Quais as versões sobre um complô mercenário na Venezuela

Veterano americano e desertores venezuelanos publicam vídeo conclamando deposição de Maduro, pouco antes de desembarque frustrado no Mar do Caribe

    O governo do presidente Nicolás Maduro declarou no domingo (3) ter desbaratado um complô internacional que pretendia levar a cabo um golpe de Estado na Venezuela.

    O episódio foi revelado pelo governo após a interceptação de duas embarcações com homens armados que tentaram penetrar em pontos distintos dos estados de Vargas e de Aragua, ambos na costa central da Venezuela, sobre o Mar do Caribe.

    Pelo menos 15 pessoas foram presas e oito foram mortas, depois de intensa troca de tiros com membros das Faes (Forças de Ações Especiais), tropa de elite das Forças Armadas da Venezuela. O confronto teve início na madrugada de domingo (3), depois que moradores locais alertaram a polícia sobre a movimentação suspeita no litoral.

    As primeiras notícias divulgadas pelo governo Maduro foram recebidas com incredulidade. Membros da oposição falaram numa armação para justificar novas perseguições a adversários políticos, mas, com o passar dos dias, o cruzamento de relatos, a exibição de armas, munições e documentos apreendidos, e sobretudo as declarações dadas por mercenários americanos e por militares venezuelanos desertores corroboraram a versão de Maduro.

    O presidente da Venezuela disse na terça-feira (5) que dois americanos estão entre os 15 detidos. Eles foram identificados como Luke Denman e Airan Berry. Maduro disse que ambos são “membros da segurança” do presidente dos EUA, Donald Trump, que negou envolvimento, mas anunciou que vai investigar o caso.

    Maduro acusou ainda o presidente da Colômbia, Iván Duque, de acobertar a operação secreta, uma vez que os aparelhos de GPS apreendidos nas embarcações indicariam que o ponto de partida do grupo teria sido a Colômbia.

    O procurador-geral venezuelano, Tarek William Saab, assumiu a investigação do caso, e apontou para o envolvimento do líder opositor Juan Guaidó. Com apoio de mais de 50 países, Guaidó reivindica para si a presidência legítima da Venezuela, em contraposição a um Maduro acusado de ter fraudado as eleições presidenciais de 20 de maio de 2018.

    A disputa Guaidó-Maduro mantém o país num violento impasse político que já dura dois anos, e que deve se agravar ainda mais depois dessa operação frustrada.

    Qual a versão do governo Maduro

    O governo venezuelano diz que a tentativa de desembarque não é um fato isolado, mas parte de um complô maior, cujas raízes estão em outro intento frustrado de golpe de Estado protagonizado pelo desertor Óscar Pérez, morto a tiros pelas forças venezuelanas depois de um cerco que durou várias horas nos arredores de Caracas, em janeiro de 2018.

    O plano, ainda de acordo com membros do governo Maduro, envolve um grupo de oficiais venezuelanos desertores que, com apoio internacional, tentam acionar células revolucionárias de insurgentes dentro do território da Venezuela.

    Uma figura chave nesse plano, afirma o governo Maduro, é o veterano das forças especiais dos EUA Jordan Gourdreau, que assumiu publicamente vinculação com o intento fracassado de desembarque no domingo (3) na costa venezuelana, e com um plano mais amplo de deposição do governo. Goudreau é dono de uma empresa privada de serviços militares na Flórida, chamada Silvercorp USA.

    Goudreau, cujo paradeiro é desconhecido, disse em um vídeo publicado no sábado (2) que tem um grupo de homens treinados dentro da Venezuela, e afirmou ter sido traído pelo opositor Guaidó. De acordo com o veterano, o líder opositor venezuelano teria dito que repassaria a ele US$ 212 milhões. Esse dinheiro viria de contratos internacionais da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, cujos ativos internacionais vêm sendo bloqueados pelos EUA. Os americanos bloqueiam esses recursos para impedir que Maduro tenha acesso a eles, e, em seguida, repassam os valores a Guaidó, tido pela Casa Branca como o presidente legítimo da Venezuela.

    Campos de treinamento na Colômbia

    A agência de notícias americana Associated Press diz que Gourdreau mantinha campos de treinamento de mercenários na Colômbia, mas que muitos desertaram recentemente com medo de contaminação pelo novo coronavírus. Guaidó nega que tenha contratado “mercenários” para agir contra Maduro, e diz que não tinha conhecimento de que operações nesse sentido vinham sendo articuladas a partir da Colômbia. “Não temos relação nem responsabilidade nenhuma com a empresa Silvercorp e com seu representante”, disse Guaidó na segunda-feira (4).

    No desembarque de domingo (3), as lanchas teriam partido de Riohacha, na Colômbia, na noite de sábado (2) – uma delas com 12 pessoas a bordo, a outra com 47. A intenção era, segundo o governo, atacar as instalações do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional) e a Dgcim (Direção de Contrainteligência Militar) no balneário de La Guaira, e, de lá, chegar ao Palácio Miraflores, sede do Executivo venezuelano, localizado em Caracas, a pouco mais de 30 quilômetros da costa.

    Os planos do grupo começaram a dar errado ainda no dia 24 de março, quando forças colombianas apreenderam um arsenal de guerra (26 fuzis, mais de 30 óculos de visão noturna e mais de 40 lançadores de granada, entre outras armas e munições) do lado colombiano da fronteira, conforme noticiado por jornais locais.

    O homem que levava o arsenal numa caminhonete, Jorge Alberto Morales Duque, disse aos policiais, no momento da prisão, que entregaria a encomenda a um homem conhecido como Pantera. O governo venezuelano identifica Pantera como Robert Colina Ibarra. Ele é um ex-capitão da Guarda Nacional e comandante de uma das células que estariam envolvidas no complô ao qual Maduro se refere e na tentativa frustrada de desembarque.

    De acordo com os relatos do próprio Goudreau, o grupo teria decidido seguir em frente com o plano, mesmo com parte do arsenal tendo sido apreendida na Colômbia. A tentativa acabou frustrada pela operação venezuelana de domingo (3) no litoral.

    O que diz a oposição venezuelana

    Guaidó, no início, acusou Maduro de forjar a história sobre o complô para desviar o foco das atenções, colocadas sobre uma série de incidentes violentos recentes em cárceres venezuelanos, num apagão que atingiu 16 estados e na pandemia do novo coronavírus no país.

    Com o passar dos dias, no entanto, o líder opositor deixou de refutar os relatos a respeito da tentativa de desembarque e passou a dizer que o governo Maduro fez do incidente uma arapuca.

    Na versão de Guaidó, a inteligência venezuelana sabia dos planos de desembarque, e atuou deliberadamente para promover um massacre na costa, fingindo agir de surpresa.

    “Estavam esperando para massacrá-los”, disse Guaidó. “Maduro, você é o responsável, você sabia dessa operação, infiltrou agentes e esperou para massacrá-los”, afirmou por meio de nota.

    Nas redes sociais, Guaidó ainda acusa o governo de violar os direitos humanos das pessoas capturadas na operação, e diz que os corpos das vítimas serão colocados em valas comuns.

    Com ironia, Diosdado Cabello, homem forte do governo venezuelano e líder do partido político de Maduro, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), cobrou pronunciamento do secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), o uruguaio Luís Almagro, e dos membros do Grupo de Lima, formado por países americanos que atuam por uma transição na Venezuela.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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