar muito o timing dessas compras e vendas são bastante prejudicados em termos de rentabilidade, no geral. Existem alguns estudos mostrando que day traders [compra e venda de uma ação em um mesmo dia, buscando lucro com a oscilação de preço] aqui no Brasil têm um desempenho bastante ruim. Muitas vezes (mais de 90% dos casos) eles perdem dinheiro. Então não é exatamente um fato novo.

    Comprar uma ação em baixa é uma boa estratégia para investir?

    Claudia Yoshinaga Depende. A gente tem que lembrar que, se acreditamos em um equilíbrio mínimo de mercado, tudo que está barato está barato por algum motivo. E aí temos que tomar um cuidado se estamos falando de barganhas – coisas que estão baratas porque o mercado reagiu de maneira exagerada a uma notícia negativa, o que fez com que o preço caísse além do que devia. Nesse caso, podemos dizer que foi uma boa compra, porque houve uma liquidação.

    Agora, a gente pode encarar situações em que essa desvalorização realmente implica em uma desvalorização de médio-longo prazo. E que, se não recuperar tão cedo, não vai ser necessariamente um bom investimento.

    E na pandemia, qual desses tipos de desvalorização é mais comum na bolsa?

    Claudia Yoshinaga Acho que podemos dizer que tem das duas coisas. Uma delas é a gente de fato imaginar que uma parte de desvalorização é esperada, considerando que empresas vão perder mais receitas. Algumas empresas tiveram uma limitação de vendas, até por conta do distanciamento físico que as pessoas estão fazendo agora. Nesse caso, podemos dizer até que é esperado e razoável que essas empresas apresentem quedas.

    Por outro lado, a gente tem diversas evidências mostrando que essas reações, ainda que sejam legítimas, são exageradas – no sentido de que no dia seguinte há um certo grau de correção. Por exemplo, pegando o dia da pior queda de março: tivemos uma queda bastante forte num dia e no dia seguinte tivemos uma valorização bastante alta, também. Foi seguido de um certo grau de correção. Então podemos dizer que existem essas duas coisas.

    O que os investidores individuais podem fazer para minimizar perdas neste momento de queda da bolsa?

    Claudia Yoshinaga Um dos pontos importantes é tentar não querer acertar qual é o minuto ou o dia certo para entrar nesses investimentos – a menos que você de fato queira fazer essa aposta e esteja disposto a correr esse risco. Esse é um ponto que é muito difícil da gente conseguir acertar como investidor pessoa física que não vive necessariamente de comprar e vender ações: acreditar que consegue ter informações completas ou informações muito boas sobre a empresa para achar qual é o momento certo de comprar ou vender ações. Nesse sentido, tentar acertar é um negócio muito complicado.

    Uma recomendação que eu daria é talvez não tomar decisões no calor do momento. Muitas evidências mostram que decisões que são tomadas movidas pela emoção são ruins. Então [recomendo] pensar numa estratégia de qual é o momento de vender – isso antes do pregão começar. Tendo quanto de valorização eu vou realizar essa venda? Aceito ter uma perda de até “quantos por cento”? Acho que essa é uma recomendação importante.

    Cada investidor vai ter regras diferentes ou métricas diferentes de quando é a hora certa de vender aquele papel. Então, nesse sentido, ter uma cabeça fria e estabelecer para si mesmo regras que funcionem para você são recomendações importantes.

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